ECONOMIA e SOCIEDADE por Jose Porfiro


Segunda-feira , 23 de Junho de 2014


BUSCA DE OUTROS MUNDOS PARA ALÉM DA CRISE DE CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

FACEBOOK, 16May2014

Resenhar um livro que tem como finalidade contestar o domínio do capitalismo não é algo tão confortável, dado como o debate é realizado numa rígida polarização odiosa, desrespeitosa e sectária, com desdobramentos muito previsíveis. De um lado, muitos, por não serem simpáticos à ideia, nem dão sequência a leitura. De outro lado, os simpáticos, provincianos e antiacadêmicos, quando encontrarem alguma ponderação, logo passam a rotular o resenhador de jumento, cavalo e/ou incapaz de compreender a ideia do livro.
Também, não é algo simples resenhar um texto de um autor que conhecemos de longas datas, do qual tivemos a oportunidade de ler seu trabalho anterior, nos idos de 2003, antes de chegar à banca examinadora, momento no qual tive a oportunidade de fazer os comentários que achava pertinente naquela ocasião.
Agora, o livro lançado é “Capitalismo verde e transgressões: Amazônia no espelho de Caliban”, editado pela Editora da UFGD (139 págs.), de autoria do prof. Elder Andrade de Paula, um mineiro, imigrante do princípio da década de 1980. O livro chegou em minhas mãos gratuitamente, o que facilitou e antecipou sobremaneira a possibilidade da leitura, visto que fiquei isento de participar da mercantilização do livro e/ou dos conhecimentos do autor, por meios monetários.
O prof. Elder trabalha no campo da ciência política, na Ufac. Cursou pós-graduação (mestrado, Campus de Ceropédica, e doutorado, na Av. Presidente Vargas) na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e pós-doutorado no México. Aqui cabe uma observação que ajuda muito na compreensão da leitura. O prof. Elder sempre manifestou um profundo fascínio pelo intelectual italiano, de origem marxista, Antonio Gramsci, por sua original interpretação do Estado capitalista. Expressões como sociedade política, sociedade civil, hegemonia nunca estavam ausentes de suas conversas.
Comumente, eu acompanhava todo seu fascínio pelo italiano até meados de 2007, no instante em que me afastei do Acre e passei mais de seis anos sem assistir quaisquer apresentações. Agora, no início de 2014, fui presenciar uma das falas do prof. Elder e fiquei surpreso por uma nova influência, além de Antonio Gramsci.
Assim que terminou sua apresentação, já constatei a influência de sua orientadora do pós-doutorado, Ana Esther Ceceña, pelo uso recorrente de palavras como crise de civilização, bom viver, geopolítica, transgressões, etc., que até pouco tempo não faziam parte do padrão de suas ultracombativas falas, que é uma de suas qualidades de fazer inveja a qualquer pretendente a ativista político.
Além deste aspecto, “Capitalismo verde e transgressões” traz uma outra novidade na trajetória do professor Elder. Diferente de seu livro anterior (escrito nos agradáveis ares niteroienses, de 2001-2003), agora não mais usa autores críticos (na mesma proporção) que não seguem de sua mesma linha teórica e convicção política. Ou seja, neste trabalho em questão se procura fazer uma faxina, em busca de uma quase pureza político-acadêmica. Trata-se de uma correção lógica e recomendável.
Estas duas observações são importantes, pois ajudam a compreender as permanentes pegadas contra todas as formas de políticas governamentais voltadas para Amazônia internacional, no espaço compreendido nas fronteiras da Bolívia, Brasil e Peru.
Para o autor, isso significa que quanto mais estas políticas para a Amazônia são guiadas pela lógica da sociedade moderna, fundamentada nos princípios da civilização capitalista (usando a expressão do título do livro de Fábio Konder Comparato e/ou dos textos ou palestras de Ana Esther Ceceña), tanto mais são extremamente perniciosas aos modos de vidas previamente existentes na região, à medida que são corrompidos pelo processo devastador de territorialização das relações capitalista de produção, que Elder de Paula engloba na implacável dinâmica de acumulação capitalista planetária.
O livro é guiado por um verdadeiro tour de force, composto por dois grandes vetores, (i) a ideia de capitalismo verde e (ii) a noção de desenvolvimento sustentável (que já é amplamente aceita como conceito difuso nos mais diversos meios, e que no livro é tratada meramente como ideologia), os quais são violentamente destruídos a cada página, pelo suposto de que estes são apenas ilusórias sofisticações do capitalismo para homogeneizar os processos de espoliação das populações camponesas e indígenas. Assim, Ana Esther Ceceña escreve no prólogo, realçando que a preocupação central do livro se põe “en la contrución de um mundo no sometido a la lógica capitalista”, visto que este não funciona sem destruir a natureza por estar fundamentado essencialmente na busca do lucro.
Estas duas categorias malditas (capitalismo verde e desenvolvimento sustentável), construídas e destruídas, simultaneamente – com o argumento de que servem apenas para espoliar suavemente os recursos naturais, ou no linguajar do livro, 'as bondades de la naturaleza' – têm como ilustração aplicada as políticas desenvolvidas na chamada tríplice fronteira (Bolívia, Brasil e Peru), que envolvem, respectivametne, os estados e/ou províncias do Departamento de Pando, do Acre e do Departamento de Madre de Dios.
Todas as políticas desenvolvidas nos últimos quinze ou vinte anos, relacionadas direta ou indiretamente com a questão ambiental, neste caso envolvendo o capitalismo verde e o desenvolvimento sustentável, tiveram apenas a finalidade de orientar e legitimar as ações e estratégias do capitalismo imperial voltadas para o controle dos territórios dotados de recursos naturais estratégicos. Dizendo de outra forma, ao estilo mais característico do livro, com o objetivo fundamental de aprofundar o controle e a mercantilização da natureza, de forma totalmente consentida (legitimada) pela população, à la Gramsci.
Um dos aspectos positivos do livro, dentre tantos, está na síntese histórica da formação destes três espaços – boliviano, brasileiro e peruano –, nos quais cada um têm suas peculiaridades político-econômicas, mas que se tornaram todos reféns da armadilha do capitalismo verde e do desenvolvimento sustentável.
No livro, existem dois pequenos deslizes, os quais não prejudicam em nada a lógica do trabalho, visto que não fazem parte do núcleo dos argumentos. Um se refere a noção associação entre os capitais comercial, industrial e financeiro. A outra, a afirmação de que o capitalismo vivia na era concorrencial, no período da passagem do século XIX para o XX.
Pelo fato de ser um texto de síntese, não podemos demandar tantas explicações em determinados aspectos, o que naturalmente nos deixa com certo grau de dúvida em algumas questões. Por exemplo, em relação ao papel que o Brasil desempenha na América Latina – em comparação com a condição de império dos Estados Unidos –, da forma que a questão foi levantada e concluída, talvez fosse necessário maiores desenvolvimentos.
Outra questão diz respeito ao desdobramento natural que as conclusões do trabalho levariam. Como o objetivo é a busca de formas alternativas para a sociabilidade capitalista, dado pelas severas críticas que são realizadas ao longo do texto, quando se enfrenta a questão, na seção “marchando por autonomias na e além das fronteiras amazônicas”, os caminhos não ficam delineados.
Ou seja, as populações camponesas e os povos indígenas ainda não teriam um caminho minimamente desenhado para evitarem a espoliação dos recursos naturais. O que se teria, por enquanto, seria o firme propósito de recusar taxativamente àquilo que está colocado pelo capitalismo verde e/ou pelo desenvolvimento sustentável, em troca dos postulados do bem viver, que seria, em termos gerais, conforme Ana Esther Ceceña, uma produção holística, integral, em consonância com o cosmo e a natureza, constituindo uma situação de autonomia dos camponeses e povos indígenas perante a lógica do domínio capitalista, no sentido de “construir alternativas civilizatórias”. Transgredir a ordem em busca de outros mundos não capitalistas. É uma viagem, literalmente, a leitura do livro “Capitalismo verde e transgressões: Amazônia no espelho de Caliban”.

