ECONOMIA e SOCIEDADE por Jose Porfiro


Segunda-feira , 14 de Maio de 2012


PARA MELHORAR O DESENVOLVIMENTO

Por Dani Rodrik

As novas abordagens são agnósticas. Reconhecem que não sabemos o que funciona e que restrições ao desenvolvimento costumam ser específicas de cada contexto

VALOR ECONÔMICO, 14-05-2012

 

A indicação de Jim Yong Kim como presidente do Banco Mundial pode até ter sido previsível, dada a longa tradição que torna a escolha uma prerrogativa dos Estados Unidos. O fato de ter surgido concorrência, entre Kim e os outros candidatos, Ngozi Okonjo-Iweala e José Antonio Ocampo, no entanto, serviu para expor as profundas fissuras dentro do campo das políticas de desenvolvimento, uma vez que Kim e seus dois rivais representavam abordagens diferentes.

O ponto de vista representado por Kim consiste em seguir uma política de baixo para cima. É centrado diretamente nos mais pobres e na prestação de serviços - por exemplo, educação, assistência médica e microcrédito - às comunidades. O lema dessa linha de ação poderia ser: "O desenvolvimento é alcançado a partir de um projeto de cada vez".

A outra abordagem, representada por Okonjo-Iweala e Ocampo, segue uma linha econômica mais ampla. Enfatiza reformas abrangentes, que afetem todo o cenário econômico, e que, portanto, seja centrada em áreas como o comércio internacional, finanças, macroeconomia e governança.

No fim das contas, os dois campos deveriam mostrar mais humildade: os seguidores do macrodesenvolvimento, sobre aquilo que já sabem e os adeptos do microdesenvolvimento, sobre tudo aquilo que ainda podem aprender

Os seguidores do primeiro grupo idolatram líderes de organizações não governamentais, como Mohammad Yunus, cujo Banco Grameen foi pioneiro nas microfinanças, e Ela Bhatt, fundadora da Associação das Trabalhadoras Autônomas (Sewa, na sigla em inglês) da Índia. Os heróis do segundo grupo são ministros das finanças ou economia reformistas, como Manmohan Singh, da Índia, ou Fernando Henrique Cardoso, do Brasil.

À primeira vista, isso pode ser visto como outra disputa entre economistas e não economistas, mas as divergências estão dentro, e não fora, dos limites da disciplina.

Não é fácil determinar a eficiência relativa dos dois pontos de vista. Os defensores da abordagem macroeconômica destacam que os maiores sucessos de desenvolvimento normalmente são produto de reformas econômicas abrangentes. As reduções drásticas na pobreza atingidas na China ao longo de poucas décadas, da mesma forma que em outros países do Leste da Ásia, como a Coreia do Sul e Taiwan, resultaram, em grande parte, da melhora na gestão econômica (apesar de que investimentos prévios em educação e saúde podem ter desempenhado algum papel). Foram as reformas nos incentivos e nas disposições sobre os direitos de propriedade, e não programas antipobreza, que permitiram a decolagem dessas economias.

O problema é que essas experiências não se mostraram tão úteis para outros países, como seria desejável. Em particular, qual foi a chave para o milagre asiático? A liberalização econômica ou os limites que lhe foram impostos?

Além disso, a tradição macroeconômica vacila entre recomendações específicas ("estabelecer tarifas baixas e uniformes", "acabar com tetos de taxas de juros sobre os bancos", "melhorar sua classificação de 'ambiente de negócios'"), que encontram apoio limitado de acordo com as evidências em outros países, e recomendações abrangentes, que carecem de conteúdo operacional ("integração à economia mundial", "obtenção de estabilidade macroeconômica", "melhorar o cumprimento de contratos").

Especialistas desenvolvimentistas da tradição de baixo para cima, por sua vez, podem merecidamente reivindicar sucesso na eficiência de projetos de educação, saúde pública ou microcrédito em contextos específicos. Muito frequentemente, no entanto, tais projetos tratam dos sintomas da pobreza em vez das causas.

A pobreza, muitas vezes, não é mais bem combatida ajudando os pobres a fazer melhor o que já fazem, mas levando-os a fazer algo completamente diferente. Isso pede a diversificação da produção, urbanização e industrialização, o que, por sua vez, exige intervenções em políticas que podem estar a uma distância considerável dos pobres (por exemplo, determinar regulamentações ou seguir metas para o valor de uma moeda).

Além disso, assim como nas reformas na esfera macroeconômica, há limites para o que pode ser aprendido a partir de projetos individuais. Um TAC realizado sob condições específicas não gera evidências concretas úteis para autoridades políticas em outros cenários. A aprendizagem exige certo grau de extrapolação, convertendo avaliações aleatórias de evidências concretas (hard) em evidências "soft".

A boa notícia é que houve progresso real nas políticas de desenvolvimento e, apesar das diferenças de doutrinas, há certa convergência - não sobre o que funciona, mas sobre como devemos pensar e promover a política de desenvolvimento. Os melhores trabalhos recentes das duas tradições compartilham predileções comuns. Ambos favorecem estratégias diagnósticas, pragmáticas, experimentais e específicas para cada contexto.

A política de desenvolvimento convencional é propensa a modismos, passando de uma grande solução para outra. O desenvolvimento é limitado pela pouca ou muita interferência do governo, pelo pouco crédito, pela ausência de direitos de propriedade e assim por diante. A solução é o planejamento, o Consenso de Washington, o microcrédito ou a distribuição da propriedade da terra entre os mais pobres.

Em contraste, as novas abordagens são agnósticas. Reconhecem que não sabemos o que funciona e que restrições ao desenvolvimento costumam ser específicas de cada contexto. A experimentação política é parte central da descoberta, aliada com a monitoração e avaliação para concluir o ciclo de aprendizagem. Os experimentos não precisam ser do tipo TAC; a China certamente aprendeu com seus experimentos políticos sem ter um grupo apropriado de controle.

Os reformistas desse tipo têm duvidas quanto às "melhores práticas" e programas universais. Em vez disso, buscam políticas inovadoras, abrangentes ou não, que sejam específicas para as circunstâncias econômicas e complicações políticas locais.

O campo das políticas de desenvolvimento pode e deve ser reunificado em torno dessas abordagens contextuais e diagnósticas compartilhadas. Economistas do macrodesenvolvimento precisam reconhecer as vantagens do enfoque experimental e adotar a mentalidade política dos entusiastas da avaliação aleatória. Os do microdesenvolvimento precisam reconhecer que é possível aprender a partir de diversos tipos de evidências e que, embora as avaliações aleatórias sejam úteis, a utilidade de seus resultados é muitas vezes limitada pela pouca abrangência de sua aplicação.

No fim das contas, os dois campos deveriam mostrar mais humildade: os seguidores do macrodesenvolvimento, sobre o que já sabem e os do microdesenvolvimento, sobre o que podem aprender. (Tradução de Sabino Ahumada)

Dani Rodrik, professor de Economia Política Internacional na Universidade de Harvard, é autor de "The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy (O paradoxo da globalização: a democracia e o futuro da economia mundial). Copyright: Project Syndicate, 2012.

www.project-syndicate.org

 

 

O remédio certo não é mais regras e mais disciplina em políticas nacionais. 
Governança mundial sem liderança 
Por Dani Rodrik
A economia mundial está entrando em uma nova fase, na qual obter cooperação global será cada vez mais difícil.
VALOR ECONÔMICO, 16-01-2012

 

 

O SETOR E O TERRITÓRIO [[[+ A centralidade da manufatura por Igor Lopes Rocha]][

Por David Kupfer
A indústria está voltando a se espalhar pelo território nacional, revertendo um movimento de concentração em torno da região sudeste, especialmente no estado de São Paulo.
VALOR ECONÔMICO, 14-05-2012

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 04h57
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Quarta-feira , 09 de Maio de 2012


A DINÂMICA DA POLÍTICA BRASILERIA DE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA

 

O pensamento sobre inovação tecnológica no Brasil está tão avançado quanto nos países do eixo da Europa e América do Norte. Já os resultados da política propriamente dita, curiosamente, mantêm-se, há três décadas, bastante afastado daquilo que é analisado e interpretado por acadêmicos, bem como projetado e desejado pelos técnicos-burocratas.

Desde os anos 1970, temos a política de ciência e tecnologia mais avançada da América Latina. Com o acréscimo do tema da inovação na agenda governamental, nos últimos quinze anos, mantém-se a mesma constatação da superioridade da política (de ciência, tecnologia e inovação) brasileira face aos nossos vizinhos.

Desde que o IBGE começou a medir o índice de inovação das firmas brasileiras, por meio da Pesquisa de Inovação Tecnológica (PINTEC) – anos de 2000, 2003, 2005 e 2008 – que os pesquisadores e técnicos governamentais estão lutando para encontrar caminhos mais eficientes para que as firmas nacionais inovem mais.

O que mais se aproxima dessa situação é o chamado “paradoxo europeu”, expresso pela divergência entre um dos mais desenvolvidos sistemas de ciência e tecnologia mundial, de um lado, e um nível de inovação das firmas não tão dinâmico, de outro lado, comparando-se com as capacitações existentes. Claro que isso deve ser lido de forma bastante específica, dadas as óbvias diferenças entre Europa e Brasil.

No entanto, o chamado “paradoxo europeu”, mesmo com suas particularidades, serve de referência para se observar o quadro brasileiro, que é negativamente muito mais agudo e intenso, visto que os dados da PINTEC vêm mostrando níveis baixíssimos de inovação das firmas locais. Isso, num momento em que as mudanças tecnológicas são consideradas como os elementos definidores do crescimento e desenvolvimento econômico e social dos países.

Acadêmicos, técnicos-burocratas, tomadores de decisões, agências governamentais locais, agências multilaterais regionais e globais são unânimes em relação ao papel fundamental que a tecnologia desempenha no mundo atual. Nessa direção, no Brasil, desde a década de 1990, a inovação tecnológica invadiu o espaço da ciência e tecnologia, considerado o local privilegiado dos cientistas brasileiros, nas décadas anteriores.

Se compararmos os resultados da série da PINTEC, referente às firmas brasileiras, com a última edição do Science, Technology and Industry Scoreboard, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), verificamos que efetivamente o Brasil está muito aquém do que se espera de um país que tem o mais desenvolvido sistema de política de ciência, tecnologia e inovação da America Latina.

A propósito, veja o que disse o professor David Kupfer, atual assessor da presidência do BNDES, logo após a divulgação dos primeiros resultados da PINTEC de 2008: “ao menos em primeira análise, a nova edição da Pintec está mostrando um quadro pouco animador, para não dizer decepcionante. De acordo com a pesquisa, a taxa de inovação, isto é, a proporção de empresas que declararam terem introduzido pelo menos uma inovação no período 2006-2008, subiu para 38,4% ante 33,6% verificado no período 2003-2005. Aparentemente auspicioso, esse crescimento, porém, não foi acompanhado de igual expansão dos indicadores de esforço, que geralmente constituem medidas mais robustas da inovação” (Jornal Valor Econômico, 03-11-2010).

Esperamos as próximas PINTECs e Science, Technology and Industry Scoreboards. O que vem depois ninguém nunca tem certa. Por enquanto, são os resultados do passado e do presente que nos mostram o disparate entre as políticas e os seus resultados.

JORNAL PÁGINA 20, 09-05-2012

XXX

O aprendizado sobre o processo de desenvolvimento acriano

A capa da Revista Carta Capital, nº 694 (20-04-12), veio com a chamada “Crescimento e desenvolvimento”. O título interno se denominou “A miragem do crescimento”, com o subtítulo “O Brasil arcaico que ainda salta os olhos, apesar dos avanços”.

A matéria, muito bem escrita, abordou o Brasil recente, caracterizado por um considerável sucesso econômico (mesmo que com taxas de crescimento modestas). A partir desta constatação, a revista procurou discutir suas implicações seguindo um mote bem batido no meio desse debate: “Há quem confunda crescimento com desenvolvimento”.

Descreve-se o contraste entre a favorável trajetória econômica brasileira dos últimos anos e o aumento acelerado do custo de vida nas grandes metrópoles. Rio de Janeiro, por exemplo, tornou-se uma das cidades mais caras do mundo. Também se registra o choque entre a redução das desigualdades, miséria e ampliação da classe C, de um lado, e a inexistência do básico, de outro (habitação, saneamento, saúde, educação).

Um aprofundamento do Brasil atual também pode ser lido em dois livros recém-lançados. Um, de dentro do governo, contento importantes ponderações, “Nova classe média?: o trabalho na base da pirâmide social brasileira”, de Marcio Pochmann. Outro, de fora (autores ligados à tecnoburocracia psdbista, com o tom esperado, “Além da euforia”, de Fabio Giambiage e Armando Castelar.

Os dados compilados pela revista, contrastando o desempenho econômico e a situação social da população, são nacionais. É um quadro bem pintado, exigindo pouquíssimos retoques. Embora retrate uma situação desagradável, haja vista que o país, ao mesmo tempo em que aparece como uma das mais importantes economias mundiais, também revela suas inúmeras mazelas urbanas e rurais.

O Acre, meio brasileiro, também está nesta mesma situação nacional, com amplas mudanças em algumas áreas, nos últimos anos, mas ainda com pouca força na dimensão social, apesar de todos os esforços recentes. Não somos uma ilha. Além disso, ainda carregamos a incômoda pecha de sermos o estado com a pior distribuição de renda da Amazônia.

Por aqui, também temos a desvantagem de sermos um das unidades da federação onde a discussão, debate, reflexão, análise, interpretação, compreensão, apreensão da questão do desenvolvimento e suas políticas serem muito restringidas.

Por razões compreensíveis e de lógica de Estado, a linguagem governamental é ríspida e inflexível. E segmentos não governamentais também não conseguem estabelecer um diálogo além dos interesses imediatos das urnas. Ou seja, a possibilidade de qualquer debate afável (e reflexivo) é apenas um desejo. Nosso lado analógico está, nestas condições, desbeiçado.