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 23h49
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IMPEDIR AS CONSTRUÇÕES DENTRO DA ‪#‎UFAC‬ (MPF, TCU)
Ontem, na assembleia da Adufac, ouvimos coisas desse tipo: “vamos pedir o impeachment do Reitor”; “vamos nos preparar para a Reunião da SBPC, organizando um dossiê contra a Reitoria e aproveitar a vinda das autoridades”.
E, também, “vamos denunciar tudo que está acontecendo aqui na Ufac para o Ministério Público, TCU, para nós impedirmos estas obras aqui dentro da Ufac”.
Quem diria que em menos de dois anos, quem atacava brutalmente as instituições (TCU, MPF), em nome de uma autonomia pessoal, que defende ilegalidades, agora tenha mudado, por conveniência. Mas, está sendo assim.
A tentativa de juntar e mobilizar 100 Doutores para derrotar o prof. Minoru, já passou por várias fases. Importando sempre ter um espantalho levantado.
Primeiro de tudo, como exemplo avançado de corrupção, usa-se o sindicato, com esta finalidade, tendo por fachada quaisquer argumentos que der a entender que se estar defendendo os nossos direitos de sindicalizados e não o mero uso do sindicato para satisfazer interesses particulares.
Se o TCU e MPF pudessem atuar diretamente nessa campo, essa prática deixaria de se perpetuar como uma fase sabática de corrupção indefinidamente.
A mobilização para agregar 100 Doutores com o intuito de atuar nas próximas eleições da Reitoria, dentro da Adufac, já usou vários espantalhos. Regulamentação da entrada, suspensão preventiva, etc.
De certo, que quem mobiliza os 100 Doutores, usando o sindicato, para objetivos particulares, nunca vai reconhecer nenhuma ação que a atual administração estar realizando, evidente. É a única forma de se viabilizar. Vejam.
Quando o processo de climatização foi realizado em quase todas as salas, levantaram-se raivosamente, dizendo que iriam exigir um laudo de um profissional da área de fonoaudiologia para saber descobrir qual o impacto que a climatização teria causado nas ações de ensino. Neste mesmo movimento, também fazia parte a criação de uma Reitoria paralela dentro da Adufac para fazer todo tipo de exigência que pudesse atacar a atual administração. 
Outro exemplo. Por demanda interna das representações daquelas pessoas que possuem dificuldades de locomoção e acessibilidade, bem como de diversas notificações do MPF, a administração estar concluindo a troca do piso das passarelas da Ufac para atender as demandas internas e externas mencionadas. Daí, o grupo que quer derrotar o professor Minoru começou alegar que estavam construindo algo onde já estava realizado. Realizando algo que não era importante, que não era necessário. Vejam que para eles a troca do pisso não era necessária. Além de tentarem afirmar, toda hora, que isso são iniciativas isoladas do prof. Minoru.
A atual administração vem se empenhando para limpar as dependências da Instituição, incluindo pintura, limpeza de açudes já existentes; isso é por demais sabido.
O aguerrido grupo que está mobilizando 100 doutores para derrotar o prof. Minoru, agarra-se, de forma alucinada (literalmente), noutro espantalho, afirmando que a atual gestão está apenas cuidando da aparência da Ufac, cuidando da casca, etc.
Um conjunto de ações que estão sendo preparadas em homenagem aos 40 Anos de Federalização e 50 Anos de História da Ufac (evento de homenagens em julho, lançamento de uma placa em abril, de selo em julho, inauguração do totem, chafariz, pórtico, em julho, registros de depoimentos), agora foi levantando como o espantalho maior.
No primeiro ano de gestão, foram aprovados três mestrados institucionais. Para o grupo de 100 doutores que usa a Adufac para destruir a administração do prof. Minoru é proibido reconhecer essa a ação como relevante para a Ufac.
Depois de 50 anos de história e 40 anos de federalização, foi aprovado o primeiro DOUTORADO na UFAC. Um professor veio logo dizer, de forma derespeitosa, grosseira, estúpida (como sempre se comporta nos ambientes de sua vida), com atitudes amolecadas, que a atual gestão não teve nenhum mérito na criação do Doutorado. Bastante compreensível, para quem pretendia ser o pró-reitor de pesqusia e pós-graduação, caso o prof. Minoru não tivesse sido eleito. Rancor, recalque completos. Compreensível não reconhecer.
Em todas estas situações, em busca de se viabilizarem dentro da Adufac [na qual pago todo os valores correspondenes a minha filiação naquele sindicato, mensalmente], atuam contra a administração superior, argumentando, de modo leviano, que a não há nenhuma preocupação com a pós-graduação e com a pesquisa (que era o mantra de uma das chapas em 2012). Nesse sentido, usam o argumento de que foi destinado apenas R$ 300.000,00 para pesquisa. 
Jamais o grupo será capaz de reconhecer os investimentos que já foram realizados e as ações que estão programadas, o que já ultrapassa um valor de mais de R$ 5.000.000,00, até o momento. Os laboratórios do Campus da Floresta foram todos recuperados. Aqui no Campus de Rio Branco, durante todo o ano de 2014 está previsto o atendimento de todas as demandas urgentes nesta área, que forem encaminhadas.
Nestes primeiros 18 meses de administração, já foram realizadas (ou em andamento) mais de 230 atividades, incluindo a adoção do café da manhã, construção da residência estudantil, contratação de interpretes e de músicos (orquestra), organização da Reunição da SBPC, etc. Mas, sabe-se de antemão, que jamais este grupo terá a honestidade de reconhecer quaisquer uma destas ações.
Temos divulgado amplamente nos ambientes das sociedades cientificas nacionais e nas organizações e instituições da área de ciência, tecnologia, inovação e educação, o que este grupo pretende fazer durante a Reunião da SBPC. São os mais diversos comentários que recebemos. A maioria deles se enquadra em duas direções. Na primeira, ficam completamente resignados, por saberem como agem certos grupos dentro das universidades, principalmente com efeitos maiores nas médias e pequenas universidades. Na segunda, quando se certificam que o grupo busca administrar uma Instituição de Ensino Superior, ficam pasmam como podem planejar atos dessa natureza, contra o maior evento científico nacional. Também fico pasmo.
Para IMPEDIR as obras dentro da Ufac, estão escrevendo, talvez, um expediente para os MPF e TCU, com a seguinte lógica:
Ao TCU e MPF,
1) o nosso sindicato nacional, ANDES, depois do governo FHC, passou a ser dirigido pelo PSTU e PSol;
2) nesse sentido, estamos lutando para derrubar a administração do prof. Minoru, pois essa gestão deste Reitor entende que os órgãos de controle precisam realizar seu papel de fiscalização em todos os órgãos da Administração Pública, seguindo os princípios que a orientam (legalidade, moralidade, impessoalidade, publicidade e eficiência). Isso é inadmissível;
3) esqueçam o que se dizia aqui dentro da Adufac, em 2012, por nosso grupo, na época das eleições para a reitoria, quando se diziam expressões deste tipo: “Eu não vou me submeter a este TCUzionho”. E outras afirmações desrespeitosas direcionadas a todos os órgãos de controle. Esqueçam, agora precisamos de vocês;
4) esqueçam isso, pois agora, por conveniência, estamos precisando dos serviços dos órgãos de controle (TCU, MPF);
5) estamo.... COMPLETO, AQUI

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 23h16
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Domingo , 12 de Janeiro de 2014


A VIDA EM 2014, APÓS 2013

O aprendizado de um ano é sempre importante. 2013 foi, naturalmente, de muita prática, experiência e aprendizagem. Quando se trata desta questão, já é bastante sabido e reconhecido a importância do “aprender fazendo”, “aprender aprendendo”, “aprender usando”, “aprender interagindo” – os famosos “learnings” –, os quais são partes intrínsecas do dia a dia dos grupos sociais e/ou da vida de cada indivíduo. Assim, pode-se afirmar, de forma livre, que é vivendo que se aprende e se aprende vivendo, dado o caráter social desta dinâmica.

Em 2013 vivi algumas experiências deslocadas (próprias da vida), as quais não temos como evitá-las. Não posso, por impulso ocasional, apagá-las em sua totalidade.

Não foi um ano leve, fácil de transportar e lidar, como em outros, pretéritos. Mas, já estamos em 2014, no qual eu já consegui ler um livro. Ler é uma atividade ordinária, convencional no meu dia a dia, que se torna ainda mais obrigatória e necessária em função de minha vinculação funcional.

No ano passado, infelizmente, não fui tão ágil nas leituras. Minha resposta para a pergunta “quantos livros você leu em 2013” não me deixaria plenamente satisfeito, mesmo que às vezes o interesse não esteja focado na quantidade, além dos que eu li eram de qualidades excelentes. No entanto, este ano, as perspectivas são muito melhores; tudo indica.

Desse ritual, estamos excluindo, evidentemente, aquelas leituras que estão diretamente relacionadas com a preparação das aulas das disciplinas que ministramos todos os anos. Estes aão textos e livros que, dependendo da disciplina, renovam-se muito lentamente (muitos livros e textos se repetem por muitas jornadas).

Estou me referindo as leituras de livros e de textos que têm apenas uma relação indireta e menos imediata com as nossas atividades de ensino e pesquisa. Aqueles livros que descobrimos nas livrarias, ocasionalmente, ou aqueles que são indicados por colegas, ou que descobrimos por outros meios e/ou aqueles que já estavam previamente na lista de leituras. Os textos de revistas acadêmicas, mais especializados, ou mesmo algumas matérias importantes da mídia tradicional, também se enquadram nesta lista.

O livro que li, “A civilização capitalista”, de Fábio Konder Comparato, está nesta condição. Possivelmente, não irei usá-lo em nenhuma das disciplinas que trabalho. Mas, sua leitura foi algo espetacular.

O autor, professor emérito da Faculdade de Direito da USP, adotou um estilo de escrita muito simples, o que torna a leitura descomplicada. A simplicidade da escrita não significa que o trabalho é desprovido de rigor acadêmico. As principais teorias foram visitadas, expostas e apreciadas, dando uma noção extraordinária do que é o capitalismo propriamente dito.

Uma das linhas basilares explicativas da mentalidade (civilização) capitalista é a de que o sistema deixa o bem comum e os preceitos éticos em segundo plano. Ou seja, a busca do interesse material é a finalidade última. Comparato, de forma correta, explica que a justificativa teórica desta dimensão da mentalidade capitalista foi construída no século XVIII, por Bernard Mandeville, com sua fábula das abelhas, e por Adam Smith, com metáfora da mão invisível.

Em o capitalismo deixando em segundo plano o bem comum e os preceitos éticos, expresso na busca incessante do interesse material como finalidade última e convicção de que o acúmulo pessoal de bens é um poderoso instrumento de poder na sociedade, passou a ter como regra de sobrevivência a imperiosa pratica de se mercantilizar todas as dimensões da vida social. Esta regra pode ser captada tanto na afirmação de Hobbes, “o valor de um homem é seu preço”, quanto na inversão total do princípio ético kantiano: “as pessoas passam a ter um preço e perdem, por conseguinte, sua dignidade intrínseca” (p. 56).

Outra dimensão explicativa central da mentalidade capitalista, seguida por Fábio Konder Comparato, que é a proposição real de que a esfera pública é, logicamente, submetida à esfera privada. É maravilhosa a simplicidade que ele usa para explicar esta dimensão. Passa, entre outros, por Hobbes e Smith, chegando até as explicações da vertente neoliberal, do final do século XX: “...o corpo de agentes políticos e funcionários estatais deve, logicamente, ser reduzido ao mínimo indispensável” (p. 61).

Estas duas proposições explicativas da mentalidade capitalista (busca incessante dos bens materiais e submissão da esfera pública à esfera privada) são complementadas pelo entendimento do que significa dentro desse sistema as noções da predominância do individualismo sobre os grupos sociais, da concorrência sobre a cooperação, etc.

Enfim, ao longo de todo o livro, com o uso de uma grande variedade de vertentes teóricas, exemplos e confrontos reais, o autor busca discutir e explicar como o poderio econômico capitalista sempre se exerce de forma oculta ou disfarçada em todas as dimensões da espera da política: “...sob o regime capitalista, há sempre dois ordenamentos jurídicos nacionais: um oficial, que consagra todas as conquistas políticas do mundo contemporâneo, notadamente em matéria de direito...; outra não oficial, que efetiva a realidade do poder capitalista, não revelada publicamente” (p. 126).

Não sei se no final do ano ficarei satisfeito com resposta da quantidade de livros lidos em 2014. Tenho quase certeza que será uma quantidade maior do que a de 2013, com um controle mais organizado de qualidade. Óbvio, que nem sempre escolhemos aquilo que vamos ler, em decorrência de algumas obrigações e encargos profissionais. Mas, espero que seja diferente, tando neste aspecto quanto em outros aspectos.

“Aprender fazendo”, “aprender aprendendo”, “aprender usando”, “aprender interagindo”. Go on.

 

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O Tempo da Grande Transformação e da Corrupção Geral

por Leonardo Boff, 18-01-2014

 

Normalmente as sociedade se assentam sobre o seguinte tripé: na economia que garante a base material da vida  humana para que seja boa e decente; na política pela qual se distribui o poder e se montam as instituições que fazem funcionar a convivência social; a ética que estabelece os valores e normas que regem os comportamentos humanos para que haja justiça e paz e que se resolvam os conflitos sem recurso à violência. Geralmente a ética vem acompanhada por uma aura espiritual que responde pelo sentido último da vida e do universo, exigências sempre presentes na agenda humana. [...]

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Resenha do livro “Capitalismo verde e transgressões: Amazônia no espelho de Caliban”, editado pela Editora da UFGD (139 págs.), do prof. Elder Andrade de Paula - maio de 2014

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 07h29
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Domingo , 17 de Novembro de 2013


BLOG, FACEBOOK E TWITTER - COMO USAR

Sintetizando dez ensinamentos da sensacional oficina de Javier Toret Medina ontem, na Glória:

1) É preciso usar o Facebook pra irradiar o fluxo de atenção a nossos blogues e sites, e não o inverso. 

2) Quando escrevemos diretamente no Facebook, o conteúdo fica preso num espaço fechado e proprietário da internet, não guardamos memória, e tampouco permitimos o enredamento desse conteúdo com o que está fora, reforçando a 'enclosure'.

3) O Facebook pode ter um uso tático desde que não o transformemos no eixo de nossa organização de tempo e atenção na internet, sempre pensado como nó intermediário e "porta de saída", jamais como destinação final. 

4) O uso tático consiste, majoritariamente, na dimensão visual das postagens, além da possibilidade de convocar e organizar eventos. Um uso mais comedido e não "all-over". Em suma, domine o Facebook sem que ele o domine.

5) A interação via Facebook se limita a comentar, curtir & compartilhar, o que é muita redução de possibilidades, atrofiando nosso senso cognitivo de estabelecer e promover relações.

6) O Facebook favorece a formação de grupos de afinidade bem fechados, dificultando o papel de 'hubs', pessoas que transitam e possam perfurar as várias camadas de discurso.

7) O Facebook é facilmente espionável e patrulhável, e já se tornou o foco da atenção das agências governamentais para criminalizar movimentos e ativistas. Boa parte da facilidade de criminalização decorre do caráter identitário/individual dos perfis.

 Um caminho é insistir na memória e conteúdo dos sites e blogues, bem como de outras redes sociais menos exclusivistas, fechadas e mutiladas.

9) O Tuíter é uma opção insubstituível, com maior potencial de interação, difusão, contágio e fazer-multidão, e também com maior abertura e capacidade de enredamento com o resto da internet.

10) Na conjuntura, precisamos retomar o Tuíter em massa, para organizar campanhas e disseminar conteúdos em tempo real (streamings), usando taticamente as hashtags, o retuíte e os 'trending topics'.
Unlike ·  ·  · 3 hours ago near Rio de Janeiro · 

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 16h52
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Quinta-feira , 10 de Janeiro de 2013


O DESAFIO MERCANTILISTA ATUAL

por Dani Rodrik

O novo ambiente econômico produzirá mais tensão do que acomodação. Isso poderá renovar os dormentes debates sobre o tipo de capitalismo que produz maior prosperidade

VALOR ECONÔMICO, Opinião, 10-01-2013

A história da economia é, em larga medida, uma briga entre duas escolas opostas de pensamento, o "liberalismo" e o "mercantilismo". O liberalismo econômico, com sua ênfase na iniciativa privada e no livre mercado, é hoje a doutrina dominante. Mas a sua vitória intelectual nos cegou para o grande apelo - e frequente sucesso - de práticas mercantilistas. Na verdade, o mercantilismo continua vivo e bem, e seu contínuo conflito com o liberalismo provavelmente será a força que influenciará o futuro da economia mundial.

Atualmente, o mercantilismo é normalmente desconsiderado, taxado de conjunto arcaico e errôneo de ideias sobre política econômica. Em seu auge, os mercantilistas defendiam algumas noções muito estranhas - a principal delas: a visão segundo a qual a política nacional deveria ser norteada pelo acúmulo de metais preciosos - ouro e prata.

"A Riqueza das Nações", o tratado de Adam Smith de 1776, demoliu magistralmente muitas dessas ideias. Em especial, Smith mostrou que dinheiro não deve ser confundido com riqueza. Em suas palavras, "a riqueza de um país consiste não apenas em seu ouro e sua prata, mas em suas terras, casas e bens de consumo de todo tipo".

O novo ambiente econômico produzirá mais tensão do que acomodação entre países que trilham os caminhos liberal e mercantilista. Isso também poderá renovar os dormentes debates sobre o tipo de capitalismo que produz maior prosperidade

Mas é mais preciso pensar o mercantilismo como uma forma diferente de organizar a relação entre o Estado e a economia - uma visão não menos importante hoje do que no século XVIII. Teóricos mercantilistas como Thomas Mun eram, na realidade, grandes defensores do capitalismo, apenas propunham um modelo diferente do liberalismo.

O modelo liberal vê o Estado como necessariamente predatório e o setor privado como focado apenas em maximização de lucros, sem quaisquer preocupações de caráter social. Por isso, o modelo liberal defende uma separação rigorosa entre o Estado e o setor privado. O mercantilismo, por outro lado, oferece uma visão corporativista segundo a qual o Estado e as empresas privadas são aliadas e cooperam na busca de objetivos comuns, como o crescimento econômico doméstico ou o poder nacional.

O modelo mercantilista pode ser criticado como sendo capitalismo de Estado ou de compadrio. Mas quando funciona, como tão frequentemente na Ásia, o modelo de "colaboração governo-empresa" ou "Estado incentivador do setor privado" rapidamente acumula elogios entusiásticos. Economias menos desenvolvidas não deixaram de notar que o mercantilismo pode ser seu amigo. Mesmo no Reino Unido, o liberalismo clássico chegou apenas em meados do século XIX - ou seja, depois que o país já havia se tornado a potência industrial dominante do mundo.

Uma segunda diferença entre os dois modelos reside em quais interesses são privilegiados: os do consumidor ou os do produtor? Para os liberais, os consumidores devem reinar. O objetivo último da política econômica é aumentar o potencial de consumo das famílias, o que exige dar a elas livre acesso a bens e serviços os mais baratos possíveis.

Os mercantilistas, em contraste, enfatizam o lado produtivo da economia. Para eles, uma economia sólida requer sólida estrutura de produção. E o consumo precisa se basear em elevados níveis de emprego e salários adequados.

Esses modelos distintos têm implicações previsíveis para as políticas econômicas internacionais. A lógica da abordagem liberal é que os benefícios econômicos do comércio surgem das importações: quanto mais baratas as importações, melhor, mesmo que o resultado seja um déficit comercial. Para os mercantilistas, porém, o comércio é um meio de apoiar a produção nacional e o emprego, e preferem estimular as exportações, e não as importações.

A China é hoje o principal porta-bandeira do mercantilismo, embora os líderes chineses nunca o admitam - o termo ainda é muito estigmatizado. Grande parte do milagre econômico chinês é produto de um governo ativista que tem apoiado, estimulado e subsidiado abertamente produtores industriais - tanto nacionais como estrangeiros.

Embora a China tenha eliminado gradualmente muitos de seus subsídios explícitos à exportação, como condição de aderir à Organização Mundial do Comércio (OMC), o sistema de apoio ao mercantilismo persiste. Em especial, o governo administrou a taxa de câmbio para manter a lucratividade dos fabricantes, o que produziu um superávit comercial de considerável dimensão (que, recentemente, encolheu, mas em grande parte como resultado de uma desaceleração econômica). Além disso, as empresas focadas em exportações continuam a beneficiar-se de uma série de incentivos fiscais.

Da perspectiva liberal, esses subsídios à exportação empobrecem os consumidores chineses, beneficiando os consumidores no resto do mundo. Um recente estudo dos economistas Fabrice DeFever e Alejandro Riaño 1 , da Universidade de Nottingham, estima as "perdas", para a China, em cerca de 3% da renda chinesa, e os ganhos, para o resto do mundo, em torno de 1% da renda mundial. Da perspectiva mercantilista, porém, esses são simplesmente os custos de construção de uma economia moderna e da preparação do palco para prosperidade no longo prazo.

Como mostra o exemplo dos subsídios à exportação, os dois modelos podem coexistir harmoniosamente na economia mundial. Os liberais deveriam ficar felizes por terem seu consumo subsidiado pelo mercantilistas.

Com efeito, essa, em resumo, é a história das últimas seis décadas: uma sucessão de países asiáticos conseguiram crescer a passos largos mediante a aplicação de diferentes variantes de mercantilismo. Os governos dos países ricos, em larga medida, mantiveram uma atitude indiferente, enquanto o Japão, a Coreia do Sul, Taiwan e a China protegeram seus mercados domésticos, apropriaram-se de "propriedade intelectual", subsidiaram seus produtores e administraram seus câmbios.

Chegamos agora ao fim dessa feliz coexistência. O modelo liberal é hoje duramente questionado devido ao crescimento da desigualdade e à situação da classe média no Ocidente, juntamente com a crise financeira produzida pela desregulamentação. As perspectivas de crescimento das economias americana e europeia no médio prazo vão de moderadas a sombrias. O desemprego continuará a ser uma grande dor de cabeça e motivo de preocupação para as autoridades econômicas. Assim, as pressões mercantilistas provavelmente se intensificarão nos países avançados.

Em consequência, o novo ambiente econômico produzirá mais tensão do que acomodação entre países que trilham os caminhos liberal e mercantilista. Isso também poderá renovar os dormentes debates sobre o tipo de capitalismo que produz maior prosperidade. (Tradução de Sergio Blum)

1 www.bit.ly/ZsnQRU

Dani Rodrik professor de Economia Política Internacional na Universidade de Harvard, é autor de "The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy (O paradoxo da globalização: a democracia e o futuro da economia mundial).. Copyright: Project Syndicate, 2012. www.project-syndicate.org

 

A tirania da economia política

 

por Dani Rodrik - Feb. 8, 2013

por Dani Rodrik
Quanto mais alegávamos estar explicando, menos espaço foi deixado para melhorar as coisas. Quanto mais completa nossa ciência social, mais irrelevante nossa análise política
VALOR ECONÔMICO, 18-02-2013


 

POLÍTICA DE TERCEIRO MUNDO DOS EUA

por Dani Rodrik

As concessões a grupos extremistas, a rejeição à ciência e a tática de evitar os verdadeiros problemas que caracterizaram este ciclo eleitoral representaram um novo patamar de baixarias para a política democrática.

Valor Econômico - 12/11/2012

 

DESINDUSTRIALIZAÇÃO II

 

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 00h34
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Sexta-feira , 21 de Dezembro de 2012


ALÉM DA CONJUNTURA - I

Por André Lara Resende | Para o Valor, de São Paulo

Obsessão com o curto prazo ignora que uma era tecnológica pode ter chegado ao fim

VALOR ECONÔMICO, 21-12-2012

"O amor ao dinheiro, além de meio para aproveitar a vida, é uma dessas propensões semicriminosas, semipatológicas, que deveriam ser displicentemente relegadas aos especialistas em doenças mentais." John M. Keynes

O crescimento econômico superou as fronteiras da economia, invadiu a política e permeia todas as dimensões do debate público. Define o bom e o mau governo, quem ganha ou perde eleições, tornou-se a força motora da sociedade. Por que e para que crescer são perguntas que deixaram de ser feitas. Não costumamos nos questionar sobre o óbvio. Num estudo recente, "Is U.S. Growth Over? Faltering Innovation Confronts the Six Headwinds", o economista americano Robert J. Gordon, professor da Universidade de Northwestern, procura responder a uma pergunta mais simples: o rápido crescimento a que nos acostumamos pode ser indefinidamente mantido? Sua conclusão é que não. Ao contrário do que se assume, não há garantia de que o crescimento seja um processo contínuo e permanente.