Nesse sentido, poucas análises e interpretações estão disponíveis sobre as políticas de desenvolvimento dos últimos anos. Do lado do governo, a iniciativa mais ampla se deu pela contratação de uma consultoria, coordenada pelo Prof. Ricardo Paes de Barros, a qual fiquei sabendo numa palestra dele, no Instituto de Economia da UFRJ, no dia 24-06-2008. Ainda não tive a oportunidade de ter acesso ao relatório desta pesquisa. Na realidade, nem sei a quem recorrer.

Do lado acadêmico, estrito, tem algumas dissertações e teses, mas com pouca abrangência, o que nos priva de podermos conhecer melhor as concepções e resultados das políticas que vem sendo executadas.

Esse processo de descoberta, de análise e interpretação das políticas de desenvolvimento dos últimos doze anos vai acontecer de forma lenta e, muitas vezes, com pouca confiabilidade. Lenta, porque não vai ser tão fácil montar as peças que estão espalhadas no tempo e espaço.

Com pouca confiabilidade, em função de que muitas análises e interpretações vão ser produzidas pelos próprios interessados, sejam agentes do poder governamental, sejam oposicionistas. Neste caso, com pouca validade científica, mas que não deixará de ter sua influência nos debates.

O que é bem promissor é o fato de que muito das políticas que foram encampadas nestes últimos anos têm o aval das concepções do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BIB), Bando Mundial (BIRD) e do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), as quais são de domínio público. Em última instância, muito do que vem sendo realizado pode ser lido por meio destas concepções. No caso específico do Banco Mundial, o desenvolvimento é perseguido a partir de um projeto de cada vez; desconsiderando as peculiaridades.

No período mais recente está sendo seguida uma nova geração de políticas, no espaço acriano, mesclando-se com o padrão daquela da década dos 2000. O desafio é diferente e muito maior, pois as vias distintas da lógica dos projetos dos Bancos Multilaterais permitem maior liberdade para se atuar mais diretamente no campo econômico, para além dos aspectos regulatórios dos projetos anteriores, que pretendiam, em tese, criar as condições, para o crescimento e desenvolvimento econômico, que aconteceria naturalmente, por inércia.

Presume-se que os impactos desta nova estratégia serão difusos e de baixa intensidade, por razões lógicas, mesmo assim, terão maiores possibilidades de atingir parcelas mais amplas da população, abrindo caminho para novos desafios. Quem sabe, em algum momento, o desenvolvimento vá se aproximando do Brasil e der uma passadinha pelas bandas do Acre, fazendo com que a boa reportagem da revista Carta Capital seja repetida noutras condições.

JORNAL PÁGINA 20, 16-05-2012


 

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 03h18
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RISCO GEOPOLÍTICO

Por Carlos Lessa

Ainda é tempo para não expor a soberania de um país que, no Atlântico Sul, pode vir a ser "dono" da terceira maior reserva mundial de petróleo

VALOR ECONÔMICO, 09-05-2012

Poucas coisas, para mim, são mais satisfatórias do que ler um artigo que gostaria de haver escrito. Reinaldo Gonçalves publicou no número 31 da Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política um artigo que alcunha de "nacional-desenvolvimentismo às avessas", a trajetória econômica do Brasil no novo milênio. Sintetiza nacional-desenvolvimentismo como um projeto "de desenvolvimento econômico, assentado na industrialização e na soberania dos países latino-americanos". Desdobra o desempenho brasileiro nas últimas décadas como um desempenho no qual a economia, as estruturas de produção, o comércio exterior e a propriedade do ativo produtivo caminharam no sentindo contrário ao projeto que animou o Brasil de 1930 a 1980.

Gonçalves, de forma rigorosa, mostra que houve redução na participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB). O Brasil perdeu participação no panorama industrial mundial. Mostra, de forma inequívoca, que o que cresce no país é o valor adicionado da mineração e da agropecuária. A política econômica foi orientada para a liberalização comercial, e o coeficiente de importações em relação ao consumo aparente cresceu de forma sistemática entre 2002 e 2010.

A participação dos manufaturados caiu no valor das exportações, e houve a queda assustadora da dos produtos altamente intensivos em tecnologia entre 2002 e 2010. Todas as indicações mostram aumento de dependência tecnológica. A diferença entre o valor de importações e bens intensivos em tecnologia, exportações brasileiras destes bens, evoluiu de US$ 19,3 bilhões em 2002 para US$ 85 bilhões em 2010.

São precárias nossas salvaguardas ante uma crise mundial que inexoravelmente produzirá mudanças

Houve uma dramática perda de competitividade internacional; aumentou a vulnerabilidade externa, houve concentração de capital e explosão da lucratividade dos bancos. A rentabilidade "lucro/patrimônio líquido" dos 50 maiores bancos no Brasil é de 17,5% ao ano entre 2003/10.

Enquanto isso, a rentabilidade das 500 maiores empresas industriais foi de 11% ao ano. Brasil e Turquia são os dois países que têm os mais elevados custos de dívida pública nas 24 principais economias do mundo. Nestes países, custo médio da dívida é de 4%, enquanto no Brasil é de 8,6%. A relação entre pagamento de juros de dívida pública e do PIB no Brasil apenas é superada pela Grécia, sendo que a média dos 24 países é 2%, enquanto que a brasileira é 51%. Quem quiser conhecer em detalhe, leia este artigo.

São corretas as advertências que os dirigentes da política econômica estão fazendo aos bancos privados, porém claramente insuficientes. O ministro Guido Mantega advertiu no Fundo Monetário Internacional (FMI) que "o Brasil fará de tudo para impedir" o ingresso de capital de curto prazo especulativo. Porém, anunciou que não descarta o controle de capitais voláteis. Isso se faz sem advertência. É correto baixar juros; aumentar a competição dos bancos públicos; barrar capitais do exterior que se nutrem no nosso juro excessivo; tocar para frente o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Porém, tudo isso chega a conta-gotas e de forma tímida. Em um cenário em que a crise mundial se desdobra na Europa, há redução do crescimento da China (o FMI advertiu que a alta das commodities será interrompida), não se deve cutucar a onça com vara curta. São precárias as salvaguardas brasileiras ante uma crise mundial que inexoravelmente produzirá mudança de sinal no balanço de pagamentos brasileiro. Há um discurso eufórico que desconhece vulnerabilidades. Nas palavras de Gonçalves: "É visível a crescente vulnerabilidade externa estrutural brasileira em função do aumento do passivo externo financeiro".

A Argentina expropriou a YPF. Luiz Carlos Bresser-Pereira publicou na "Folha de São Paulo", no dia 23, um brilhante artigo: "A Argentina tem razão". A mídia internacional chegou a falar "de um tribunal internacional". 62% dos argentinos apoiam a medida. O FMI declarou que a matéria é de soberania. Não mergulharei em detalhes sobre a escandalosa privatização da YPF feita pelo neoliberal Carlos Menem. É incrível nenhum tribunal internacional ter se pronunciado sobre a auditoria externa que "escandalosamente" subestimou (para baratear) o patrimônio estatal argentino. Bresser-Pereira mostra a competência do governo argentino nessa medida.

Diz: "Não faz sentido deixar sob o controle estrangeiro um setor estratégico para o desenvolvimento do país". Se a recuperação pela Argentina de um ativo estratégico gera tal reação, nós brasileiros deveríamos, de forma inequívoca, nos aliar ao país irmão. Argentina solicitou à Maria das Graças Foster, presidente da Petrobras, que o Brasil aumentasse sua participação na produção de petróleo na Argentina de 8% para 15% (a principal razão da expropriação foi a medíocre atuação da Repsol em produção de petróleo na Argentina). Além das óbvias implicações no balanço de pagamentos, a Argentina, um país de clima temperado, necessita manter suas residências aquecidas no inverno, lhe é vital aumentar sua disponibilidade energética. Desconheço detalhes, mas pelo menos uma empresa chinesa foi convocada pela Argentina. Nesta questão, o Brasil não deveria vacilar em apoiar o país irmão.

A política de outorga de lotes nas reservas brasileiras, e principalmente concessões no pré-sal, é para o Brasil um erro estratégico. Sei que durante o governo Lula e no atual o Brasil conseguiu colocar um brasileiro no 6º (ou 8º) lugar na lista de maiores fortunas mundiais. O interessante é que esse salto aconteceu sem a produção de nada, apenas metamorfoses patrimoniais consagradas pela valorização de ações do empreendedor vendidas a capitais internacionais. Faz um estranho contraponto com a correta elevação do poder de compra do salário mínimo real colocar uma fortuna brasileira baseada em valorização de lotes de petróleo no pódio dos grandes patrimônios individuais. Façamos votos para que no futuro não tenhamos que enfrentar a maldição de país primário-exportador de petróleo. Ainda é tempo para não expor a soberania de um país que, no Atlântico Sul, pode vir a ser "dono" da terceira maior reserva mundial de petróleo. Há enorme risco geopolítico nessa matéria.

Carlos Francisco Theodoro Machado Ribeiro de Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES; escreve mensalmente às quartas-feiras. carlos-lessa@oi.com.br

 

DESENVOLVIMENTISMOS

por Ricardo Carneiro

Tema desperta polêmicas. Para contestá-los, é preciso ter em mente as conjunturas históricas particulares nas quais estratégias e teorias que lhe dão suporte ganharam momento

Valor Econômico - 04/04/2012

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 03h05
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Terça-feira , 08 de Maio de 2012


DESIGUALDADE COMO FATOR DE FLUTUAÇÕES ECONÔMICAS

Por Roger Lowenstein | Bloomberg Businessweek - vide Krugman, abaixo

Razões fundamentais da desigualdade de renda e da instabilidade econômica devem ser procuradas no sistema financeiro

VALOR ECONÔMICO, 08-05-2012

Deveríamos ficar preocupados com o fato de nos EUA 1% da população responder por 21% da renda nacional? Deveríamos ficar mais preocupados com o fato de a faixa intermediária da pirâmide social estar ficando para trás, ou o topo da pirâmide estar em disparada? Até recentemente, a maioria dos economistas ignorava essas questões. As exceções eram geralmente de tendência esquerdista - isto é, defendiam uma distribuição mais igualitária da renda.

James K. Galbraith, economista da Universidade do Texas em Austin e filho de John Kenneth Galbraith, se encaixa nesse padrão. "Inequality and Instability", seu livro mais recente, é produto de anos de estudo de um campo que, diz, estava "esquecido". Ele rejeita a visão convencional de que a desigualdade é o preço justificável que a sociedade precisa pagar para ter mercados flexíveis.

Em vez disso, Galbraith culpa o setor financeiro pela disparidade de renda, o que desestabilizaria a economia. (Ele posou para a foto do autor no Zucotti Park durante o acampamento promovido na praça pelo movimento Ocupe Wall Street, no ano passado.)

Com o presidente Barack Obama propondo taxar os milionários e até mesmo os republicanos condenando Mitt Romney pelo pecado de ter ficado rico, o momento escolhido por Galbraith certamente é oportuno: a desigualdade caminha para se tornar um tema que vai definir o ano eleitoral.

Neste livro, Galbraith se propõe uma tarefa simples: determinar se a desigualdade leva a níveis maiores ou menores de crescimento para a sociedade como um todo. A resposta não é nada simples. Por exemplo, os países que são "desiguais" em termos de renda não se parecem, assim como aqueles que são desiguais em termos de gastos do consumidor. E dois trabalhadores podem ter salários equivalentes e mesmo assim ter carteiras de ações desiguais. Um tipo de desigualdade tem mais importância que o outro?

Baseando-se em uma rica variedade de dados, Galbraith imagina se as instituições democráticas promovem a igualdade e constata que, no geral, isso não acontece. Ele não rebate diretamente o argumento de que mercados flexíveis podem beneficiar a sociedade, mas apenas os declara insignificantes, vazios. Parece-lhe bastante alegar que todo aumento da desigualdade deve ser lamentado - até mesmo em Cuba, no momento em que o país sai lentamente do torpor stalinista.

Segundo Galbraith, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês) "aumentou muito a desigualdade entre o norte do México e o resto do país". Ele parece dizer que o norte ficou mais rico. Isso é ruim? Certamente não. Uma disparidade de renda maior pode apenas refletir uma economia em transição - para melhor ou para pior. Galbraith reconhece isso quando diz que a desigualdade nos Estados Unidos caiu junto com o colapso da indústria automobilística, porque passou a haver menos empregos com salários relativamente altos. "É claro que isso não é uma boa notícia, e soa como um alerta contra a consideração de qualquer estatística de desigualdade, por si, como um indicador de bem-estar social."

Galbraith afirma que, ao contrário do que geralmente se pensa, prosperidade e igualdade andam de mãos dadas. Entre as evidências há o fato de que o nível de emprego tende a aumentar quando as diferenças salariais são comprimidas. (Não fica claro o que é causa e o que é efeito, o que é o problema desses estudos.) A Escandinávia, igualitária e próspera, é o melhor exemplo citado por Galbraith. Os EUA, onde "a prosperidade está associada ao aumento da desigualdade de renda", seriam uma exceção. Mas Galbraith desconsidera essa exceção, uma vez que a desigualdade, no caso, não está amplamente presente na sociedade: foi provocada pelos poucos que faturam em Wall Street.

"Um morador de Ohio ou da Geórgia", diz Galbraith, "apercebeu-se pouco disso diretamente." As escalas de remuneração mantinham-se relativamente estáveis. A desigualdade, diz, foi fruto da posse de ações; literalmente, acompanhou a Nasdaq. Poucos perceberam que os dois fenômenos eram, na verdade, espelhados. Ao atribuir toda a culpa ao mercado de ações, Galbraith descarta a noção, bastante comum, de que a renda vem subindo porque, em uma economia globalizada, a capacitação comanda salários melhores. Ele não vê motivo para estender-se sobre essa noção. Nem se ocupa dos advogados, professores universitários e atletas cujas rendas dispararam, independentemente do mercado.

Há poucas soluções neste livro, além do que é sugerido pela afeição de Galbraith pelo envolvimento do Estado. Ele acredita que a desigualdade varia de acordo com o nível de desenvolvimento. Assim, "todas as sociedades agrárias feudais, todas as economias tecnológicas (...) vão se parecer mais umas com as outras do que se parecem com outros países."

Isso o leva a criticar as instituições financeiras multinacionais, que ele culpa por alimentar a desigualdade no mundo. Galbraith se volta contra o projeto de unificação da Europa, que, segundo ele, coincidiu com o aumento do desemprego. Critica a "monomania antiinflacionária do Banco Central Europeu". Critica o thatcherismo, o reaganismo e o encolhimento do estado do bem-estar social que todos esses "ismos" produziram. Critica as "políticas agressivas de juros altos (...) que começaram no início da década de 1980".

A crítica aos juros é enganosa; depois de inicialmente subirem bastante, as taxas, nos EUA e outros países, começaram a cair no início da década de 1980, e continuaram caindo no transcorrer dos excessos financeiros das últimas décadas. Mesmo assim, Galbraith dificilmente está errado ao afirmar que, com o encorajamento dos bancos centrais e outros órgãos oficiais, o setor financeiro hoje abocanha uma parcela muito maior da renda total do que antes. E essa maior financeirização das economias mundiais é, acredito eu, o "x" do problema da queixa de Galbraith.

"A desigualdade crescente", escreve, "é um sinal de alerta de que algo está errado." O que pode ser isso? Sua tese é de que a desigualdade das últimas três décadas - motivada pelo mercado de ações e o papel crescente das finanças - leva inexoravelmente à instabilidade. E o caos e a instabilidade, ou as bolhas e os "crashes", estiveram claramente em alta durante esse período. Isso Galbraith não pode tolerar. Ele compara os ciclos de negócios recentes a "ondas, em que certos setores e áreas percorrem a crista, antes de espatifar na praia", deixado vítimas inocentes em sua esteira. A destruição criativa da qual os capitalistas se orgulham é, segundo Galbraith, destruição total.

"Inequality and Instability - A Study of the World Economy Just Before the Great Crisis"

James K. Galbraith. Oxford University Press. 336 págs., US$ 29,95

 

 

The Stack - Book Review: 'Inequality and Instability,' by James K. Galbraith By Roger Lowenstein on April 05, 2012  

 

 

 

Sunday, May 06, 2012

James Galbraith on US Politics

Here's the second part of the interview of Jamie Galbraith (German version) conducted by Roger Strassburg and Jens Berger of the German blog NachDenkSeiten (the first part is here). This is on US politics:

 

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 09h14
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Sábado , 05 de Maio de 2012


PLUTOCRACIA, PARALISIA E PERPLEXIDADE

por Paul Krugman

O real problema estrutural está no sistema político, distorcido e paralisado por uma minoria rica

Folha de São Paulo, 05-05-2012, caderno Mundo

Antes da Grande Recessão, eu costumava fazer palestras sobre a crescente desigualdade nos EUA, enfatizando que a concentração de renda no topo da sociedade havia atingido níveis não vistos desde 1929. Muitas vezes, alguém me perguntava se isso queria dizer que uma nova depressão estava a caminho. Não é que a pergunta fazia sentido?

Será que a ascensão do 1%, ou melhor, do 0,01% causou a Pequena Depressão que vivemos? É provável que tenha contribuído. Mas o principal aspecto é que a desigualdade é um dos grandes motivos para que a economia esteja tão deprimida, e o desemprego, tão alto.

O melhor modo de explicar é o seguinte: se algo parecido com a crise financeira de 2008 tivesse ocorrido, digamos, em 1971 -ano em que Richard Nixon declarou que "agora minha política econômica é keynesiana"-, Washington provavelmente teria respondido de modo razoavelmente efetivo. Teria surgido consenso bipartidário amplo em favor de medidas fortes, e teria existido acordo generalizado sobre o tipo de ação necessária.

Mas isso ficou no passado. Hoje, Washington é caracterizada por uma combinação entre partidarismo amargo e confusão intelectual.

Como chegamos a isso? Pelos últimos cem anos, a polarização política sempre seguiu de perto a desigualdade de renda, e há motivos para crer que a relação seja causal. Especificamente, dinheiro compra poder, e a crescente riqueza de uma pequena minoria na prática comprou a adesão de um dos dois grandes partidos, destruindo qualquer perspectiva de cooperação.

A tomada de controle do 0,01% sobre metade do espectro político também responde pela degradação do discurso econômico, que tornou impossível uma discussão sensata sobre o que deveríamos fazer.

As disputas econômicas costumavam ser delimitadas por um entendimento compartilhado sobre a política econômica. Agora, o Partido Republicano está sob o domínio de doutrinas que no passado eram marginais e que fracassaram estrondosamente na prática. Por exemplo, os defensores do padrão ouro entre os conservadores preveem há três anos uma disparada na inflação e nos juros, e erraram.

E por que os republicanos se apegam tanto a essas doutrinas? Parte da explicação está em que bilionários sempre as adoraram, pois dão justificativa para políticas que servem aos seus interesses. O apoio de bilionários sempre foi o principal motivo para que os charlatões e picaretas continuassem em circulação. E agora eles conquistaram o controle de todo um partido.

O que nos conduz à questão do que será necessário para liquidar a depressão em que estamos.

Muitos sabichões asseguram que a economia dos EUA tem problemas estruturais e que isso impede recuperação rápida. Mas todas as provas indicam que o problema é uma simples falta de demanda, que poderia ser curada por meio de medidas de estímulo fiscal e monetário.

Não, o verdadeiro problema estrutural está no sistema político, que foi distorcido e paralisado pelo poder de uma minoria rica. E a chave para a recuperação econômica está em descobrir como eliminar a influência maligna dessa minoria.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

 

 

 

Friday, May 04, 2012

Paul Krugman: Plutocracy, Paralysis, Perplexity

Inequality is contributing to the slow recovery from the recession:

 

 

 

Economia fácil e inútil

PAUL KRUGMAN - folha de são paulo, 12-05-2012

Alegar que problemas são estruturais dá desculpa para nada fazer para reduzir desemprego

Alguns dias atrás, li um estudo que parecia competente na "American Economic Review", cujo argumento central era o de que o desemprego elevado dos EUA tinha raízes estruturais profundas e não era suscetível a soluções rápidas.

O diagnóstico era que a economia dos EUA simplesmente não é flexível o bastante para enfrentar rápidas mudanças tecnológicas. O estudo criticava programas como o seguro-desemprego, visto como prejudicial aos trabalhadores porque reduz o incentivo para que se ajustem às novas realidades do mercado.

 

Bem, esqueci de contar uma coisa: o estudo é de 1939. Poucos meses depois, a Segunda Guerra irrompeu, e os EUA -ainda que não estivessem em guerra- deram início a um grande reforço das Forças Armadas, o que produziu estímulo fiscal em escala comensurável com a profundidade da crise.

Nos dois anos posteriores à publicação daquele artigo, os empregos nos EUA cresceram 20%.

Agora estamos de novo em depressão, não tão grave quanto aquela, mas ainda assim grave. E, uma vez mais, figuras que parecem bem informadas insistem em que nossos problemas são "estruturais", que não podem ser corrigidos rapidamente. Precisamos nos concentrar no longo prazo, dizem elas.

O que significa dizer que temos um problema estrutural? A versão usual envolve a alegação de que os trabalhadores estão presos a setores incorretos ou não dispõem das capacitações em demanda......

 

 

 

Friday, May 11, 2012

Paul Krugman: Easy Useless Economics

The problems with some "authoritative-sounding figures" standing in the way of helping the unemployed appear to be deep and structural:

 

 

Las consecuencias de la austeridad

 

La crisis económica ha afectado más a las rentas más bajas y las políticas de ajuste contribuyen a ampliar la desigualdad

LUIS AYALA 10 MAY 2012 - 00:02 CET

 

El desarrollo de la crisis ha tenido consecuencias ciertamente drásticas sobre el reparto de la renta entre los ciudadanos españoles. Mientras que los indicadores más básicos de desigualdad apenas han cambiado para el promedio de la Unión Europea desde 2007, España, que ya partía de niveles considerablemente más altos, ha sufrido uno de los mayores aumentos de las diferencias económicas entre los hogares. La pobreza monetaria, que había permanecido prácticamente estancada en nuestro país durante los quince años anteriores a la crisis, ha pasado a afectar a más de uno de cada cinco hogares. La magnitud de este cambio es la mayor desde que disponemos de datos anuales sobre los ingresos y las condiciones de vida de la población española. Los indicadores sobre la proporción de hogares que no reciben remuneraciones del mercado de trabajo, prestaciones por desempleo o de la Seguridad Social, que regularmente ofrece la Encuesta de Población Activa, alcanzaron su máximo histórico hace más de un año y no han dejado de crecer desde entonces.

Las razones de este empeoramiento del panorama distributivo son varias y obedecen a factores que van más allá del cambio de ciclo económico. En primer lugar, persiste un problema económico básico ligado a una estructura productiva poco competitiva. En las últimas décadas, la creación de empleo ha estado muy ligada a sectores muy cíclicos y la evidencia nos muestra que necesitamos tasas relativamente altas de crecimiento del PIB para crear nuevos puestos de trabajo. En segundo lugar, tenemos un grave problema estructural de desigualdad y vulnerabilidad. Ya antes de la crisis existía un porcentaje de población muy amplio con rentas sólo ligeramente superiores al umbral de pobreza y muy dependientes del efecto de arrastre que había tenido la expansión de determinadas actividades económicas. En tercer lugar, no hemos sido capaces de consolidar una red de protección suficientemente sólida, enfrentándonos a la crisis con un sistema de garantía de ingresos muy fragmentado, con importantes lagunas en su cobertura y con grandes desigualdades territoriales en la respuesta ofrecida a las situaciones de insuficiencia de los ingresos.

Especialmente preocupante es el problema de la desigualdad estructural en el seno de la sociedad española. El nivel de concentración de las rentas de capital es de los mayores de la Unión Europea y nuestras desigualdades salariales son ciertamente elevadas en el contexto comparado, con una alta incidencia del trabajo de bajos salarios. Ya antes de la crisis se había alcanzado el máximo histórico en las tasas de pobreza de los ocupados. Nuestra movilidad de ingresos es, además, reducida, marcada por abundantes transiciones entre los hogares en la parte baja de la distribución de la renta y mucho más limitadas en la parte alta. Aparte de estos rasgos estructurales, la desigualdad en la renta disponible de los hogares se ha ido alejando de la media de los países más ricos por la debilidad de las políticas redistributivas. Junto a la persistencia de una brecha histórica en términos de gasto social no sólo respecto a la Unión Europea sino a lo que debería corresponder a nuestro nivel de renta, las reformas tributarias desarrolladas desde mediados de los años noventa hasta la crisis apostaron por la reducción de los tipos impositivos, lo que supuso una menor capacidad de redistribución.

El resultado de estos procesos fue que la desigualdad y la pobreza dejaron de disminuir en España desde principios de los años noventa, rompiéndose una tendencia histórica tanto de reducción continuada de ambos fenómenos como de acercamiento a los niveles medios de la Unión Europea. En lo cualitativo, la consecuencia fue el mantenimiento prolongado de situaciones de vulnerabilidad relativamente ocultas bajo la ola expansiva, mientras se iba reduciendo la capacidad de los principales instrumentos para transformar esas situaciones. La crisis, por tanto, no ha supuesto una ruptura con los procesos previos. Al agotarse el período de bonanza económica, los altos niveles de vulnerabilidad se han transformado, en un porcentaje importante, en situaciones de pobreza y exclusión social. No hay un antes y un después en las razones de fondo, aunque sí lo hay, por supuesto, en la magnitud de las cifras y en la incidencia de los problemas sociales.

El aumento de la pobreza puede convertirse en crónico si no hay cambios en el modelo social

 

Sí es un elemento de novedad, sin embargo, respecto a anteriores etapas del proceso distributivo el posible efecto que podrían tener las políticas de austeridad presupuestaria en este contexto de notable crecimiento de la desigualdad. El habitual alegato de que los ciudadanos compartan los costes de la crisis no se corresponde con la falta de neutralidad de estas políticas en términos distributivos. Ya sea a través del efecto directo que pueden tener los recortes de prestaciones y servicios o por la caída de la producción y el empleo derivada del recorte del gasto público, las llamadas medidas de austeridad podrían exacerbar la tendencia al aumento de las diferencias sociales. Corremos el riesgo de que en un breve plazo se evaporen algunos de los logros que exigieron grandes pactos sociales y un dilatado período para su consolidación.

Afirmar que puede existir una relación entre las medidas de austeridad y el posible aumento de la desigualdad no es un posicionamiento ideológico. Baste recordar cómo la severidad del ajuste fiscal en otros países en períodos anteriores, especialmente en el ámbito anglosajón, alteró sustancialmente el panorama distributivo. En el caso español, hay tres constataciones que alertan sobre la gravedad de las posibles tendencias. La primera es que en esta crisis el mayor ajuste se ha producido en las rentas de los hogares con menores recursos. La experiencia española reciente es casi un ejemplo de manual de lo que es una evolución regresiva de la renta. Mientras que entre 2006 y 2010 los ingresos del cinco por ciento de la población con rentas más bajas cayeron cerca de un 9% anual en términos reales, el crecimiento correspondiente al cinco por ciento más rico, cercano al 10%, fue el mayor de toda la población. Además de desmentir el estereotipo de que los costes de la crisis se han generalizado a todas las capas sociales, el hundimiento de las rentas más bajas ha hecho que la pobreza severa crezca velozmente, quebrándose la tendencia de las cuatro últimas décadas.