A teoria do crescimento econômico, desde que Robert Solow e Trevor Swan, de forma independente, no final da década de 50, expandiram o modelo pioneiro de Roy Harrod e Evsey Domar, nunca questionou a hipótese de que fosse possível crescer indefinidamente. O modelo Solow-Swan tornou-se a referência da teoria neoclássica do crescimento, segundo a qual o crescimento de longo prazo é função da acumulação dos fatores capital e trabalho e do progresso tecnológico. Foi inicialmente usado para demonstrar que, no curto prazo, o crescimento dependia da taxa de poupança, mas, no longo prazo, não. Dado o crescimento da força de trabalho e o ritmo do progresso tecnológico, consideradas duas variáveis exógenas, fora do controle da política econômica tradicional, a taxa de poupança e investimento determina o crescimento de curto prazo. Dado que o retorno do capital é decrescente, a taxa de crescimento sustentável a longo prazo, chamada de taxa de "steady state", independe da taxa de poupança. Como indica o nome, a taxa de steady state é uma taxa de crescimento da renda per capita indefinidamente sustentável. A taxa de poupança determina a velocidade de convergência para a taxa de "steady state", mas essa taxa sustentável de longo prazo depende exclusivamente do progresso tecnológico.

O crescimento ao qual nos acostumamos, que passamos a considerar um imperativo, pode não ser mais possível

O modelo de Solow-Swan tem algumas implicações importantes. A primeira é que o crescimento das economias mais atrasadas deveria convergir para o das economias avançadas. Apenas a velocidade dessa convergência dependeria da taxa de poupança. Aquelas que conseguissem poupar e investir mais convergiriam mais rapidamente para a fronteira das economias avançada. A segunda é que o progresso tecnológico é o principal determinante da taxa de crescimento de longo prazo das economias avançadas. Estudos empíricos posteriores, do próprio Solow e de seus seguidores, concluíram que o progresso tecnológico é responsável por dois terços do crescimento de longo prazo. O terço restante está associado ao aumento da produtividade do trabalho, através da educação. A hipótese de que exista um crescimento indefinidamente sustentável - um crescimento de "steady state" - está, portanto, baseada numa hipótese anterior, inquestionada, de que o ritmo do progresso tecnológico dos últimos três séculos deverá continuar indefinidamente. Esta é justamente a hipótese examinada por Gordon.

Até meados do século XVIII, praticamente não houve crescimento do produto per capita. Todo crescimento advinha do crescimento da população. O crescimento é uma relativa novidade. A revolução intelectual do Iluminismo, iniciada na segunda metade do século XVII, levou a tais avanços tecnológicos, a partir de meados do século XVIII, que transformou toda a economia e a sociedade e levou à Revolução Industrial do século XIX. O rápido crescimento das economias avançadas, na fronteira tecnológica, passou a pautar o imperativo do desenvolvimento econômico durante todo o século XX. Criou-se a noção de atraso - ou de subdesenvolvimento - para as economias em que o crescimento era inexistente ou limitado, a reboque do comércio com as economias centrais e dependentes do dinamismo das sociedades avançadas. Todo um campo de estudos, a teoria do desenvolvimento e do subdesenvolvimento, foi criado a partir de meados do século passado. O modelo de Solow-Swan continuou como referência, tanto para o estudo do crescimento das economias avançadas como para as economias em desenvolvimento.

Para a teoria do subdesenvolvimento, na qual o debate ideológico foi mais polarizado, o modelo neoclássico de crescimento, ainda como referência, foi mais utilizado para ressaltar suas deficiências. O principal alvo das críticas foi a conclusão simplista de que a superação do subdesenvolvimento dependeria exclusivamente da capacidade de aumentar a taxa de poupança - que no modelo neoclássico é sempre igual à taxa de investimento. Muitas outras restrições, além da insuficiência de poupança, se interpunham entre as economias subdesenvolvidas e as economias avançadas. A tese - que inflamou corações e mentes - de que desenvolvimento e subdesenvolvimento seriam duas faces de uma mesma moeda questionava a própria ideia de que poderia haver convergência para a taxa sustentável de longo prazo da fronteira tecnológica. Não poderia haver economias desenvolvidas sem economias subdesenvolvidas, pois estavam numa simbiose funcional. A conclusão neoclássica, tomada ao pé da letra, é realmente simplista. Todo modelo é uma aproximação estilizada, cujo propósito é realçar aspectos de uma realidade complexa. Embora os críticos do modelo neoclássico tivessem razão, o aumento da poupança não é condição suficiente para garantir o desenvolvimento, jogaram fora o bebê com a água do banho, esqueceram-se de que aumentar a poupança, pública e privada, sempre foi condição necessária para o crescimento.

A possibilidade de que o crescimento das economias avançadas, ainda que sujeito a crise recorrentes, não pudesse ser sustentável a longo prazo nunca foi questionada fora da tradição marxista. O próprio Marx, que duvidava do crescimento capitalista a longo prazo, sustentava que, uma vez passada a crise definitiva e inevitável do capitalismo, a economia socializada retomaria indefinidamente sua trajetória de crescimento. É justamente a hipótese do crescimento sustentável a perder de vista das economias avançadas que Gordon não considera plausível. Seu trabalho sugere que o crescimento acelerado dos últimos três séculos tenha sido atípico, um episódio singular na história da humanidade. Para sustentar sua tese, Gordon analisa as economias que estavam na fronteira tecnológica nestes últimos séculos: a inglesa, do século XIV até o início do século XX, e a americana, daí até hoje. Reza o modelo neoclássico que o crescimento das economias da fronteira tecnológica estabelece o ritmo de crescimento possível de longo prazo, para o qual, depois de um período de crescimento acelerado, devem convergir as demais. Na tradição de Solow-Swan, Gordon não se preocupa com as flutuações macroeconômicas de curto prazo. Desconsidera até mesmo a crise financeira de 2008, ao examinar se o crescimento econômico da economia americana - ainda hoje na fronteira tecnológica - poderá manter as taxas observadas nos últimos 250 anos.

Gordon subdivide o período de rápido crescimento dos últimos séculos em três revoluções tecnológicas. A primeira, de 1750 a 1830, liderada pela introdução do motor a vapor e das estradas de ferro. A segunda, de 1870 a 1900, com a introdução da eletricidade, da água encanada e do motor a combustão interna. Finalmente, a terceira revolução, de 1960 até hoje, baseada na informática, na introdução dos computadores, dos telefones móveis e da internet. A segunda, que com suas invenções transformadoras, concentradas nas três últimas décadas do século XIX, levou à Revolução Industrial, foi sem dúvida a mais importante. A propagação integral dos efeitos das primeiras revoluções tecnológicas levou aproximadamente 100 anos. Até a década de 70 do século passado, a economia ainda estava sendo transformada pelos impactos derivados da segunda revolução tecnológica.

O ponto central do argumento de Gordon é que, a partir dos anos 70, quando os efeitos transformadores das duas primeiras revoluções tecnológicas finalmente se esgotaram, houve uma significativa redução do ritmo de crescimento da produtividade. A terceira revolução, a da informática e da internet, que tem início nos anos 60 e atinge o seu auge na última década do século passado, não teve o mesmo impacto sobre a produtividade. Grande parte de seus benefícios, a substituição do trabalho burocrático rotineiro pelo computador, esteve concentrada nas décadas de 70 e 80. Desde então, deixaram de ter efeito transformador sobre a economia. As invenções posteriores, especialmente as que foram desenvolvidas desde o início do século XXI, estão centradas nas comunicações e no entretenimento. Aparelhos menores, mais charmosos, poderosos e eficientes foram criados, mas sem a mesma capacidade de aumentar a produtividade e transformar a qualidade de vida que tiveram as inovações dos séculos anteriores.

A dificuldade de crescer das economias centrais não é circunstancial, mas resulta de uma desaceleração tecnológica estrutural

Os grandes ganhos das primeiras revoluções tecnológicas foram excepcionais, tiveram importantes impactos secundários que levaram décadas para serem integralmente incorporados, mas não deverão se repetir. A revolução da informática teve muito menos impacto sobre a qualidade de vida, seus efeitos secundários foram restritos e mais rapidamente incorporados. Por mais impressionantes que as inovações da era da informática possam parecer, nada as compara ao efeito transformador sobre a vida que tiveram, por exemplo, a luz elétrica e a água encanada. Quem, obrigado a escolher entre seu telefone portátil de última geração e a água encanada, optaria pela maravilha da informática? Quem estaria disposto a abdicar da luz elétrica, sem a qual a quase totalidade das invenções do século passado não teria sido possível? Para ilustrar a importância relativa das primeiras revoluções tecnológicas, Gordon lembra que a taxa anual de aumento da expectativa de vida na primeira metade do século XX foi três vezes superior à da segunda metade do século. O processo de inovação tecnológica deverá prosseguir, mas o grande salto das invenções dos séculos XVIII e XIX foi verdadeiramente extraordinário. Não deverá se repetir. Os benefícios da revolução da informática têm alcance mais limitado. Como disse o próprio: "Pode-se perceber a era dos computadores em toda parte, menos nas estatísticas de produtividade".

Retomemos o argumento. O crescimento sustentável de longo prazo é dado pelo impacto do progresso tecnológico na produtividade. A economia americana é, ainda hoje, a economia da fronteira tecnológica. Seu crescimento desacelerou nas últimas décadas e, a crer nas evidências de Gordon, essa desaceleração não reflete fatores conjunturais cíclicos. Não pode ser creditada exclusivamente à crise financeira de 2008, como assume a grande maioria das análises, mas está associada ao esgotamento da onda transformadora da Revolução Industrial. O progresso tecnológico da revolução da informática não tem o mesmo poder transformador, não se vê refletido na produtividade. A desaceleração da economia americana veio para ficar. As economias avançadas vão crescer muito menos daqui para a frente.

A boa notícia é que, com a desaceleração das economias centrais, o processo de convergência das demais será mais rápido. As economias em desenvolvimento, que forem capazes de manter altas taxas de poupança e investimento, deverão alcançar em breve as economias avançadas. A má notícia é que, uma vez alcançada a fronteira tecnológica das economias avançadas, o crescimento vai desacelerar significativamente. Deverá convergir para a relativa estagnação das economias centrais. A dificuldade de crescer, que hoje aflige todas as economias centrais, não é uma dificuldade circunstancial, decorrência de um acidente de percurso como a crise financeira de 2008, mas sim o resultado de uma desaceleração estrutural no ritmo do progresso tecnológico. O crescimento ao qual nos acostumamos, que passamos a considerar um imperativo, pode não ser mais possível.