En segundo lugar, la experiencia de lo que sucedió en anteriores fases recesivas en España, como la de los primeros años noventa, nos alerta de la posibilidad de que incrementos transitorios de la pobreza y la desigualdad se conviertan en crónicos en el largo plazo. A pesar de la prolongada recuperación económica de los años posteriores no volvieron a alcanzarse los niveles anteriores a ese episodio recesivo. En tercer lugar, frente al aserto habitual de que el bienestar social se recuperará si lo hacen la actividad económica y el empleo, los datos son contundentes: las estimaciones de la relación entre el ciclo económico y la pobreza muestran una acusada asimetría en la respuesta de ésta a las recesiones y a las expansiones, siendo mucho más sensible a las primeras. Volver, por tanto, a altas tasas de crecimiento del PIB no garantiza que los problemas de insuficiencia de ingresos de un segmento importante de la sociedad española vayan a reducirse drásticamente.

Evitar el aumento de la desigualdad y las posibles tensiones sociales asociadas a los procesos de fragmentación social exigiría no sólo dar respuesta a las necesidades impuestas por la crisis sino también a los problemas estructurales de nuestro modelo social. Rebajar la severidad de las nuevas formas de pobreza requeriría no sólo mantener lo que había antes de la crisis, ahora insuficiente, sino aumentar los niveles de gasto social. Si no se añaden, por tanto, criterios de equidad mucho más exigentes a las medidas de austeridad nos arriesgamos a convivir en el futuro con diferencias sociales muy altas no sólo en el contexto comparado sino en lo que ha sido nuestra trayectoria en las cuatro últimas décadas.

La economía española tiene un problema básico, que es su estructura productiva poco competitiva

Luis Ayala es Catedrático de Economía en la Universidad Rey Juan Carlos

 

 

 

 

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 05h23
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Quarta-feira , 02 de Maio de 2012


¡SOMOS EUROPA! MANIFIESTO PARA RECONSTRUIR EUROPA DESDE LA BASE

Necesitamos de una sociedad civil europea y de las perspectivas de las generaciones más jóvenes si queremos solucionar los asuntos candentes de hoy

ULRICH BECK / DANIEL COHN-BENDIT 3 MAY 2012 - 00:01 CET

¡Un Año Europeo del Voluntariado para Todos —para taxistas, enfermeras, obreros industriales, dentistas, maestros, periodistas, estudiantes, pensionistas— como respuesta a la crisis del euro!

Nunca antes de ahora habían recibido los jóvenes de Europa una mejor educación. Sin embargo, uno de cada cuatro europeos menores de 25 años está sin empleo. En diversos lugares, jóvenes que no se sienten representados han levantado campamentos y han hecho públicas sus protestas. Sus métodos no son violentos, pero sus exigencias de justicia social son muy potentes, ya sea en España, en Portugal, en los países norteafricanos, en ciudades de Estados Unidos o en Moscú. Les une la ira ante un sistema político que rescata bancos con deudas exorbitantes mientras al propio tiempo dilapida el futuro de sus jóvenes. Si las esperanzas de las generaciones más jóvenes de europeos son sacrificadas en el altar de la crisis del euro, el tan admirado modelo europeo también fracasará.

El presidente de Estados Unidos John F. Kennedy sorprendió al mundo con su idea de crear, mediante voluntarios, un Cuerpo de Paz: “No preguntes lo que tu país puede hacer por ti, sino qué puedes hacer tú por tu país”.

Esa es la razón por la que pedimos a la Comisión Europea y a los gobiernos nacionales, al Parlamento Europeo y a los parlamentos nacionales que promuevan una Europa de ciudadanos que trabajen activamente, y garanticen los requisitos financieros y legales, para el Año Europeo del Voluntariado para Todos como un modelo contrario a la Europa establecida de arriba abajo, esa Europa de las élites y de los tecnócratas que ha prevalecido hasta ahora.

No podemos permitirnos dejar que Europa se transforme en el objetivo de un movimiento de ciudadanos indignados contra una Europa sin europeos

El propósito es el de hacer más democráticas a las.... segue manifiesto....

 

 

La austeridad está estrangulando a Europa

Hoy vuelve a ser necesario un núcleo duro de Estados que impulsen el proceso de integración. La europeización es la respuesta política racional a la globalización

GERHARD SCHRÖDER 6 MAY 2012 - 00:03 CET

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 21h17
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Domingo , 29 de Abril de 2012


O NOVO NÓ DO CURSO DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS DA UFAC

i) De acordo com os estóicos, as pessoas são más, por natureza. Já para os epicuristas, as pessoas são boas, por natureza. Esses gregos são demais!!! Todos misturados são insuperáveis.


ii) Em fevereiro de 2008 fui para o Rio. Voltei precisamente quatro anos depois, em fevereiro de 2012. Durante este período sempre evitava saber o que estava acontecendo no dia a dia aqui das bandas da UFAC, especificamente da unidade da qual sou formalmente lotado. Felizmente, quase não tive informações, tanto institucional quanto das vida particular dos indivíduos.


iii) Em julho, de 2011, passei quinze dias aqui em Rio Branco. Cruzando o Parque do Tucumã, um membro da direção da UFAC, repentinamente, parou seu móvel. Conversa vai, conversa vem. Relatou, muito preocupado, a sistuação do Curso de Ciências Econômicas. Disse-me que o curso estava para fechar. Foi avaliado no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE). Com o agravante da Poraria de reconhecimento do Curso está vencida no MEC.


iv) Também fiquei incomodado. Mas, em função de estar bastante envolvido com minhas atividades mais imediatas, não poderia me envolver com a situação. Liguei para um colega, colocando-o informado da situação.


v)  O gestor da Ufac continuou relatando, adicionando mais duas questões.


vi) A primeira, em relação aos motivos e possíveis causas aparente da situação desesperadora. Afirmou que durante a realização da prova do ENADE, houve uma mobilização para que os alunos não fizessem a prova. Além disso ter implicado na nota do curso, também produziu uma "fuxicada" interna. Uns atribuindo que este boicote foi um dos pricipais motivos da baixa nota. Outros, tirando o caminho da reta, defendendo que isto não teve importância e atribuindo outros motivos, como comportamento, lato sensu, do outro lado. Sintetizo: a chamada putaria.


vii) Concluiu esse assunto, aconselhando que era urgente fazer um novo Projeto Pedagógico do Curso para tentar novo reconhecimento.


viii) O tempo passou, passou. Agora em abril, em função das eleições da UFAC, um candidato(a) chamou-me para conversar. Entre outras, referiu-se que suas preocupações estaria vinculada com situação do Curso de Economia. Deixou claro que o boicote à prova do ENAD não interferiu na nota do Curso.


iv) O tempo passou, passou. Dia 16-04-12, uma segunda-feira, passando pela cantinha da UFAC, próximo do RU, visualizei os professores Ronaldo Melo e Rubicleis. Este último, falou. Porfiro vem cá, preciso falar com você, dez minutinhos, senta aí (apontando para uma cadeira). Respondi que estava bem apressadinho, que ele poderia dizer, em eu estanto em pé mesmo. Ele gentilmente fez dessa forma. Começou falando como estava a situação do Curso perante o ENAD. Que já tinha uma Projeto Político Pedagógico em andamento. Que significava uma parte da resolução do problema. Continuando, o professor afirmou que para melhorar a nota do Curso deveria ter um professor doutor em economia na Coordnação do Curso. Não tem outra alternativa. Nesse caso, teria ele próprio, mais o professor Carlitinho, o professor Raimundo Cláudio e o professsor Lucas. Completou que o professor Carlitinho não poderia porque já é coordnador do mestrado. Só sbraria ele, o Lucas, Cláudio e eu (Porfiro). Argumentou mais, e me indagou enfatica e agudamente: "Você topa?" Apenas respondi que sou funcionário da Instituição (ou seja, seja estou a disposição para cumprir meus compromisso), mas que não era pertinanete e adeuqado dar uma resposta dessa, nessas condições e naquele lugar. Isso deve ser apreciado pelo Colegiado e por instâncias mais amplas da Instituição. O professor continuou argumentando, que como avaliador externo do MEC sabe que o Curso tendo coordenador formado em economia (com título de doutor), a nota vai lá pra cima, etc.


x) Escrevi sobre isso em: a) “Monografia no curso de economia e inconveniências”, A Gazeta, 08-04-1997; e, b) “Diretrizes curriculares de economia”, Pagina 20, 20-02-1999.


xi) Voltei, tudo... Esses gregos..... Sei que ainda vou ter muita raiva com esse negócio de Projeto Político Pedagógico. Manter-me-ei reservado, com sou.

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 10h24
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Quinta-feira , 26 de Abril de 2012


MICROCRÉDITO, O NEGÓCIO DA MISÉRIA

por Cédric Gouverneur - ÍNDIA

Ao emprestar somas módicas a fim de possibilitar o desenvolvimento de uma atividade produtiva, o microcrédito deveria emancipar os mais pobres. Mas, na Índia, a lógica dos acionistas triunfou: empresas de microcrédito constroem fortunas vampirizando os mais vulneráveis

Le Monde Diplomatique, abril de 2012

Laksmi e sua esposa Rama não aguentavam mais confeccionar, dia após dia, quase mil beedies(cigarros aromáticos), em doze horas de trabalho, na esperança de ganhar 70 rupias (R$ 2,50) ao final do mês. Esse casal com duas crianças fez então um empréstimo de 5 mil rupias (R$ 180) em uma empresa de microcrédito para abrir uma minúscula lojinha de noz de bétele na periferia de Warangal, no estado de Andhra Pradesh, no sul da Índia. Isso deveria permitir-lhes uma vida melhor, reembolsando 130 rupias por semana. Mas, conta Rama, Laksmi ficou doente: “Durante quatro meses, ele não pôde trabalhar”. Os vencimentos se acumularam e, com eles, os juros. Os vizinhos começaram a ficar agressivos, pois as empresas de microcrédito colocaram em ação um sistema de corresponsabilidade: quando um devedor falha, os outros devem reembolsar. Assediado, aterrorizado, o casal contratou um segundo empréstimo para pagar o primeiro. Depois um terceiro para pagar o segundo... Um total de cinco empréstimos, pelo equivalente a cerca de R$ 2.300.

Os credores acabaram por literalmente acampar diante do casebre de Laksmi e Rama. Depois – em completa ilegalidade – tomaram a lojinha de bétele, o fogão, as joias de ouro e finalmente a máquina de costura com a qual uma das filhas do casal, Eega, de 20 anos, fazia roupas para revender. “Você é bonitinha, vá se prostituir!”, disseram os credores quando ela perguntou como sua família iria conseguir comer. Humilhada, ela se imolou com fogo no dia 28 de setembro de 2010.

“Os pobres têm acesso a um crédito fácil, na porta de casa”, resume Reddy Subrahmanyam, na chefia do ministério do Desenvolvimento Rural do estado. “Mas a que custo! Com os impostos, as taxas de juros beiram os 60%.” Seguindo o espírito de seu inventor, o bengali Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz, o microcrédito deveria permitir a aquisição de uma nova fonte de renda, e não atuar como um complemento. Uma nuance fundamental, o microcrédito indiano se assemelha agora aos créditos de consumo: “Os mais pobres contratam créditos para pagar gastos médicos, um dote, um casamento, até uma televisão ou uma peregrinação”, fulmina Subrahmanyam. “O microcrédito deveria emancipar [empower] os mais desfavorecidos, devolver-lhes a dignidade. Agora ele os está afundando na miséria.” E em vez de criar solidariedades, a corresponsabilidade dos devedores implode as comunidades dos vilarejos.

Andhra Pradesh concentra um quarto dos microcréditos privados do país, ou seja, 52 bilhões de rupias (R$ 1,866 milhão) emprestados a 6,25 milhões de lares em 2010.1 “Nos anos 2000”, conta Abhay N., editor do jornal on-line India Microfinance, “o governo regional lançou diversos programas sociais para conter a influência dos maoístas”, cuja guerrilha é ativa na zona rural.2 O estado incitou os bancos a fazer empréstimos aos habitantes dos vilarejos reunidos no seio de grupos de cooperação (self-help groups, ou SHG), ele mesmo se encarregando de uma parte dos juros.

No vilarejo de Dharmasagaram, no distrito de Warangal, uma mãe de família, Bhergya, conta como pôde, graças ao SHG, fazer um empréstimo de pouco mais de R$ 2.300 no banco, com uma taxa de 12% (da qual 9% por conta do Estado) para adquirir um riquexó (carro de duas rodas para transporte de passageiros a tração humana) que ela depois alugou ao irmão: “O aluguel do riquexó me paga 6 mil rupias (R$ 215) líquido por mês, e eu devo reembolsar 2.700”, indica ela, satisfeita.

Mas empresas privadas utilizaram essa rede para abordar os habitantes dos vilarejos e vender créditos para consumo segundo o modelo europeu. Esse desvio se explica pela evolução da maioria dos setenta órgãos de microcrédito indianos, agora guiados por uma só lógica, a do lucro. Número um do setor, a SKS foi fundada em 1998 por Vikram Akula, um trabalhador social diplomado na Universidade de Chicago. A SKS era originalmente uma organização sem fins lucrativos. “Esse statusjurídico a impedia de emprestar dinheiro suficiente”, justifica o porta-voz da empresa na sede social em Hyderabad. “Akula decidiu então, em 2005, fazê-la evoluir para uma companhia financeira não bancária.” Em direito indiano, uma empresa empresta dinheiro, mas não pode receber depósitos. Assim como todos os patrões de órgãos de microcrédito contatados, Akula está “muito ocupado” para nos receber.

Uma ordem recente do governo de Andhra Pradesh (Partido do Congresso) proíbe os coletores de ir ao domicílio de seus devedores e condiciona a contratação de novos empréstimos ao aval das autoridades. Medidas julgadas insuficientes pela oposição: o Telugu Desam Party (TDP), no poder em Andhra Pradesh entre 1999 e 2004, incita os milhões de devedores a parar de pagar.

Na periferia de Hyderabad, encontramos Kaushalya e suas vizinhas. Essa enérgica avó fez um empréstimo para cuidar da saúde de seu marido paralítico. Incapaz de reembolsar, ela deveria ter sido assediada pelas outras devedoras do bairro, obrigadas a pagar em seu lugar. Mas essas senhoras decidiram se unir no enfrentamento e não pagar mais nada: “Não demos mais nada desde novembro de 2010”, dizem elas ao mesmo tempo orgulhosas e graves em seus saris. “As pessoas da empresa de crédito nos ameaçam, dizem que vamos para a prisão, mas nada acontece, a gente nem dá mais atenção a elas!” Tais exemplos de solidariedade nos vilarejos se multiplicam em todo o estado. E as taxas de reembolso afundam, passando de 97% para 20%, até 10%... Enfim, “investigações estão em andamento sobre uns cinquenta suicídios. Os responsáveis pelo assédio deverão responder por seus atos diante dos tribunais”, promete Subrahmanyam.

Sentindo o vento mudar, 39 dirigentes da SKS liquidaram suas stock optionsdesde o começo da crise, no fim de 2010.3 Segundo nossas informações, as empresas de microcrédito se instalam agora no interior profundo, nas cidades dos indígenas Adivasis: isolados, miseráveis, analfabetos, eles são menos suscetíveis a desconfiar... A microfinança indiana poderia tomar para si a tirada do humorista Alphonse Allais (1854-1905): “É preciso procurar o dinheiro onde ele está: com os pobres. Eles não têm muito, mas são muitos...”.

Cédric Gouverneur é jornalista.

1 Narasimhan Srinivasan, “Microfinance India: state of the sector report” [Microfinança na Índia: relatório sobre o estado do setor], SAGE Publications India Pvt Ltd, Nova Déli, 2010.

2 Ler “En Inde, expansion de la guérilla naxalite” [Na Índia, expansão da guerrilha naxalita], Le Monde Diplomatique, dez. 2007.

3 Express India, Nova Déli, 11 fev. 2011.

 

 

Subsídio e futuro do microcrédito

Autor(es): Lauro Gonzalez - Valor Econômico - 30/04/2012

A presidente lançou em agosto de 2011 o Crescer, programa de microcrédito orientado....

 

 

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 18h51
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Quarta-feira , 25 de Abril de 2012


ZONAS DE PROCESSAMENTO DE EXPORTAÇÃO NO ACRE

Minha primeira aproximação com a ideia de Zonas de Processamento de Exportação (ZPE) se deu com a leitura do texto do ex-candidato à Presidência, José Serra, em 1988, intitulado “ZPE no Brasil: fora de tempo e lugar”. Isto foi logo após o então presidente, José Sarney, ter publicado o Decreto-Lei nº 2.452 (29-06-1988), regulando o regime tributário, cambial e administrativo das ZEP.

Nas primeiras linhas do texto, José Serra afirmava: “A ideia de criarem-se Zonas de Processamento de Exportações tem sido rejeitada entre economistas, empresários, técnicos governamentais e políticos.” Esta vaga afirmação seria tonificada ao longo do texto com uma variedade de argumentos contrários a implantação de ZPE.

No Acre, o movimento recente de criação de ZPE já era regulado pela Lei 11.508, de 2007, substituta do Decreto-Lei de Sarney. Para esta Lei, as ZPE têm a “finalidade de reduzir desequilíbrios regionais, bem como fortalecer o balanço de pagamentos e promover a difusão tecnológica e o desenvolvimento econômico e social do País”. Complementando, a Lei especifica que “as ZPE caracterizam-se como áreas de livre comércio com o exterior, destinadas à instalação de empresas voltadas para a produção de bens a serem comercializados no exterior, sendo consideradas zonas primárias para efeito de controle aduaneiro.”

Quando o presidente Lula assinou o Decreto de criação da ZPE do Acre, no último dia de junho de 2010, dois fatos folclóricos chamaram atenção: (a) um membro do que se chama oposição declarou que ZPE se tratava simplesmente de um “factóide” do governo acriano; (b) do outro lado, li que, no Acre, a ZPE estaria localizada numa Zona Especial de Desenvolvimento (ZED), um conceito criado pelo governador Binho Marques.

O tempo passou, apesar dos pesares, e o Acre conseguiu ser o primeiro e único a inaugurar uma ZPE, dentre as 24 existentes no país. Um feito e tanto para um estado que ocupa uma posição irrelevante na nossa federação. Mesmo que ainda não exista nenhuma empresa instalada, divulga-se que já têm três projetos com reais possibilidades, conforme a imprensa local e nacional.

Em relação ao texto de José Serra, de 1988, é perfeitamente compreensível sua posição. Dificilmente alguém do eixo onde se localizam as grandes firmas seria favorável a uma política de ZPE. Os interesses econômicos ali localizados nunca aceitariam tal proposição – evidente que há um pouco de análise, também, nesta história.

Pouco sensato, igualmente, seria alguém de regiões como a nossa fazer pouco caso de uma ZPE, mesmo que exista uma infinidade de senões, desde questões sobre benefícios, per se, de sonegações, até questões trabalhistas. Neste caso, a Organização Mundial do Trabalho (OIT) já vem fazendo um intenso trabalho preventivo, do qual se supõe que o governo brasileiro esteja alerta.

Independente dos objetivos formais das ZPE serem passíveis de muitas ponderações, associadas à ideia de solucionar problemas do Balanço de Pagamentos e de se difundir tecnologias, no que diz respeito a finalidade de reduzir desequilíbrios regionais e de promover o desenvolvimento econômico e social, a histórica é diferente, dadas as características da estrutura econômica da região acriana.

Aqui, como não somos técnico-burocrata, nem jornalista, a discussão que mais nos interessa está relacionada com os aspectos da indústria, em sentido amplo, visto que esta se tornou um dos principais temas de debates econômicos nos últimos três anos, em função da polêmica tese da desindustrialização da economia brasileira. Os aspectos descritivos e regulatórios das ZPE vêm sendo exaustivamente divulgados pela imprensa local e nacional.

Para enfrentar os problemas da indústria nacional, o governo brasileiro, depois de muitas reticências, voltou a aposta nas ZPE, a ponto de ter definido seis como prioritárias: Senador Guiomard (AC), Bataguassú (MS), Parnaíba (PI), São Gonçalo do Amarante (CE), Jaboatão dos Guararapes (PE) e Barcarena (PA). As previsões seriam que no final de 2014 possivelmente as ZPE estariam funcionando.

Nesse sentido, os governos locais seriam auxiliados por meio de uma força-tarefa, seja no sentido de acelerar as obras de infraestrutura, seja nos detalhes operacionais ou por meio da modificação da Lei de 2007, passando de 20% para 40%, o percentual que as ZPE poderiam comercializar seus produtos no mercado interno.

A ZPE para o Acre pode ser considerada como um tipo de “salvação”. São quase nulas outras opções de atrair investimento direto estrangeiro (IDE) para o nosso estado, principalmente neste momento em que a indústria brasileira estar passando por uma situação bastante complicada (mesmo que as ZPE não se restrinjam apenas aos IDEs).

Além da tendência acelerada de desindustrialização, as condições macroeconômicas, como a taxa de câmbio, são muito desfavoráveis. Em condições normais, nas quais o governo federal não estivesse buscando saídas de emergência, o Acre dificilmente seria alcançado por políticas industriais provenientes de Brasília. Assim, o que é “desespero” para um lado, torna-se um meio de “salvação” para outro.

Qualquer que seja o empreendimento que se instalar na ZPE acriana terá um simbolismo imenso, não somente como exemplo de pioneirismo na economia brasileira, mas pela possibilidade de sinalizar uma guinada na economia local, onde a parte produtiva que se destaca é a agricultura, que por sua própria natureza não possui capacidade de transformações econômicas e sociais. Além de ser intrinsecamente concentradora.

O exemplo acriano é uma sombra de realidade para ajudar o governo federal a minimizar as agruras do processo de industrialização brasileira, num momento em que todas as dificuldades do setor estão se aflorando, tanto macro quanto microeconômicas. Não deixa de ser um fato excepcional, a ZPE do Acre está no rol daquelas que o governo federal está apostando. Como aposta, vamos esperar os desdobramentos dos próximos anos.

Jornal Página 20, 25-04-2012.

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 05h22
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Quarta-feira , 18 de Abril de 2012


ECONOMIC VIEW

 

Competition Is Healthy for Governments, Too

By N. GREGORY MANKIW - April 14, 2012

 

 

 

Insight & Analysis - ECONOMIC SCENE

Competition Needs Protection

By EDUARDO PORTER

Some fear that a price-fixing lawsuit might give Amazon a pass to offer discounts that could put its competitors out of business.

 

 

Greg Mankiw Hides the Role of Government in Redistributing Income Upward

Did Greg Mankiw really just brandish his $170 textbook as evidence of the benefits of unfettered competition? - EPI

 

AN OPEN LETTER TO GREG MANKIW

By Harvard Talks Politics [protest e II]

The following letter was sent to Greg Mankiw by the organizers of today's Economics 10 walkout .

Wednesday November 2, 2011

Dear Professor Mankiw-

 

 

Thursday, April 26, 2012

"Ideology and Facts in the Economic Policy Debate"

Antonio Fatás:

 

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 08h15
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UMA BOA SOCIEDADE REQUER TANTO O ESTADO COMO O MERCADO

AMARTYA SEM

NOBEL DE ECONOMIA PARTICIPA, EM SP, DO CICLO FRONTEIRAS DO PENSAMENTO E DIZ QUE MEDIDAS EUROPEIAS ANTICRISE APROFUNDAM PROBLEMAS

 

FERNANDA MENA - EDITORA DE “ILUSTRADA” - Folha de São Paulo, 18-04-2012

Amartya Sen, 78, mandou avisar que não responderia à questão sobre a China enviada a ele pela Folha por ocasião de sua participação no ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, no próximo dia 23, em São Paulo.

O economista indiano, laureado com o Nobel em 1998, construiu sua teoria sob a premissa de que o desenvolvimento tem como base o estado democrático de direito e o bem-estar social.

Ao aliar um modelo de economia capitalista liberal ao regime totalitário do partido comunista, a China, economia que mais cresce no mundo, propõe naturalmente um desafia à teoria de Sen.

Idealizador do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) -referência empregada pelas Nações Unidas para classificar países a partir de dados como PIB per capita e grau de escolaridade- e renomado por seus estudos sobre a fome, Sen avaliou que as medidas de austeridade adotadas atualmente na Europa devem aprofundar a crise e que o movimento "Occupy" pode trazer à tona questões cruciais para o desenvolvimento hoje.

Leia trechos da entrevista concedida por e-mail.

Folha - Qual será o impacto das medidas de austeridade adotadas na Europa para combater a crise?

Amartya Sen - As medidas intransigentes adotadas na Europa são baseadas em um raciocínio muito confuso. Você diz que elas foram adotadas "para combater a crise". Na realidade, porém, elas estão agravando e muito o problema da recessão, ao acabar com os incentivos para a expansão da economia da Europa (por meio do aumento da demanda), justamente quando é mais necessária.

E quais seriam as alternativas às medidas severas exigidas pelo mercado?

Primeiramente, seria preciso aplicar uma disciplina seletiva, visando eliminar os erros de conduta fiscal e a tentação de voltar a cometê-los no futuro (sem cortar coisas como salário-desemprego ou serviços vitais).

Em segundo lugar, seria necessária a escolha do momento adequado para a adoção destas medidas -sem reduzir a demanda do mercado por meio do corte selvagem dos gastos públicos, exatamente agora, quando a maioria dos países envolvidos já tem muitos desempregados.

Não há incompatibilidade entre disciplina fiscal seletiva, bem escolhida e adotada no momento certo, e uma economia de mercado que funciona bem, suplementada por serviços sociais e um "Estado de bem-estar social".

Tudo vai depender de uma escolha sensata do "timing" e da cobertura dos cortes a serem feitos.

O que estão fazendo é impor um programa geral de austeridade em todos os setores, no pior momento.

Os Estados estão encolhendo? Como isso compromete o desenvolvimento?

Não creio que o papel do Estado esteja encolhendo no mundo. A crise global de 2008 foi iniciada em grande medida pelo fato de o Estado ter deixado de exercer seu papel supervisor. À medida que a recessão se aprofundou, o fato de o Estado, em muitos países, ter deixado de prestar apoio aos desempregados de longo prazo e deixado de fornecer outras medidas de segurança social agravou em muito o sofrimento provocado pela crise -para as pessoas mais pobres e mais afetadas pela recessão. A economia e a sociedade precisam de atividades do Estado, além do funcionamento da economia de mercado. A experiência recente da recessão global trouxe muitas lições sobre o que não fazer.

Que lição poderia ter evitado a crise de 2008?

A compreensão de que a economia de mercado pode, sim, dar seriamente errado e que o Estado deve ter o poder e a responsabilidade de impedir que isso aconteça.

As coisas não teriam dado tão errado se os riscos excessivos assumidos tivessem sido conservados sob a disciplina da divulgação obrigatória de informações e da supervisão geral.

Os executivos financeiros recebiam bônus enormes enquanto as firmas assumiam riscos não justificados, sujeitando a economia e o povo a incertezas enormes.

Qual é o papel dos Estados, hoje, no desenvolvimento?

A questão fundamental é que uma boa sociedade necessita tanto de instituições baseadas no Estado quanto de instituições de mercado.

O Estado precisa fazer coisas que os mercados não são capazes de fazer com eficiência ou equidade, como nas áreas de saúde, educação, segurança e apoio aos desempregados e aos pobres.

O Estado não pode deixar de exercer a liderança nesses setores e na função de impedir a economia de mercado de correr riscos excessivos na busca por lucros rápidos.

Ele precisa assegurar que o sistema de pagamento das firmas particulares (incluindo o pagamento de bônus enormes aos altos executivos) não cause desigualdades inaceitáveis e não coloque em risco a viabilidade do sistema econômico.

Qual a sua opinião sobre os movimentos "Occupy", que, apesar de terem demandas confusas, reivindicam transparência no setor financeiro?