Toda previsão, especialmente as de longo prazo, devem ser tomadas com cautela. É parte do nosso esforço de organizar, tentar extrair sentido do futuro que nos é essencialmente desconhecido. A noção de que o crescimento dos últimos séculos poderia ser extrapolado a perder de vista é um exercício de futurologia tosca que foi incorporado ao nosso imaginário. Transformou-se numa das premissas da modernidade. Também a inferência, a partir da evidência de que o progresso tecnológico mais recente não tem o mesmo poder transformador, de que não vamos mais crescer é apenas mais uma previsão. Por mais embasada que esteja nas evidências disponíveis, sofre das mesmas limitações de toda tentativa de antecipar o futuro. Não parece haver sinais de que uma nova onda de invenções venha mais uma vez revolucionar a vida, como a que levou à Revolução Industrial do século XIX, mas isso não dá certeza de que algo semelhante não venha a ocorrer. O bom senso sugere apenas que não devemos contar com isso.

O esgotamento do crescimento nas economias da fronteira tecnológica ainda deixa espaço para o crescimento das economias periféricas, que não alcançaram a produtividade das economias avançadas. Até lá, é possível crescer acima da taxa sustentável de longo prazo. Para isso, a teoria ensina que é preciso ter alta taxa de poupança e investimento e aprimorar a educação. No Brasil, a taxa de poupança privada, dado o nível de renda próximo do de subsistência, foi sempre muito baixa. Desde a segunda metade do século passado, todos os períodos de rápido crescimento foram fruto do aumento do investimento público. Como a estrutura fiscal era precária, o investimento público foi financiado pela poupança forçada - extraída através da inflação crônica - ou pela poupança externa, associada aos déficits em conta corrente financiados pelo endividamento externo. Desde a estabilização da inflação crônica, na última década do século passado, a carga tributária progrediu sistematicamente e atingiu níveis comparáveis aos das economias avançadas. O setor público poderia ter passado a contribuir, então, para o aumento da poupança doméstica. Infelizmente, numa atitude míope, em vez de aumentar a taxa de poupança e de investimentos públicos, optou-se por aumentar os gastos correntes do governo, por dar estímulos ao consumo privado, toda vez que o crescimento de curto prazo dava sinais de perder o fôlego.

O leitor terá notado que o uso do termo crescimento sustentado de longo prazo foi até aqui utilizado sem a conotação que tomou...

ndré Lara Resende é economista

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 10h52
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ALÉM DA CONJUNTURA - II

Por André Lara Resende | Para o Valor, de São Paulo

Obsessão com o curto prazo ignora que uma era tecnológica pode ter chegado ao fim

VALOR ECONÔMICO, 21-12-2012

O leitor terá notado que o uso do termo crescimento sustentado de longo prazo foi até aqui utilizado sem a conotação que tomou nos últimos tempos: a do crescimento que não ameaça causar danos irreparáveis à ecologia. No início dos anos 50 do século XX, quando a teoria do crescimento neoclássica estava sendo formulada, os limites físicos do planeta pareciam suficientemente distantes para que fossem ignorados. O crescimento sustentável de longo prazo era apenas o passível de ser mantido pelo aumento da produtividade, o crescimento per capita, acima do crescimento da força de trabalho, uma vez atingida a relação capital-trabalho ideal para o estado das artes, ou seja, o crescimento de "steady state", que depende do progresso tecnológico.

Os limites físicos do planeta poderão restringir o crescimento, mesmo se mantido o ritmo de aumento da produtividade

A questão ecológica introduz uma restrição adicional ao modelo neoclássico. Os limites físicos do planeta poderão vir a restringir o crescimento, ainda que o progresso tecnológico fosse capaz de sustentar o ritmo do aumento da produtividade. Como atesta a dificuldade de se chegar a um acordo multilateral mínimo sobre o tema, não se trata de uma restrição facilmente incorporável à política contemporânea. Trata-se de uma restrição de difícil digestão para os países avançados, viciados no crescimento, mas praticamente impossível de ser aceita pelos países que ainda estão longe de atingir os níveis de consumo e de produtividade da fronteira tecnológica. Racionar o crescimento, antes da convergência de todos, significaria congelar as profundas diferenças de padrão de vida no mundo de hoje. Até mesmo a esperança de que venham a ser eliminadas despareceria. Não é preciso muita reflexão para compreender o potencial de conflito da tentativa de congelar o status quo em nome da ecologia.
É sempre possível questionar as evidências do aquecimento global, como é possível fechar os olhos para os estragos que a modernidade impõe à biosfera, mas basta a lógica para concluir que o crescimento material eterno é uma impossibilidade física. O crescimento dos últimos séculos pode ter sido uma exceção, mas passamos a considera-lo mais do que um direito, um imperativo. Não nos perguntamos mais por que e para que crescer. Associamos a interrupção do crescimento a uma flutuação cíclica decorrente da instabilidade da economia capitalista. Desde a grande síntese keynesiana, toda e qualquer interrupção do ritmo do crescimento é vista como evidência de incompetência da gestão macroeconômica.
Como a interrupção cíclica do crescimento, até mesmo a mudança do ritmo de crescimento, provoca flutuações no nível do emprego, há uma compreensível tentação de associar o crescimento de longo prazo ao nível de desemprego. Seria necessário crescer sempre, para criar empregos e evitar o desemprego. Por isso, a resposta mais óbvia, repetida ad nauseum, à pergunta de para que crescer, é de que é preciso crescer para criar empregos. O crescimento necessário para manter a força de trabalho empregada - quando não ocorrem mudanças estruturais, como a incorporação das mulheres à força de trabalho - é igual à taxa de crescimento demográfico. O crescimento a que se refere a teoria do crescimento é o da renda per capita. Portanto, crescimento acima do demográfico, acima do requerido para manter o emprego. Emprego e desemprego são questões associadas a reorganizações setoriais e a flutuações macroeconômicas de curto prazo, praticamente independentes da taxa de crescimento de longo prazo. A única resposta possível à pergunta de para que crescer além do crescimento demográfico é: para aumentar a renda per capita, ou seja, para enriquecer. O que nos leva à pergunta seguinte: para que serve a riqueza?
Essa é a pergunta à qual John Maynard Keynes dedicou um pequeno ensaio publicado em 1930, em plena Grande Depressão, chamado "Economic Possibilities for our Grandchildren". A resposta de Keynes contradiz frontalmente o consenso contemporâneo: a riqueza serviria para reduzir as horas trabalhadas. À medida que o progresso tecnológico levasse ao aumento da produtividade, seria possível trabalhar cada vez menos para satisfazer nossas necessidades. Chegaríamos, finalmente, ao ponto em que seria quase desnecessário trabalhar. Segundo as estimativas de Keynes, isso deveria ocorrer num prazo de aproximadamente cem anos, ou seja, por volta de 2030. O número de horas trabalhadas nos países avançados efetivamente caiu, mas muito menos do que se previa. No mundo contemporâneo, independentemente do nível de renda e riqueza, nunca se considerou tão fundamental trabalhar, nunca se considerou tão humilhante a ideia de não trabalhar e nunca se considerou tão ameaçadora a ideia de que a economia possa não crescer.
O que aconteceu? Como é possível que um pensador brilhante, da estatura de Keynes, possa ter se equivocado de forma tão gritante? O próprio Keynes, no mesmo ensaio, parece-me ter tido a intuição do motivo de seu erro. Segundo ele, quando a sociedade tiver atingido um nível de riqueza capaz de satisfazer as necessidades fundamentais de todos, sem que seja preciso mais trabalhar a maior parte do tempo, "pela primeira vez desde sua criação, o homem se confrontará com o seu verdadeiro, seu eterno problema - o que fazer com a liberdade em relação às necessidades econômicas, como usar o tempo de lazer, que a ciência e o juro composto lhe terão garantido, para viver bem, de forma sensata e agradável".
Keynes passaria os anos seguintes preocupado com a Grande Depressão, dedicado essencialmente às questões macroeconômicas de curto-prazo, à instabilidade cíclica da renda e do emprego, contribuição que o elevou à condição do mais importante economista do século XX. Além do teórico brilhante, Keynes foi um homem público influente e um debatedor inspirado. Entre suas inúmeras tiradas espirituosas, a provavelmente mais citada é a de que "no longo prazo estaremos todos mortos".
O problema existencial do que fazer com o tempo livre não nos exime da necessidade de responder para que serve a riqueza além de nossas necessidades
O problema existencial do que fazer com o tempo livre não nos exime da necessidade de responder para que serve a riqueza além de nossas necessidades. É evidente que enriquecer não pode ser um objetivo em si mesmo. Esse é o tema do livro que Robert e Edward Skidelsky, "How Much is Enough: Money and the Good Life", acabam de publicar. Pai e filho, sendo que Robert é autor da mais importante biografia de Keynes, os autores procuram entender porque a moderna obsessão com o crescimento econômico. Curiosamente, não subscrevem as razões dos dois mais famosos movimentos que hoje se contrapõem ao imperativo do crescimento: o que propõe substituir o crescimento pelo conceito de felicidade e o da sustentabilidade ecológica. Os Skidelskys, apesar de simpatizarem com objetivos desses movimentos, sustentam que ambos se equivocam, pois procuram ancorar a crítica ao crescimento no utilitarismo, quando a verdadeira objeção deveria ser ética.
A felicidade não é nem mensurável, nem sempre desejável. Deve-se estar feliz quando e onde a felicidade é devida e infeliz quando as circunstâncias assim exigem. Fazer da felicidade um objetivo em si, especialmente um objetivo de governo, é a receita para a infantilização autoritária, memoravelmente descrita por Aldous Huxley em "O Admirável Mundo Novo", ou na versão futurista mais recente do filme "Matrix". Ou bem a felicidade é entendida no seu sentido pré-moderno, como uma condição existencial - e neste caso não é passível de ser medida por pesquisas - ou então é entendida no seu sentido moderno, de um estado de espírito circunstancial - e então não pode ser referência do desejável. Os Skidelskys sustentam que substituir a busca do crescimento pela busca da felicidade é passar de um falso ídolo a outro. Nosso objetivo, como pessoa e como cidadão, não é o de ser feliz, mas o de estar feliz quando há razão para estar feliz. E motivo para tristeza nunca há de faltar. É a arrogância do homem moderno que o faz crer que pode tudo controlar. Mais sábios, os clássicos subscreviam o ditado de Solon: "Ninguém pode ser considerado feliz até depois de sua morte".
Em relação ao movimento ecológico, os Skidelskys não são menos críticos. Sustentam que, embora se apresentem como defensores de uma resposta racional a fatos estabelecidos, a verdadeira inspiração dos ambientalistas é romântica. O discurso político contemporâneo exige que os argumentos, de lado a lado, sejam formulados como científicos, mas, com base apenas nos fatos, não há como julgar e decidir. Como proceder, qual o melhor curso de ação, para evitar danos definitivos à biosfera, não é, como se pretende, uma questão meramente objetiva. Trata-se de um embate entre duas visões de mundo: de um lado, o otimismo prometeico; de outro, uma atitude de reverência piedosa diante da natureza. É o cientificismo contemporâneo que exige que seja formulado em termos de partículas de carbono e graus de aquecimento global. Diante do bombardeio de evidências e contra evidências de lado a lado, a única atitude razoável para o não especialista é de aceitar a opinião dominante entre os especialistas: o aquecimento global é fruto da atividade dos homens e está se agravando. Ainda assim, não há como saber se é melhor continuar a crescer e enriquecer, acelerar o progresso tecnológico para expandir os limites do possível, ou desacelerar e procurar conviver com as restrições que o planeta nos impõe.
Os Skidelskys sustentam que o ambientalismo deu uma base aparentemente científica para a velha ideia mística de que na natureza há um equilíbrio que perturbamos por nossa conta e risco. Concordam que o crescimento não pode mais ser o objetivo da política econômica, mas não estão convencidos de que essa conclusão possa ser extraída do fato de que os limites físicos do planeta estão próximos, de que os danos à biosfera possam ser irreparáveis. Também não acreditam que exista uma medida alternativa de bem-estar, felicidade ou qualquer outra, que possa substituir o crescimento numa função utilidade social. É curioso que, assim como os críticos do progresso, também os críticos do ambientalismo acusem seus opositores de conotações místicas, de vestígios de religiosidade. Ao nos aventurarmos sobre o futuro, sobre o desconhecido, apesar de tentarmos desesperadamente revestir nossa argumentação de racionalidade científica, não temos como evitar a intuição, se não religiosa, ao menos poética. A razão é sistematizadora. Para ir além do conhecido e do que pode ser deduzido do conhecido, não há como prescindir da intuição poética. O título do livro contra os pesticidas de Rachel Carlson, de 1962, considerado o marco introdutório do ambientalismo, parece-me ilustrativo da força - pelo menos retórica - da poesia: "The Silent Spring".
Para os Skidelskys, o fim do crescimento como objetivo deve ser entendido como uma exigência ética, não como uma conclusão científica baseada num cálculo utilitarista. Para eles, o homem moderno perdeu a referência clássica do ideal de vida. Qual a vida a ser vivida, uma vez saciadas nossas necessidades fundamentais? Boa pergunta, de difícil resposta. Afirmar que a opção pelo fim do crescimento deve ser ética, não ajuda. Ao contrário, o mundo contemporâneo esfacelou a ética. A tese do filósofo escocês Alasdair McIntyre, em "After Virtue", é que temos hoje estilhaços de sistemas éticos, incapazes de formar um corpo coerente. A única forma de entender a afirmativa de que a opção pelo não crescimento deve ser ética é tomá-la no sentido de Ortega y Gasset, de que a ética é circunstancial, e as circunstâncias hoje exigem o fim do crescimento. Mas que circunstâncias são essas, se não os limites físicos do planeta, os estragos irreparáveis à biosfera, aos quais se referem os ambientalistas? É verdade que o homem moderno perdeu a referência do ideal de vida clássico. Nada mais distante do mundo clássico do que o mundo contemporâneo. Não faz sentido pretender que o homem moderno aspire ao ideal de vida do homem clássico. Nenhum ideal pode ser desvinculado da história e das circunstâncias.
Confirmada a tese de Robert J. Gordon, de que o período de rápido progresso tecnológico se esgotou, a questão deverá voltar a ser meramente filosófica. Sem crescimento das economias avançadas, na fronteira tecnológica, voltaremos a nos defrontar com a questão essencial da economia: a de como administrar a escassez. Como compatibilizar o crescimento das economias periféricas com a estagnação das economias centrais até a convergência de todos para uma economia sem crescimento? Teremos então que enfrentar outro problema, o criado pela desigualdade, ainda que depois de todos terem suas necessidades básicas atendidas. A resposta mais plausível à pergunta de porque se busca sempre mais riqueza, mesmo quando muito além do necessário para satisfazer os desejos mais estapafúrdios, é que não é a riqueza absoluta, mas a riqueza relativa que importa. Não nos basta ser apenas ricos, mas, sim, mais ricos do que nossos pares. A riqueza é apenas a exteriorização, o símbolo, de nossa pretensa superioridade. Por isso, a obsessão com o consumo conspícuo de Torsten Veblen, com os bens que sinalizam riqueza. Por isso, o fascínio pelo que parece exclusivo, com o que representa o privilégio. A competição pelo posicionamento hierárquico entre indivíduos pode ser transposta para estados e nações. Queremos crescer e enriquecer, não apenas para garantir um padrão de vida decente para nossos compatriotas, mas, sobretudo, para sermos mais ricos do que os países vizinhos, para reforçar o orgulho e a identidade nacional.
Quando, em 1928, numa palestra para os alunos de graduação da Universidade de Cambridge, Keynes formulou pela primeira vez o argumento, que viria a refinar no artigo de dois anos depois, sobre as possibilidades a longo-prazo da economia capitalista, ele tinha consciência de que era preciso estimular a imaginação dos jovens com uma utopia comparável à que, àquela altura, provocava entusiasmo: a do socialismo marxista soviético. Para fazer sua previsão de que, mantida a taxa de acumulação de capital e o ritmo do progresso tecnológico, "o padrão de vida nos países avançados, dentro de cem anos seria entre quatro e oito vezes o atual", Keynes utilizou o mesmo arcabouço conceitual do modelo neoclássico de crescimento formalizado por Solow e Swan 30 anos mais tarde. Pouco depois, veio a Grande Depressão. Keynes esqueceu-se das preocupações especulativas com o longo prazo - quando estaremos todos mortos - e dedicou-se com afinco a encontrar a solução para os problemas do curto prazo: a instabilidade macroeconômica e o desemprego.....