Vejo os movimentos "Occupy" como uma das coisas mais interessantes e animadoras dos últimos anos.

Suas queixas não são bem formuladas, evidentemente. Mas essa falta de precisão e de articulação não torna os movimentos pouco importantes. Eu os vejo como algo que está registrando a insatisfação com as disparidades e injustiças no mundo.

O impacto que terão sobre o modo como o mundo funciona vai depender de como são levadas adiante essas explosões de protesto.

Com um engajamento contínuo e liderança inteligente, poderão trazer para a discussão pública uma série de questões cruciais.

RAIO-X AMARTYA SEM

 

 

VIDA

Nasceu em Santiniketan, na província de Bengali Oeste, na Índia, em 3/11/1933

CARREIRA

Laureado com o Nobel de Economia em 1998 por seus estudos sobre fome e pobreza, Sen é doutor em economia pelo Trinity College, em Cambridge (Reino Unido)

OBRA

Criou, em 1993, junto com Mahbub ul Haq, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), usados pelas Nações Unidas. É autor de "Desenvolvimento como Liberdade" (Companhia das Letras, 2000) e "Uma Ideia de Justiça" (Companhia das Letras, 2011), entre outros.

 

 

Para Nobel de Economia, Brasil é um exemplo para China e Índia

Amartya Sen considera país modelo de crescimento com justiça

ISABEL FLECK, DE SÃO PAULO - folha de são paulo, caderno Mundo, 25-04-2012

O Brasil é um bom exemplo de conciliação entre rápido crescimento econômico e desenvolvimento social. A afirmação é do indiano Amartya Sen, 78, Nobel de Economia em 1998, que participou anteontem, em São Paulo, do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento.

Para Sen, uma das razões que levaram o Brasil a mudar de posição no cenário global foi o "reconhecimento da complementaridade entre crescimento rápido e políticas de justiça social".

"O Brasil encontrou uma maneira de fazer com que o crescimento fosse compartilhado amplamente pela população", disse, destacando que o país pode ser um modelo para China e Índia.

Segundo Sen, idealizador do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a frequente comparação entre os vizinhos asiáticos mostra números de desenvolvimento social -como educação e saúde- mais altos na China.

No entanto, ele lembrou que outros valores, como liberdade de expressão e democracia, devem ser levados em conta na comparação.

"A China executa [pessoas] em uma semana mais do que a Índia executou desde a sua independência, em 1947", comparou.

Para Sen, é fundamental que a discussão sobre os impactos do crescimento econômico faça parte dos debates da Rio+20. "Antes de falarmos nos benefícios do crescimento econômico, temos que nos concentrar no crescimento sustentável", disse.

O Nobel ainda criticou a forma como os governos europeus têm reagido à crise. "Cortes repentinos e severos podem ter um efeito depressivo", afirmou, destacando que é preciso "esperança e não desespero para ter coragem de buscar a mudança social".

 

 

 

 

ENTREVISTA RAJENDRA SISODIA

'Capitalismo consciente' vai além da obtenção de lucro e é arma contra crise

ELEONORA DE LUCENA, DE SÃO PAULO - folha de são paulo, 13-05-2012

GURU DE ABILIO DINIZ, PROFESSOR INDIANO DA UNIVERSIDADE DE BENTLEY, NOS EUA, DIZ QUE EMPRESAS DEVEM CRIAR REDE HARMÔNICA ENTRE CLIENTES, TRABALHADORES E FORNECEDORES

Criar uma rede harmônica entre clientes, trabalhadores e fornecedores. Pensar no objetivo maior da empresa.

Com essas linhas, o indiano Rajendra Sisodia, 53, defende a implantação do "capitalismo consciente" nas empresas.

Professor de marketing e negócios da Universidade de Bentley (Boston, EUA), ele virou guru de empresários como Abilio Diniz. Para Sisodia, a ideia "pode soar romântica, mas é bem prática".

Lembra como o grave caso da exploração de trabalhadores da Foxconn, fornecedora da Apple, prejudicou a imagem da companhia norte-americana. Ele conversou com a Folha por telefone.  segue.....

 

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Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 06h29
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Terça-feira , 17 de Abril de 2012


ESPECIAL (CONJUNTURA): RECEITA PARA ELEVAR INVESTIMENTO É CONTROVERSA

por Tainara Machado | De São Paulo

Para Silvia Matos, da FGV, e Luiz Fernando de Paula, da Uerj, é preciso que o governo contenha gastos de custeio da máquina pública e abra espaço para investir mais

Valor Econômico - 17/04/2012

Aumentar o investimento público é condição essencial para estimular o crescimento não apenas em 2012, mas no longo prazo, argumentam economistas de diversos matizes convidados a debater a situação da indústria e os caminhos necessários para que o setor volte a ser competitivo. Para tanto, afirmam, é preciso que o governo contenha as despesas de custeio da máquina pública e abra espaço para aumentar sua capacidade de investir, além de propiciar a convergência da taxa básica de juros para patamares praticados por outros países em desenvolvimento. Para além do investimento público, contudo, o restante da receita para crescer é mais controverso.

Para o professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e presidente da Associação Keynesiana Brasileira, Luiz Fernando de Paula, é necessário ainda eliminar os resquícios de indexação da economia, como a existência de títulos públicos remunerados pela Selic, herança dos tempos de hiperinflação.

Para Paula, o governo tem ainda a tarefa de consertar os preços fundamentais da economia brasileira: juros e câmbio. Para isso, o economista defende intervenção maior do governo no mercado de câmbio, para assegurar que o real fique menos valorizado ante o dólar, ainda que a custa do Investimento Estrangeiro Direto (IED).

"Um controle de capital mais generalizado poderia ter impacto no IED, mas a dificuldade é avaliar quais são os custos e benefícios", afirma Paula "Se for recompensado por maior eficácia, com câmbio em nível mais interessante, acho que pode ser um risco interessante a correr." Para Paula, o risco de fuga de capital com intervenção mais pesada do governo no mercado de câmbio é pequena: "Fugir para onde, para a Europa?"

Silvia Matos, doutora em economia pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e coordenadora do Boletim Macroeconômico do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), diz que a taxa de câmbio depende essencialmente dos termos de troca, com influência dos preços elevados das commodities no mercado externo para a valorização do real. Controles mais pesados, afirma, teriam efeitos colaterais adversos.

Silvia argumenta que além do aumento dos investimentos públicos, é necessário também retomar reformas para que o país volte a ter ganhos de produtividade. O problema que a economista enxerga é a falta de coordenação e vontade política para levar adiante essa agenda. "O Ministério da Fazenda está perdido. As medidas são pontuais, geram desequilíbrios e não embutem visão de longo prazo", diz.

Para Silvia, o governo deve refrear a concessão de estímulos neste ano, principalmente para o consumo, para não correr o risco de que o país chegue ao fim do ano com um cenário de estagflação - crescimento moderado e inflação elevada - já que expansão mais forte baseada no setor de serviços e na construção civil teria como efeito novo repique dos preços e elevação do déficit em conta corrente.

Promover expansão por esses canais "seria repetir os erros de 2010", diz Silvia "O governo não deveria afundar o pé no acelerador, sob o risco de ter que pagar a conta com crescimento menor no ano seguinte, como ocorreu em 2011." A seguir, os principais trechos das entrevistas.

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"Temos que fazer uma faxina nos resquícios de indexação"

Valor Econômico - 17/04/2012

Valor: É possível crescer 3,5% em 2012 com a inflação no centro da meta, como apontou o BC no último Relatório de Inflação?

segue..

 

 

É ESSE O CAMINHO? - VALOR (SUPLEMENTO)

Por Claudia Safatle | De Brasíliac

Entre a "guerra cambial" e "tsunami monetário", o governo tenta controlar o fluxo de capitais e defender o país de uma suposta desindustrialização

Valor Econômico - 02/05/2012 - SUPLEMENTO

Para enfrentar os efeitos da crise global, o governo armou a ofensiva em várias frentes. Reduziu fortemente a taxa básica de juros, concedeu incentivos fiscais para alguns setores da indústria atingidos pela competição externa, desonerou a folha de pagamentos de outros setores, impôs restrições ao mercado de derivativos cambiais e taxou com 6% de IOF os empréstimos externos com prazo de até cinco anos.

Entre a estridência da "guerra cambial" e do "tsunami monetário", o governo tenta controlar o fluxo de capitais, defender o país de uma suposta desindustrialização, conter a inflação, reduzir os juros e retomar a trilha do crescimento.

Será esse o melhor caminho para a economia brasileira? Para comemorar os doze anos de sua criação, o Valor formulou doze perguntas específicas a especialistas nas diversas áreas da economia e da política. As respostas dos articulistas estão nas doze páginas deste tradicional suplemento de aniversário do Valor, o "Rumos da Economia".

A pergunta que sintetiza uma das maiores preocupações da indústria e do governo, hoje, é "Como conviver com a valorização do real que se apresenta como tendência de longo prazo?" Começa a ficar claro que não basta reduzir a taxa de juros para conter a valorização do real. Altos, os juros podem ser responsáveis por uma parte, mas não explicam toda a apreciação da moeda. As condições externas, os preços das commodities e os melhores fundamentos da economia brasileira também respondem pela força do real.

Cabe ao Executivo, portanto, arregaçar as mangas e trabalhar em questões estruturais que afetam a competitividade da indústria local, da alta carga tributária às mazelas da infraestrutura, dentre muitas outras. As fraturas que uma boa depreciação cambial encobriria estão expostas.

Forçar a desvalorização com a sustentação de um piso, como tem feito o Banco Central, vai destruir os ganhos reais de salário e produzir mais inflação.

Os juros básicos estão em queda desde agosto de 2011. Eram de 12,5%, estão em 9% ao ano e podem chegar à casa dos 8% este ano. O Comitê de Política Monetária (Copom) aproveitou a crise externa e o ambiente desinflacionário da economia mundial para cortar a Selic.

A presidente Dilma Rousseff fez da normalização dos juros - um problema que se arrasta desde meados dos anos 90 - sua principal missão na área econômica. "Os juros são o nosso Plano Real", resumiu uma fonte do Palácio do Planalto ao Valor, recentemente. O mercado suspeita da influência de Dilma no Copom. O BC segue, entre trancos e barrancos, cavando novos espaços para cortar a Selic sem comprometer a meta de inflação e joga uma polêmica nessa disputa: a redução da taxa neutra de juros.

Uma pesquisa de taxas ex-ante (expectativa de juros doze meses à frente) e ex-post (taxa efetiva) mostra que o mercado tem superestimado sistematicamente os juros desde dezembro de 2007. Em dezembro de 2010, por exemplo, a expectativa era de uma taxa real de 6,13% para dezembro de 2011. A efetiva foi de 4,8%.

A pressão crescente pela redução dos spreads, medidos pela diferença entre as taxas de captação e de aplicação do sistema financeiro, é o outro lado da mesma questão. O uso dos bancos públicos como instrumento de persuasão para que os bancos privados reduzam suas margens de lucro e aumentem o crédito tem limite. Quando não tem, a conta cai sobre o contribuinte.

Desafios não faltam. O crescimento, até então sustentado pelo aumento do consumo, precisa de correspondência nos investimentos, sem o que o PIB seguirá como um eletrocardiograma, entre picos e vales. A educação oferecida aos brasileiros é lamentável, mas o debate fácil se confina em mais e mais verbas em detrimento da eficiência do gasto e foco na qualidade.

Na política, a corrupção volta à cena às vésperas do julgamento dos réus do "mensalão", sem que se tenha no horizonte a solução para os canais que a alimentam. O que melhor traduz esse desafio é a execução do orçamento da União. É a liberação de verbas para as emendas parlamentares que sustenta a base de apoio do governo.

 

 

 

CIFRAS & LETRAS - CRÍTICA / O CRESCIMENTO BRASILEIRO

 

ECONOMISTAS DESCONSTROEM PERÍODO DE BONANÇA DO PAÍS

Com receituário liberal, livro revela problemas ofuscados por versão oficial (Ver também livro COMPETITIVIDADE, pessoal da FGV)

 

 

MARIANA CARNEIRO - DE SÃO PAULO - FOLHA DE SÃO PAULO, 12-05-2012

O preço dos imóveis nas capitais disparou, a empregada doméstica ficou mais cara e, se você acaba de ganhar um vizinho português, não estranhe. É o retrato do Brasil da segunda década do século 21, a sexta economia do...

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 09h43
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Terça-feira , 10 de Abril de 2012


O CAMINHO DE UM GÊNIO CHAMADO SCHUMPETER

por Luiz Sérgio Guimarães | Para o Valor, de São Paulo

Professor emérito da Harvard Business School, Thomas K. McCraw visita vida e obra de Joseph Schumpeter

Schumpeter: um "bon vivant" conservador que jamais deixou em segundo plano a paixão pelo estudo incessante

VALOR ECONÔMICO, 10-04-2012

Joseph Alois Schumpeter (1883-1950) queria se tornar o maior economista, o maior cavaleiro e o maior amante do mundo. Mas frequentemente admitia que as coisas não iam nada bem com os cavalos. Blague espirituosa ou autoconfiança excessiva? Em 1983, o ano em que se comemorou o seu centenário e também o do arquirrival John Maynard Keynes (1883-1946), a revista "Forbes", entre um e outro, elegeu a visão schumpeteriana como a mais completa para entender os desafios inerentes às súbitas mudanças econômicas. E as mulheres? Elas o amavam e o salvaram várias vezes de severos traumas.

Conservador confesso, Schumpeter foi um "bon vivant" que jamais deixou em segundo plano a paixão pelo estudo incessante (a dedicação compulsiva ao trabalho teria sido a causa básica de sua morte), a obsessão em desvendar os segredos da economia, da sociologia e da história. Foi também um especulador da Bolsa e banqueiro que perdeu toda a sua fortuna. Pode não ser o maior, mas conquistou posto cativo entre os grandes economistas de todos os tempos. Por isso, vale muito a pena se aventurar nas 770 páginas de "O Profeta da Inovação - Joseph Schumpeter e a Destruição Criativa", de Thomas K. McCraw, professor emérito de história empresarial da Harvard Business School.

McCraw não pretendia tratar do pensamento econômico de Schumpeter. Em vão. Os conceitos e as teorias que lhe trouxeram notoriedade estão todos lá, analisados para a compreensão do leigo, sem prejuízo para o leitor mais interessado em saber como as tragédias pessoais marcaram e moldaram o caminho do gênio. Mas põe ênfase em sua vida turbulenta e na sua necessidade compulsiva de entender o capitalismo, em sua efervescente mistura de elementos econômicos, sociais, culturais e políticos, no que tem de melhor e de pior, e no seu impacto avassalador sobre a vida dos indivíduos, das famílias e das nações.

Schumpeter é idolatrado pelos empresários pelas preciosas advertências que faz em relação à inovação, ao empreendedorismo, às estratégias de negócios e aos ciclos econômicos. Ele nunca escreveu manuais que ensinam como chegar ao sucesso nem fornece a receita de como evitar o fracasso, quem for capaz de entender a dinâmica capitalista chamada por ele de "destruição criativa" levará enorme vantagem sobre a concorrência. Essa célebre expressão foi cunhada em 1942 para designar a cruel força cega e amoral que leva ao crescimento econômico.

Mago da mudança irrefreável, o economista nascido em Triesch, então parte do império austro-húngaro, atual República Theca, alertava para a maneira como produtos e métodos capitalistas inovadores estão sempre e impiedosamente tomando o lugar dos antigos. Enaltecia os empreendedores, considerados "o pivô em torno do qual tudo gira", os agentes da inovação e, portanto, da destruição criativa. Para forjar o novo, o capitalista destrói o velho e, com ele, os valores antigos que davam segurança às pessoas.

A "máquina capitalista" - outra expressão indissociável do mundo schumpeteriano - é implacável em punir quem, abrindo mão de um pensamento estratégico diuturno, não ousa. Mas acreditava que os escombros da destruição que o capitalismo carrega atrás de si não são maiores do que a prosperidade que pode gerar.

O livro é dividido em três partes. Não por comodidade. Teria de ser assim porque, ao longo da odisseia intelectual de Schumpeter, ocorreram três sutis reorientações. No começo, ele se concentrou na economia do capitalismo, depois em sua estrutura social e, finalmente, na vertente que lhe pareceu mais satisfatória, em sua história. "O prazer que sentia na solução de tantos enigmas em tantos campos diferentes chegava às vezes à beira da exultação", escreve McCraw.

A constante inovação que pregava para as empresas, Schumpeter exerceu em sua vida. Reinventou-se várias vezes durante o atribulado momento histórico em que viveu. Sua ambição era tornar-se um pensador desprovido de ideologias. Queria uma isenção de valorações que o mantivesse puro e livre dos vieses ideológicos e das armadilhas que tragaram Marx e Keynes. Não aspirava ser apenas infenso às ideologias. Além da neutralidade valorativa, buscava a exatidão científica e a fidelidade à experiência histórica. Trata-se de pretensão inatingível, levada ao extremo hoje pelos modernos métodos quantitativos.

O mundo de hoje, capitalista em toda a sua parte exitosa, parece dar razão à sua tese de que o capitalismo apresenta incomparáveis vantagens em matéria de produtividade e crescimento relativamente a outros sistemas econômicos. Mas o processo não é indolor. O capitalismo se assemelha a um rolo compressor. "No que tem de pior, o capitalismo reduz as relações humanas a grosseiros cálculos pessoais de custo e benefício. Coloca os valores materiais acima dos espirituais, danifica o meio ambiente e mobiliza os aspectos mais sórdidos da natureza humana", diz McCraw.

Dá para ser de outra maneira? Apesar dos seus defeitos, o capitalismo, na visão do professor de Harvard, tem sido capaz de fomentar as inovações científicas, técnicas e medicinais necessárias para elevar a humanidade acima daquele estado natural descrito por Hobbes, segundo o qual a vida é solitária, pobre, sórdida, animalesca e curta.

As últimas décadas têm sido, até para os padrões schumpeterianos, de uma destruição acelerada demais: o súbito colapso do comunismo, após sete décadas de contendas atrozes com o capitalismo; a desregrada prosperidade da década de 1990, seguida por uma epidemia de escândalos corporativos, levando à falência acionistas e empregados e desacreditando o próprio capitalismo; a irrupção do flagelo do terrorismo internacional, instituindo um estado de guerra permanente; o surgimento, na China, de um sistema que associa uma predatória economia capitalista com um velho regime político comunista; e uma infindável crise na Europa.

Em meio à perplexidade geral, talvez fosse o caso de investigar se o capitalismo atual não se dedica somente à destruição pela destruição, sem criação e sem criatividade. Schumpeter estaria muito atarefado hoje.

"O Profeta da Inovação"

Thomas K. McCraw Trad.: Clóvis Marques Record, 770 págs., R$ 84,90

 

 

Sunday, April 29, 2012

"A Marxist Dream?"

Before saying goodbye to my parents and hitting the road again for the final leg to LA, here's something from Chris Dillow:

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 05h46
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Domingo , 08 de Abril de 2012


NA OFENSIVA

A esquerda após a crise de 2008

RESUMO: Para o sociólogo Göran Therborn, que vem ao Brasil para lançar "Do Marxismo ao Pós-Marxismo?", movimentos como o Occupy e os indignados espanhóis se caracterizam como defensivos, sem virar o jogo político. Aqui, ele analisa economia e política na Europa e nos EUA. Leia a íntegra em folha.com/ilustrissima.

ELEONORA DE LUCENA - Folha de São Paulo, 08-04-2012, Caderno Ilustríssima

A crise financeira não tirou a esquerda da defensiva; a direita derrotou a social-democracia na Europa. Mas a falta de saídas neoliberais deve fazer o pêndulo do ciclo eleitoral mudar de tendência. A avaliação é do sociólogo marxista Göran Therborn, professor emérito aposentado da universidade de Cambridge. Nesta entrevista, concedida por e-mail, Therborn, 70, fala das principais eleições no mundo neste ano, do declínio dos EUA e do individualismo.

Ele estará no Brasil nesta semana para o lançamento de seu livro "Do Marxismo ao Pós-Marxismo?" [trad. Rodrigo Nobile, Boitempo, 160 págs., R$ 39]: na terça (10), fala no Tucarena, em São Paulo; na quarta (11), em Porto Alegre, e na sexta (13) em Belém.

 

Folha - No seu livro "Do Marxismo ao Pós-Marxismo", de 2008, o sr. diz que a esquerda está na defensiva. Ainda está?

Göran Therborn - No conjunto, sim. O crash financeiro e a aceleração da desigualdade econômica não colocaram a esquerda na ofensiva social em lugar nenhum. Existiram, e ainda existem, alguns movimentos inovadores, como a Democracia Real Ya! e o 15-M, na Espanha, e o Occupy Wall Street. Mas eles não foram capazes de mudar os parâmetros básicos do jogo político nacional. Os grandes protestos na Grécia têm sido claramente lutas defensivas. O movimento estudantil chileno, contra a mercantilização do ensino superior, é uma exceção. Ele foi capaz de se conectar com outras forças sociais e empurrou o arrogante governo Piñera para a defensiva.

 

Muita coisa mudou de 2008 para 2012: a crise financeira global, a Primavera Árabe. As mudanças o surpreenderam? O seu livro ficou desatualizado por causa delas?

Crises em economias capitalistas não surpreendem um cientista social ou um historiador social, embora prever as datas dos seus surtos seja tão difícil como prever as datas dos verões europeus. Os problemas sociais estavam se acumulando sob as envelhecidas ditaduras e oligarquias árabes, como indico em meu livro. Os incipientes movimentos de protestos foram colocados em um livro que publiquei depois, em dezembro de 2010 - "The World" (ed. Polity). Mas eu não esperava a primavera de revoltas.

 

É possível dizer que, com essas mudanças, o neoliberalismo está perdendo a hegemonia?

Muitas mudanças estão acontecendo sem uma causa em comum. O crash financeiro do Atlântico Norte não estava conectado com a Primavera Árabe, por exemplo. O crash sacudiu as próprias bases do sistema bancário anglo-saxônico. A crise de 2011 na Eurozona mostrou a capacidade de autodestruição das bolhas de fluxo de capital.

A Primavera Árabe também destacou que a liberalização das economias árabes nada havia conseguido de significativo em relação ao desemprego e às perspectivas sociais dos grandes grupos de jovens. Por enquanto, nenhuma força política está argumentando que a única via para um futuro melhor são mais privatizações e desregulamentações. Por outro lado, nos países mais ricos nenhuma alternativa articulada apareceu.

 

Alguns pensam que a crise põe a democracia em perigo, como nos anos 1930. O sr. concorda?

A democracia, no seu sentido mais limitado, de eleições livres e competitivas, não está em perigo. O amplo e diversificado estabelecimento do Estado de bem-estar social capitalista significa que os efeitos sociais dos choques econômicos hoje são incomparáveis com a miséria e o desespero criados pela depressão dos anos 1930.

Na Europa Ocidental não há movimentos fascistas com algum significado. O que há são xenófobos, principalmente islamofóbicos. Mas eles não ameaçam a democracia. Na Europa Ocidental, a ameaça à democracia vem da tecnocracia. A crise na Eurozona levou à suspensão de governos democráticos, eleitos, na Grécia e na Itália. Na Europa Oriental a situação é mais incerta.

 

A social-democracia perdeu credibilidade ao ser parceira do neoliberalismo europeu?

Sim, foi claramente o que aconteceu nas derrotas social-democratas na Grã-Bretanha, na Hungria, em Portugal e na Espanha. Mas, como não há solução liberal, o pêndulo do ciclo eleitoral tende a mudar. A social-democracia alemã está crescendo em pesquisas e nas eleições provinciais, e a vitória do socialista François Hollande na França é ainda uma boa aposta.

 

Como o sr. analisa as eleições na França, na Grécia e no México?

Hollande está à frente em questões sociais e econômicas. A guerra na Líbia não impulsionou a posição precária de Sarkozy, mas ele agora está ganhando força entre a direita xenófoba. A França é o único grande país capitalista com significativas correntes de extrema esquerda, que ganham entre 10% e 20% dos votos.

A Grécia tem uma esquerda com organização bem mais forte do que a Espanha. Tem chance de se tornar a maior força eleitoral no país. Mas está dividida entre três partidos e outras correntes que não convivem bem entre si. O conservador Nova Democracia pode ganhar por causa da divisão da esquerda. Os social-democratas, que se renderam às pressões da crise, serão os grandes perdedores.

O México tem um habilidoso porta-bandeira da esquerda, López Obrador, que organizou um vasto movimento com raízes nacionais. Mas tem a oposição da mídia e das máquinas do clientelismo. Não é provável que vença.

 

Qual sua previsão para os EUA?

Obama se revelou um presidente fraco, moderadamente conservador, completamente subserviente aos interesses imperiais dos EUA, o que eu esperava. Está enfrentando uma notável reação da direita. O movimento Tea Party logrou explorar a crise financeira com uma linha de extrema direita, que habilmente deixou de lado questões da crise e da desigualdade econômica. Comparativamente, o movimento Occupy Wall Street é pequeno e pobre. Como as primárias têm demonstrado, o Tea Party e os cristãos fundamentalistas moveram o Partido Republicano de volta para uma era [Barry] Goldwater. Com a incipiente recuperação econômica, é provável que Obama vença, mas certamente não de forma esmagadora como a de Lyndon Johnson em 1964.

 

Por que o sr. considera a influência dos EUA decadente?

Não considero "decadente", que é um termo moralista, mas em declínio, enfraquecida. O declínio é óbvio. No Egito, os EUA nada puderam fazer para preservar o seu segundo cliente mais caro do mundo (depois de Israel), nem foram capazes de impor um novo regime satélite. Em dezembro, Hugo Chávez lançou uma nova organização latino-americana fora da influência dos EUA, a Celac. Antes de 2000, isso seria impensável.

O declínio da influência norte-americana é acima de tudo geopolítico e ideológico. Suas bases são a ascensão de novos e grandes agentes econômicos (China, Índia, Brasil). Há perda de significado da liderança ideológica dos EUA após o fim da Guerra Fria e a óbvia incapacidade das receitas neoliberais anglo-saxônicas para a nova economia mundial.

A tentativa de substituir a Guerra Fria por uma caçada em grande escala, a guerra ao Terror, nunca foi levada a sério por ninguém fora dos EUA. Cada vez menos pessoas e políticos enxergam os seus interesses como coincidentes com os dos EUA. O risco de ignorar os interesses norte-americanos também diminuiu.

É preciso enfatizar onde não há declínio ou onde ele é muito pequeno. Enquanto a relativa predominância econômica dos EUA decai significativamente, não se deve esquecer que boa parte da vanguarda da economia mundial ainda é norte-americana: Apple, Microsoft, Facebook, Amazon, Boeing. Os EUA ainda são o centro do entretenimento de massa e da pesquisa científica. São a única superpotência militar, e seus gastos militares são mais do que o dobro dos gastos de China, Reino Unido, França, Rússia e Japão juntos.

 

Como analisa o marxismo hoje?

O marxismo é uma original unidade entre filosofia, análise social e política. Muito dessa unidade foi quebrada. Os políticos comunistas se desvincularam de Marx. Foi decisiva a transformação do capitalismo, com desindustrialização, revolução eletrônica e emergência do capital financeiro.

Tudo isso parou e inverteu a tendência de longo prazo anterior: propriedade coletiva, regulação pública e fortalecimento da classe trabalhadora. A queda da URSS foi um propulsor político, mas, sob uma perspectiva histórica de longo prazo, os impasses do socialismo soviético e da social democracia europeia tiveram as mesmas raízes. O marxismo como identidade coletiva foi seriamente enfraquecido e é improvável que torne a ter a sua força anterior.