André Lara Resende é economista

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 10h47
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ALÉM DA CONJUNTURA - III

 

Por André Lara Resende | Para o Valor, de São Paulo

 

Obsessão com o curto prazo ignora que uma era tecnológica pode ter chegado ao fim

 

VALOR ECONÔMICO, 21-12-2012

Pois bem, tenho a impressão de que nos tornamos excessivamente keynesianos, no sentido que - apesar de profundamente injusto com Keynes - o termo adquiriu: o da obsessão com o curto prazo. Tomamos o crescimento dos últimos séculos como base, não como a exceção que parece ter sido. Por isso, bombardeamos a economia com estímulos de curto prazo, através da expansão do crédito e dos gastos públicos. O resultado é conhecido: bolhas especulativas, que, quando se esgotam, provocam crises financeiras, seguidas de longo período de estagnação e desemprego. Em vez de recuperar a lição do modelo neoclássico de crescimento, compreender que a desaceleração das economias avançadas pode não ser conjuntural, mas o fim da era do progresso tecnológico transformador, insistimos em tentar reanimar a economia, em bombardeá-la com os mesmos estímulos que provocaram os excessos e a levaram ao colapso. As economias centrais, do Japão, dos Estados Unidos e da União Europeia, podem ter chegado ao fim de uma era. Em relação à Depressão dos anos 30, Keynes escreveu: "Sofremos, não do reumatismo da idade avançada, mas das dores do crescimento rápido demais". A crer nas evidências do artigo de Robert J. Gordon, podemos ter finalmente chegado à idade do reumatismo, mas ainda não nos demos conta disso. Insistimos em interpretar suas dores como apenas mais dores do crescimento, porque não levantamos o olhar para além da conjuntura.

André Lara Resende é economista

 

 

 

 

NOVA REALIDADE, VELHAS QUESÕES - I

NOVA REALIDADE, VELHAS QUESÕES - II

Por André Lara Resende | Para o Valor, de São Paulo - 01-11-2012

 

 

BERNANKE E A POLÍTICA MONETÁRIA

por Luiz Gonzaga Belluzzo 

O presidente do Fed adverte que na atual conjuntura, a política monetária não pode mais do que faz e a política fiscal faz menos do que pode

Valor Econômico - 06/11/2012

 

 

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 10h45
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AS METAS DE CRESCIMENTO NOMINAL

por Jeffrey Frankel

A vantagem da meta de PIB nominal em relação à de inflação é sua solidez, em particular no que se refere a choques de oferta e choques das relações de troca

VALOR ECONÔMICO, 21-12-2012

É hora de os principais bancos centrais do mundo reconsiderarem a forma como conduzem sua política monetária. O Federal Reserve (Fed, autoridade monetária dos Estados Unidos) e o Banco Central Europeu (BCE) estão às voltas com à persistência da fragilidade em suas economias, apesar de anos de baixas taxas de juros. No Japão, Shinzo Abe, eleito primeiro-ministro do Partido Liberal Democrático (PLD), fez campanha a favor de uma política monetária mais expansionista. E os bancos centrais no Reino Unido e China trocarão de comando, o que pode implicar novas mentalidades.

As autoridades monetárias em alguns países deveriam contemplar uma mudança em direção à adoção de metas para o Produto Interno Bruto (PIB) nominal - alteração que poderia ser adotada de forma gradual, para preservar a credibilidade em relação à inflação. Aliás, para muitas economias avançadas, em particular, uma meta para o PIB nominal seria claramente superior para o status quo.

Bancos centrais anunciam regras e metas em termos de alguma variável econômica para comunicar suas intenções ao público, assegurar a prestação de contas e ancorar as expectativas. Já fixaram o preço do ouro (sob o padrão-ouro); tiveram metas para a base monetária (durante o auge do monetarismo do início dos anos 80); e metas para as taxas de câmbio (que ajudaram os países emergentes a superar a inflação muito alta dos anos 80 e foram usadas por membros da União Europeia nos 90, durante o avanço em direção à união monetária). Cada um desses planos, em algum momento, foram abandonados, seja por falta de ouro, mudanças na demanda por dinheiro ou por uma década de ataques especulativos que deslocaram o patamar das moedas.

Solução é adotar uma transição gradual. O banco central deveria começar omitindo projeções públicas de inflação e de crescimento real de curto prazo, mantendo projeções de longo prazo e a regulagem da inflação da forma como está

A ideia predominante nos últimos dez anos foi a de que as metas para a inflação - ou seja, anunciar uma meta de crescimento para os preços ao consumidor - proporcionavam a melhor estrutura para a política monetária de um país. A crise financeira mundial iniciada em 2008, no entanto, revelou algumas desvantagens das metas inflacionárias1, análogas aos defeitos das metas cambiais, que ficaram vulneráveis às crises de câmbio da década de 90.

A vantagem da meta de PIB nominal em relação à de inflação é sua solidez, em particular no que se refere a choques de oferta e choques das relações de troca. Por exemplo, com uma meta de PIB nominal, o BCE poderia ter evitado o erro cometido em julho de 2008, quando reagiu à alta dos preços do petróleo elevando as taxas de juros2 para combater a inflação ao consumidor, logo quando a economia entrava em recessão. Da mesma forma, o Fed poderia ter evitado o erro de adotar um afrouxamento excessivo na política monetária em 2004-2006 (quando a expansão do PIB nominal superou os 6%).

A ideia de metas para o PIB nominal circula desde os anos 80, quando macroeconomistas a viram como a solução lógica para as dificuldades com o sistema de metas de base monetária, particularmente, em relação aos choques de velocidade. Essas propostas foram retomadas agora, em parte, para proporcionar estímulos monetários e maior crescimento nos EUA, Japão e Europa, enquanto ainda se mantém uma âncora nominal confiável. Em economias que oscilam entre recuperação e recessão, uma meta de crescimento do PIB nominal de 4% a 5% para o ano seguinte teria impacto equivalente ao de uma meta de inflação de 4%.

Algumas autoridades monetárias deparam-se com o problema do limite de queda dos juros a zero: as taxas de juros nominais de curto prazo não podem ficar mais baixas do que já estão. Alguns economistas propuseram3 combater o alto desemprego elevando a meta de inflação anual dos tradicionais 2% a 4%, reduzindo a taxa de juros real (ajustada pela inflação). Eles lembram ao presidente do Fed, Ben Bernanke, que ele fez recomendações similares4 às autoridades japonesas, há dez anos.

Mas outras autoridades monetárias são avessas a metas de inflação de 4% - ou mesmo de 3%. Temem abandonar uma meta duramente conquistada e que foi bem-sucedida em manter as expectativas inflacionárias bem ancoradas por tantos anos. Mesmo se o aumento fosse temporário, poderia provocar danos à credibilidade da âncora de longo prazo.

Esse também é motivo pelo qual as mesmas autoridades monetárias têm receios quanto às propostas de meta do PIB nominal. Temem que determinar uma meta de expansão de 5% ou mais do PIB nominal para o próximo ano seria naturalmente interpretado como determinar uma meta de inflação superior a 2%, prejudicando, da mesma forma, a credibilidade da âncora de forma permanente.

O compromisso de meta de inflação de 2%, contudo, não seria abandonado. A solução prática é adotar a meta de PIB nominal gradualmente. As autoridades monetárias deveriam começar omitindo projeções públicas de inflação e de crescimento real de curto prazo, mantendo as projeções de longo prazo e a regulagem da inflação da forma como está. Mas deveriam agregar uma projeção de longo prazo para o crescimento do PIB nominal. Seria de algo de 4% a 4,5% para os Estados Unidos, o que implicaria um crescimento real de longo prazo de 2% a 2,25%, o mesmo de agora. Para o Japão, seriam necessárias metas menores - talvez, de crescimento de 3% do PIB nominal, como o PLD propôs recentemente - em grande parte devido à ausência de crescimento populacional. Ninguém poderia dizer que são inflacionárias.

Pouco depois, seriam agregadas as projeções de crescimento nominal do PIB para os próximos três anos - acima de 4% nos EUA, Reino Unido e região do euro (talvez de 5% para o primeiro ano, subindo a 5,5% depois disso, mas com a projeção de longo prazo ficando inalterada, em 4% a 4,5%). Isso desencadearia grande especulação pública sobre como esses 5,5% se decomporiam entre crescimento real e inflação. A verdade é que os bancos centrais não têm controle sobre isso - a política monetária determina o total de inflação e crescimento real, mas não a magnitude relativa de cada uma.

Uma meta de PIB nominal asseguraria que o crescimento real se acelerasse ou, caso contrário, que a taxa real de juro caísse, elevando a demanda. No longo prazo, quando crescimento nominal do PIB estiver de volta a seu ritmo anual de 4% a 4,5%, o crescimento real voltaria a seu potencial de, digamos, 2% a 2,5%, com a inflação de volta à faixa de 1,5% a 2%.

Adotar uma meta de crescimento do PIB nominal de forma gradual tem a vantagem de trazer algum estímulo econômico agora, quando é necessário, enquanto respeita a relutância das autoridades monetárias em abandonar sua tão estimada meta de inflação. (Tradução de Sabino Ahumada)

1 - bit.ly/IXSKuN; 2 - bit.ly/RaFFa6; 3 - bit.ly/a9dgOt; 4 - bit.ly/Ws1sYU

Jeffrey Frankel é professor de crescimento e formação de capital na Harvard University. Copyright: Project Syndicate, 2012.

 

Time for Nominal Growth Targets

ZANZIBAR – It is time for the world’s major central banks to reconsider how they conduct monetary policy. The US Federal Rese…

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 10h30
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Segunda-feira , 10 de Dezembro de 2012


CONTRAÇÃO FISCAL EXPANSIONISTA?

por Luiz Fernando de Paula e Manoel Carlos C. Pires

Situação econômica internacional deverá ser agravada se a política fiscal americana for revisada no próximo ano a fim de provocar a forte contração fiscal que ficou conhecida como "abismo fiscal"

Valor Econômico - 10/12/2012

O interesse dos economistas sobre o impacto da política fiscal no crescimento econômico foi renovado após a crise financeira internacional. Inicialmente, a discussão sobre a eficácia dos estímulos fiscais resultou em um debate que acabou por levar a uma polarização de posições a favor ou contra tais políticas. Em um segundo momento alguns países iniciaram um processo de consolidação fiscal, resultando em outra controvérsia: alguns defendiam a ideia de que a retirada de estímulos era prematura e que a economia desaceleraria; outros defendiam que a retirada era necessária para não ensejar uma trajetória de insustentabilidade da dívida pública.

A breve recuperação econômica mundial iniciada em 2010 deu vida curta ao primeiro debate, na medida em que a maioria dos países desenvolvidos iniciou um processo de consolidação fiscal. De acordo com as novas evidências, não por coincidência, a atividade econômica voltou a desacelerar, trazendo à tona a inconveniência desse processo.

A ideia de que as contrações fiscais podem ser expansionistas obteve respaldo empírico a partir de uma série de estudos que justificavam esses efeitos a partir da ideia de que uma contração fiscal seria capaz de aumentar a confiança do setor privado e estimular novas decisões de consumo e investimento por meio de um efeito "crowding in" sobre o gasto privado.

Evidências são favoráveis à adoção de medidas expansionistas para combater recessões

Essa linha de pesquisa foi liderada pelo economista Alberto Alesina com outros colaboradores, que identificaram em vários países os momentos de grande consolidação fiscal e correlacionaram esses eventos com a dinâmica do Produto Interno Bruto (PIB) no momento seguinte ao do ajuste fiscal. Os autores encontraram evidências de que os países que praticaram consolidações fiscais expressivas obtiveram melhor desempenho econômico.

O impacto que essa literatura teve na política econômica foi notável. Por exemplo, o novo governo britânico conservador, que tomou posse em 2010, colocou a redução do déficit público como objetivo central da sua política econômica, entendida como fundamental para assegurar a recuperação econômica do país, ao estimular a confiança do setor privado.

Na realidade, o respaldo empírico que essa literatura deu foi bastante frágil. Em primeiro lugar, essa literatura nunca foi além de identificar padrões de correlação ao invés de causalidade. É claramente factível que o crescimento econômico tenha sido responsável pela melhoria dos resultados fiscais. Quando esse tipo de controle é feito, os resultados não respaldam a conclusão da contração fiscal expansionista.

Em segundo lugar, está o problema de omissão de variável relevante: tanto o resultado fiscal quanto o comportamento do PIB podem ter sido influenciados por uma terceira variável omitida. Em matéria de política fiscal esses exemplos são abundantes, como a elevação do preço das commodities, a evolução mais favorável da taxa de câmbio em países exportadores, o relaxamento da política monetária, etc. Quando esses efeitos são considerados, os resultados se alteram, passando as contrações fiscais a produzirem efeitos contracionistas.

A partir desses novos resultados, a literatura tem dado maior atenção aos potenciais efeitos expansionistas da política fiscal, buscando entender em quais situações esse efeito pode ser maximizado.

Existem várias metodologias atualmente que procuram estimar o impacto da política fiscal sobre a atividade econômica. Uma tentativa que tem resultado em multiplicadores elevados é a que busca identificar, a partir de registros históricos, o momento e a magnitude exata de uma expansão fiscal. Ramey, no artigo "Identifying government spending shocks: it"s all in the timing", mostra que é importante separar o componente da política fiscal que é antecipado pelos agentes daquele que não é.

Essa distinção ajuda a entender as diferenças entre resultados neoclássicos (próximos a resultados antecipados) e keynesianos (próximos de resultados não antecipados). Assim, buscando identificar os efeitos dos choques de gastos governamentais, realiza sua análise para um período mais longo da economia americana entre 1939 e 2008 e conclui que os multiplicadores situam-se entre 0,6 e 1.

Uma abordagem alternativa é a que utiliza modelos não lineares para identificar o impacto da política fiscal, que passa a variar conforme o estágio do ciclo econômico ou mesmo conforme a regra de política monetária - nesse último caso, se a mesma compensa ou chancela a política fiscal. Auerbach e Gorodnichenko, no artigo "Measuring the output responses to fiscal policy", analisam essa questão para a economia norte-americana no período 1947 e 2009 por meio de um modelo que relaciona o tamanho do multiplicador conforme o ciclo econômico e concluem que o multiplicador fiscal pode variar entre -0,3 e 3,6, sendo maior em períodos de recessão econômica.

Concluindo, as evidências são amplamente favoráveis à adoção de políticas fiscais expansionistas para combater recessões e períodos de baixo crescimento econômico. No entanto, alguns países - como o Reino Unido a partir de 2010 e EUA a partir de 2011 - adotaram a consolidação fiscal com o argumento de que era necessário controlar suas dívidas. Na prática, esses países não tinham graves problemas de financiamento, tendo a contração fiscal sido de fato prematura, o que dificultou a recuperação econômica. Por conta dessas evidências, a situação econômica internacional deverá ser agravada caso a política fiscal americana seja revisada no próximo ano, a fim de provocar a forte contração fiscal que ficou conhecida como "abismo fiscal".

Luiz Fernando de Paula é professor titular da Faculdades de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCE/UERJ). E-mail: luizfpaula@terra.com.br.