 

Como o sr. analisa a questão do individualismo hoje?

É crucial distinguir entre o individualismo egoísta, fundamentado, do individualismo econômico, do solidário, essencialmente um individualismo existencial. O individualismo egoísta econômico existe no Tea Party. Exemplo. Uma apresentadora de TV protesta contra uma abordagem coletiva para a crise: por que ela deveria pagar a hipoteca do vizinho?

É um individualismo burguês na sua forma extrema, e tanto hoje como historicamente é coabitado com familismo patriarcal. O polo oposto está em movimentos juvenis mais progressistas. É um individualismo existencial, que afirma o direito a um estilo de vida individual, ter cabelo verde, ser bissexual, vegan, punk etc. Mas é capaz de ter empatia com os outros, dando apoio e solidariedade

 

 

 

ENTREVISTA - O DINHEIRO É VERMELHO

 

Por Carla Rodrigues | Para o Valor, do Rio

O geógrafo David Harvey compara o capitalismo a um corpo vivo, dependente de um fluxo de sangue sujeito ao risco de bloqueios inesperados

VALOR ECONÔMICO, 09-03-2012 [+ Literatura Os 85 anos de Gabo (Gabriel García Márquez) e À mesa com o valor - Antonio Nóbrega O brincante que bota pra 'frever']

 

 

Pêndulo eleitoral tende a mudar

ELEONORA DE LUCENA - DE SÃO PAULO   -  08/04/2012 - 08h00

A crise financeira não tirou a esquerda da defensiva; a direita derrotou a social democracia na Europa. Mas a falta de saídas neoliberais consistentes deve fazer o pêndulo do ciclo eleitoral mudar de tendência. A avaliação é do sociólogo marxista sueco Göran Therborn, professor emérito aposentado da universidade de Cambridge.

Nesta entrevista ele fala das principais eleições no mundo neste ano, do declínio dos EUA e do individualismo. Therborn, 70, estará no Brasil nesta semana para o lançamento de seu livro "Do Marxismo ao Pós-Marxismo".

No dia 10 de abril, a palestra será no Tucarena, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); no dia seguinte ele estará na Câmara Municipal de Porto Alegre; e em 13 de abril falará na Universidade Federal do Pará (UFPA). SEGUE ENTREViSTA..

 

 

Sunday, April 29, 2012

 

"A Marxist Dream?"

Before saying goodbye to my parents and hitting the road again for the final leg to LA, here's something from Chris Dillow:

 

 

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 06h48
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Quarta-feira , 04 de Abril de 2012


DESENVOLVIMENTISMOS

por Ricardo Carneiro

Tema desperta polêmicas. Para contestá-los, é preciso ter em mente as conjunturas históricas particulares nas quais estratégias e teorias que lhe dão suporte ganharam momento

Valor Econômico - 04/04/2012

Ressuscitado contemporaneamente pela incompetência das políticas de inspiração liberal em estimular o desenvolvimento no Brasil, o desenvolvimentismo desperta polêmicas, como na série de artigos de José Luís Fiori publicados na editoria de Opinião do Valor.

Neles, Fiori busca criticar essa concepção referindo-se tanto ao seu caráter de estratégia de desenvolvimento quanto às reflexões intelectuais da esquerda que lhe deram suporte, originadas no Partido Comunista Brasileiro (PCB), no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) e, após 1970, na escola de Economia da Unicamp.

Nesses textos, Fiori sugere reiteradamente o caráter conservador e, atualmente, ultrapassado do desenvolvimentismo. Assim, propõe que este só se concretizou no Brasil como uma estratégia fundada numa ideologia de direita, a da segurança nacional. A sua vertente de esquerda seria menos relevante e teria perdido importância desde os anos 1960, pela sua incapacidade de explicar o desenvolvimento capitalista no Brasil e pela sua cisão política durante o Plano Trienal.

No plano das ideias, a despeito da sua simpatia pelas teorias da dependência, Fiori admite a centralidade da escola da Unicamp, que partiu da escola cepalina para reinterpretar o capitalismo brasileiro e fundamentar o desenvolvimentismo após 1970. Já nos anos recentes isto não mais ocorreria, dentre outras razões, porque essa escola teria se dedicado às análises setoriais ou macroeconômicas restritas, orientando-se para formar quadros burocráticos para o governo, sacrificando assim sua capacidade interpretativa. Em um de seus artigos, chega afirmar que a Unicamp se converteu ao "varejo keynesiano e suas deblaterações macroeconômicas".

Para contestar Fiori é preciso ter em conta as conjunturas históricas particulares nas quais essas estratégias e teorias ganharam momento. Os anos que vão de 1930 a 1980 expressam uma condição particular do capitalismo que permite, por várias razões, um grau elevado de autonomia do desenvolvimento nacional. No caso brasileiro, isso abriu a possibilidade para a hegemonia das correntes desenvolvimentistas, à direita e à esquerda. A correlação de forças sociais e políticas conformaram, em momentos distintos, os diversos padrões do desenvolvimento do período, nos quais seus diversos matizes tiveram influência variada.

Já os 30 anos que se iniciam nos anos 1980, e que correspondem à ascensão do neoliberalismo, teriam sido difíceis para o desenvolvimentismo e as teorias econômicas que lhes dão suporte, independentemente das suas correntes. Do mesmo modo, o seu ressurgimento atual deve-se menos às ações de economistas e intelectuais e mais à incapacidade do neoliberalismo e de sua política econômica em promover o desenvolvimento.

Hoje, à esquerda ou à direita, as várias correntes desenvolvimentistas que Fiori é incapaz de identificar ou distinguir comungam, como no passado, do antiliberalismo econômico. Mas há diferenças relevantes entre elas.

De um lado está o novo desenvolvimentismo, cujo centro de irradiação é a FGV-SP, que privilegia as dimensões macroeconômicas das políticas e subordina a elas as políticas de desenvolvimento e dando maior peso ao papel do mercado. Esta corrente prioriza o desenvolvimento das forças produtivas e o mercado externo, entendendo que a distribuição da renda decorrerá, mas não automaticamente, da primeira, sendo necessário a implementação de políticas que garantam a transferência de ganhos de produtividade aos salários.

Em outro plano, coloca-se o social-desenvolvimentismo, com origem na Unicamp e na UFRJ. Como a qualificação sugere, nessa estratégia o social é o eixo do desenvolvimento e isto se daria pela centralidade do mercado interno via a ampliação do consumo - de bens públicos e privados - das massas. Nessa vertente se propõe a subordinação das políticas macroeconômicas às de desenvolvimento e o maior peso do Estado. O desenvolvimento das forças produtivas seria, nesse caso, um meio para atingir o objetivo almejado. Em nenhum momento Fiori é capaz de enxergar essas diferenças e põe todo mundo no mesmo saco.

A afirmativa de Fiori de o que desenvolvimentismo de esquerda teria se convertido ao "keynesianismo de varejo" revela desconhecimento dessa corrente. Tome-se, por exemplo, o documento de fundação da Rede Desenvolvimentista, "Desenvolvimento brasileiro: temas estratégicos". Nele, estão propostos para discussão temas considerados essenciais para o desenvolvimento brasileiro. No plano internacional são destacados: a reformulação da ordem econômica internacional após a crise financeira, abarcando o futuro do sistema monetário internacional e do padrão-dólar, a organização e a evolução do mercado de matérias-primas, a influência da China na configuração de nova divisão internacional do trabalho e, ainda, a consolidação dos blocos regionais com ênfase na América do Sul.

No âmbito da economia brasileira são postos em relevo temas como: o setor produtor de commodities no desenvolvimento nacional, as possibilidades da industrialização brasileira face à nova divisão internacional do trabalho, e a necessidade de recuperação da infraestrutura nacional e o desenvolvimento regional. Considera-se também o financiamento externo da economia brasileira, o financiamento interno em longo prazo, e os perfis de intervenção do Estado na economia pela ótica da carga tributária, transferências e gastos. Por fim, mas não por último, a estrutura de emprego e mercado de trabalho e as políticas sociais ativas para obter crescimento com distribuição da renda. Tudo isso em um contexto da formulação das estratégias de desenvolvimento, contrapondo Estado e mercado.

Comparar os resultados históricos do período desenvolvimentista com as utopias, como faz Fiori, é um exercício útil, mas parcial. Outra tarefa igualmente relevante é avaliar os resultados obtidos, à luz das possibilidades concretas ou alternativas de desenvolvimento colocadas pela história do país. Isto certamente permite enxergar melhor as opções que se colocam em cada conjuntura.

Ricardo Carneiro é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp e coordenador da Rede Desenvolvimentista.

 

O 'DESENVOLVIMENTISMO DE ESQUERDA'

por José Luís Fiori

Atualmente, esta visão desenvolvimentista tem uma visão estreita do seu "horizonte utópico" que acabou se transformando numa ideologia tecnocrática, sem capacidade de mobilização social - Valor Econômico - 29/02/2012

 

Muito antes de Keynes

por José Luís Fiori - Valor Econômico - 25/04/2012

 

O milagre econômico inglês, que deu origem ao capitalismo moderno, começou no século XVII, muito antes da chamada revolução industrial

O "milagre econômico inglês", que deu origem ao capitalismo moderno, começou no século XVII, muito antes da chamada "revolução industrial". De forma aproximada, se pode dizer que seu início ocorreu entre a "República de Cromwell" (1649-1659) e o reinado de Guilherme III, o "rei holandês", que governou a Inglaterra entre 1689 e 1702. Cromwell aumentou o poder naval da Inglaterra, fez guerra e venceu a Holanda (1652-1654) e a Espanha (1654-1660), as duas grandes potências marítimas do século XVII, e conquistou a ilha da Jamaica, em 1655, criando a primeira colônia do futuro Império Britânico. Além disso, Cromwell editou, em 1651, o 1º Ato da Navegação, que fechou os portos ingleses aos navios estrangeiros e se transformou no primeiro ato mercantilista agressivo da Inglaterra, fechando as fronteiras de sua economia nacional.

Três décadas depois, Guilherme III enfrentou e venceu a França na Guerra dos 9 Anos (1688-1697), iniciou a Guerra da Sucessão Espanhola (1702-1712) e conquistou e submeteu Irlanda e Escócia. Ao mesmo tempo, no campo econômico, promoveu uma "fusão revolucionária" das instituições financeiras holandesas - que eram mais avançadas - com as finanças inglesas, criando o Banco da Inglaterra e um novo sistema de financiamento da dívida pública inglesa, atrelado à bolsa de valores e ao sistema de crédito da banca privada. Uma "revolução financeira" que deu à Inglaterra um poder de fogo econômico e militar - em qualquer lugar do mundo - muito superior ao das demais potências europeias.

Foi nesse período que William Petty (1623-1687) - o pai da economia política clássica - escreveu dois ensaios que revolucionaram o pensamento econômico do século XVII: o "Tratado sobre Impostos e Contribuições", publicado em 1662, e a "Aritmética Política", publicado depois da sua morte, em 1690. No momento em que Petty publicou sua obra, a Inglaterra ainda era uma potência de segunda ordem e se sentia cercada pela Holanda, Espanha e França. Essa era sua preocupação fundamental, quando formulou o conceito de "excedente econômico", e estabeleceu uma relação direta entre o tamanho desse "excedente" e o poder internacional de cada país.

O que Petty não propôs nem previu, foi que a Inglaterra virasse uma potência agressiva, e que seu expansionismo se transformasse num motor fundamental para o próprio crescimento do "excedente interno" da economia inglesa, consagrando uma estratégia desenvolvimentista pioneira na história do capitalismo.

Basta dizer que a Inglaterra participou de 110 guerras - entre 1650 e 1950 - dentro e fora da Europa, e financiou esse seu expansionismo bélico, depois da "revolução financeira" de 1690, com a sua "dívida pública" que cresceu de 17 milhões de libras em 1690, para 700 milhões em 1800, sem perder, em nenhum momento, a sua "credibilidade" nacional e internacional.

Resumindo e apressando a história, já é possível identificar alguns traços fundamentais e específicos desse "desenvolvimentismo inglês":

1) O desenvolvimento inglês foi ligado umbilicalmente à expansão do poder internacional da Inglaterra, e essa expansão foi muito importante para o aumento da "produtividade" e do "excedente" da economia inglesa.

2) Nesse contexto, pode se entender porque as guerras e a "preparação para a guerra" ocuparam um lugar tão importante no desenho estratégico do desenvolvimentismo do estado e dos capitais ingleses.

3) O expansionismo inglês nunca foi liderado pela indústria ou pela burguesia industrial, e sim pelas suas elites ligadas à terra, às armas e às finanças.

4) A estratégia de desenvolvimento da Inglaterra seguiu sendo basicamente a mesma, antes e depois da crítica ao mercantilismo, da economia política clássica, e também, antes e depois da "revolução industrial".

5) O próprio protecionismo de Cromwell se manteve até o século XIX, e só foi abandonado depois que a Inglaterra já era a maior potência militar e econômica mundial.

6) A finança, a dívida pública e a imposição progressiva da libra como moeda do "território econômico supranacional" da Inglaterra, foram os principais instrumentos de poder responsáveis pelo sucesso internacional do capitalismo inglês.

7) Por fim, o desenvolvimentismo inglês não teria sido o mesmo sem a complementaridade dos EUA, que foi sua principal fronteira de expansão financeira, e depois se transformou no herdeiro direto desse mesmo modelo inglês de desenvolvimento e expansionismo contínuo.

Agora bem: esse "desenvolvimentismo inglês" é o único caminho possível de sucesso? Não. Ele pode ser seguido por qualquer país? Também não. De qualquer forma, o importante é entender que este foi o caminho seguido pelas duas maiores potências liberais da economia capitalista internacional.

(Vide: P.J. Cain and A.G. Hopkins, "British Imperialism, 1688-2000", Longman, London, 2001)

José Luís Fiori, professor do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, e autor de "O Poder Global".

 

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 06h25
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