 

 

É necessário mais do que flertar com as políticas keynesianas

por Fernando Ferrari Filho e André Moreira Cunha

Apesar que, desde 2011, há não somente uma inflexão pragmática da política macroeconômica, mas também um ajuste em seu foco, sugere-se cautela em sua caracterização como keynesiana

Valor Econômico - 19/12/2012

 

 

RUMOS DO KEYNESIANISMO

Por Luiz Fernando de Paula

A recente crise financeira internacional é vista como uma crise de um mundo excessivamente liberalizado, em particular no que se refere às finanças

VALOR ECONÔMICO, 13-02-2013

 

 

As políticas econômicas em Keynes: reflexões para a economia brasileira no período 1995-2011

Fábio Henrique Bittes Terra e Fernando Ferrari Filho ANPEC

 

 

É A TAXA DE CÂMBIO

por Yoshiaki Nakano

Objetivos do governo foram alcançados pois a indústria de transformação cresceu a um ritmo anualizado de 6,1%, no terceiro trimestre, enquanto o consumo privado continua crescendo a um ritmo anual de 4%

Valor Econômico - 11/12/2012

A revista "The Economist", na semana passada, sugeriu que a presidente Dilma Rousseff troque a sua equipe econômica se quiser ser reeleita. Em função do baixo crescimento no terceiro trimestre, de apenas 2,4% (taxa anualizada), afirma que a economia brasileira seria uma criatura moribunda. Por que tal semanário estaria preocupado com uma decisão que cabe exclusivamente ao eleitorado brasileiro? Por que depois de sermos a menina dos olhos dos investidores, numa capa da mesma revista, nossa economia se tornou moribunda?

A resposta está no próprio texto. Quando sugere que o Banco Central poderia ficar tentado a reduzir a taxa de juros, o que seria um erro, e que o ministro da Fazenda deveria ser demitido, pois as suas "previsões super-otimistas têm perdido a confiança dos investidores", ficam claras as razões e interesses por trás desse posicionamento. Isso não é comum numa revista comedida. De fato, a City de Londres e os investidores não devem estar satisfeitos, pois como a revista menciona, nos últimos 15 meses, o Banco Central derrubou violentamente a taxa de juros, em 5,25 pontos percentuais. É verdade que os investidores, ou seja, os especuladores financeiros, que tinham lucros fantásticos com simples arbitragem de juros, perderam 5,25 pontos da sua remuneração. Perderam mais, pois com o Banco Central administrando a taxa de câmbio e a Fazenda buscando a equalização da taxa de juros interna com a internacional por meio do IOF, a possibilidade de apreciação da taxa de câmbio, pela simples ação dos especuladores, desapareceu e, com isso, os ganhos acima do juros.

Ainda, a redução na taxa de juros depreciou o real e, segundo a "The Economist", ajudou o setor manufatureiro, com correspondente redução no retorno para os especuladores financeiros. É lógico que os investidores "perderam confiança", mas o saldo de investimento estrangeiro direto já ultrapassou US$ 55 bilhões até outubro deste ano! E em carteira US$ 12,7 bilhões no mesmo período. Nenhum Banco Central neste planeta paga mais do que 7,25% ao ano, no "overnight", portanto com liquidez imediata e sem risco.

Qual o real problema que estamos enfrentando? A presidente Dilma, no seu lúcido, pronunciamento na Confederação Nacional da Indústria expressou com absoluta clareza: "Vivemos um periodo de transição ? no qual os investimentos do setor real da economia tenderão a ser mais atrativos que as demais oportunidades ? Essa transição vai demorar". Tem razão a presidente. Depois da superapreciação da taxa de câmbio até 2011, com as ações da Fazenda e do Banco Central, ela está mais competitiva.

Entretanto, depois da segunda onda de desindustrialização, desde meados da década de 90, (ver o gráfico) a manufatura anda com as pernas quebradas, mas não "moribunda". Tudo indica que o efeito da segunda onda será mais persistente, pois parte significativa das empresas brasileiras se transformaram em "maquiladoras", ou simplesmente em importadoras, e de difícil reversão.

Objetivo foi alcançado pois a indústria de transformação cresceu a um ritmo anualizado de 6,1%, no 3 º trimestre

É preciso lembrar que a prolongada apreciação da taxa de câmbio reduziu os preços relativos da indústria ("tradables"), elevando preços dos setores de serviços, de construção, de geração de energia pelas hidrelétricas e da força de trabalho. Os efeitos da apreciação cambial não são transparentes, pois se dão por meio do aumento de preços de não "tradables", inflação no setor de serviços, elevação do custo de transporte, aumento de salários acima da produtividade etc.. No final, aqueles se manifestam concretamente numa forte elevação dos custos do setor não "tradables", da indústria: de 2004 até o ano passado, os insumos domésticos haviam aumentado, em termos reais, em torno de 50%, o custo unitário do trabalho em 52%, energia em 61%, insumos domésticos em mais de 40%.

Estima-se que o custo total da indústria manufatureira, em termos reais, tenha aumentado 35%, em moeda nacional, e 139%, em dólares, nesse mesmo período. Em 2012, com a depreciação do real, esse último custo foi reduzido, mas os demais continuaram subindo. Portanto, nesse contexto de redução de margem de lucro, os investimentos acabaram declinando. Como a demanda vinha aumentando significativamente e a indústria incapaz de competir com as importações, nesse quadro de custos elevados, seus efeitos dinâmicos foram transferidos para o exterior.

Agora, estamos numa transição, a taxa de câmbio, que teve uma depreciação média de 24% do segundo para o terceiro trimestre, já provocou uma significativa retração nas importações, onde o efeito ocorre no curto prazo, e terá efeito positivo sobre o crescimento do PIB. Nas exportações e nos investimentos, o efeito do câmbio é muito mais demorado, podendo levar dois anos. Mas observe-se também que os objetivos do governo foram alcançados, pois a indústria de transformação cresceu a um ritmo anualizado de 6,1%, no terceiro trimestre, portanto em franca recuperação, enquanto o consumo privado continua crescendo a um ritmo anual de 4%. Os efeitos das desonerações da folha de pagamentos com a redução no preço da energia ainda estão por acontecer nos próximos meses.

Para concluir é preciso lembrar que para acelerar o crescimento é preciso completar a transição para um novo regime de política macroeconômica em andamento. A taxa de câmbio tem que ser um pouco mais competitiva e sustentável para despertar o "espirito animal" dos empresários, inclusive para compensar o custo Brasil, que só terá solução a longo prazo. A taxa de juros deve ser menor, e acabar a indexação de todo o sistema bancário e mercado de capitais à taxa Selic, para desenvolver mercado de crédito de longo prazo. Num contexto de quase pleno emprego, para evitar a aceleração da inflação, a política fiscal tem que ser contracionista na despesa corrente. O governo tem que mudar a composição de seus gastos para ampliar investimentos públicos. Reverter as expectativas de longo prazo e mudar as "convenções" não é tarefa fácil.

Yoshiaki Nakano, mestre e doutor em economia pela Cornell University, é professor e diretor da EESP/FGV e ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP). Escreve mensalmente às terças-feiras.

TAXA DE CÂMBIO E DOENÇA HOLANDESA [[+ Delfim: câmbio]]

por Luiz Carlos Bresser-Pereira

Nosso desequilíbrio macroeconômico fundamental é a sobreapreciação cambial, que desindustrializa gradualmente o país Valor Econômico - 19/02/2013

 

A GUERRA FRIA DAS MOEDAS - bom

por Bruno De Conti

A despeito da retórica pacifista da reunião do G-20, cada país seguirá usando as armas que dispõe, numa espécie de "guerra fria das moedas"

Valor Econômico - 19/02/2013 

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 11h16
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Segunda-feira , 26 de Novembro de 2012


A ERA DA REPRESSÃO FINANCEIRA

por Sylvester Eijffinger e Edin Mujagic

O financiamento monetário dos déficits orçamentários costumava figurar entre os pecados mais graves que um banco central poderia cometer. A QE e as OMTs são novas encarnações dessa velha transgressão

VALOR ECONÔMICO, Opinião, 26-11-2012

Quase imediatamente após sua reeleição, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, voltou suas atenções para domar a crescente dívida nacional do país. Na realidade, quase todos os países ocidentais vêm adotando políticas para reduzir - ou pelo menos conter - o volume da dívida pública.

Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, em ensaio amplamente citado, "Growth in a Time of Debt"1 (crescimento em tempos de dívidas, em inglês), argumentam que quando o endividamento governamental supera 90% do Produto Interno Bruto (PIB), os países passam a ter menor crescimento econômico. A dívida nacional de muitos países ocidentais agora está perigosamente próxima e em alguns casos acima desse limite crítico.

De fato, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)2, até o fim deste ano a relação entre PIB e dívida nacional dos EUA vai aumentar para 108,6%. O endividamento público da região do euro está em 99,1% do PIB, encabeçado pela França e Reino Unido, onde a relação deverá chegar a 105,5% e 104,2%. Mesmo a bem disciplinada Alemanha deverá chegar perto do limite de 90%, com 88,5%.

O financiamento monetário, direto ou indireto, dos déficits orçamentários costumava figurar entre os pecados mais graves que um banco central poderia cometer. A QE e as OMTs são, simplesmente, novas encarnações dessa velha transgressão.

Um país pode reduzir suas dívidas nacionais por meio do corte do déficit orçamentário ou de superávits primários (o equilíbrio fiscal, sem contar o pagamento de juros das dívidas). Isso pode ser obtido via aumentos de impostos, cortes nos gastos governamentais, maior crescimento econômico ou alguma combinação desses componentes.

Quando a economia cresce, estabilizadores automáticos fazem sua mágica. À medida que mais pessoas trabalham e ganham mais dinheiro, aumentam as obrigações tributárias e diminuem os benefícios sociais, como o seguro-desemprego. Com uma arrecadação maior e gastos menores, o déficit no orçamento diminui.

Em tempos de baixo crescimento econômico, no entanto, as opções das autoridades são amargas. Aumentar impostos não é apenas uma medida impopular; pode ser contraproducente, tendo em vista a tributação já elevada em muitos países. Também é difícil conquistar apoio público a cortes nos gastos. Como resultado, muitas autoridades ocidentais vêm buscando soluções alternativas - muitas das quais pode ser classificadas como uma repressão financeira.

Repressões financeiras ocorrem quando os governos tomam medidas para canalizar para si mesmos recursos que, em um mercado desregulamentado, rumariam em outra direção. Por exemplo, muitos governos adotaram regulamentações para bancos e empresas de seguros que aumentaram o volume de dívidas governamentais que essas firmas detêm em seu poder.

Vejamos as normas bancárias internacionais do acordo da Basileia 33. Entre outros pontos, o acordo estipula que os bancos não precisam reservar dinheiro para garantir seus investimentos em bônus governamentais com classificações de "AA-" ou superiores. Além disso, os investimentos em bônus emitidos por seus governos nacionais não precisam de cobertura de capital, independentemente do "rating".

Paralelamente, os bancos centrais ocidentais usam outro tipo de repressão financeira, ao manter taxas de juros reais negativas (que dão rendimento inferior ao da inflação), o que lhes permite honrar o serviço de suas dívidas de forma gratuita. Os juros básicos do Banco Central Europeu (BCE) estão em 0,75%, enquanto a inflação anual da região do euro é de 2,5%. Da mesma forma, o Banco da Inglaterra mantém a taxa referencial em apenas 0,5%, apesar de uma inflação que paira acima dos 2%. E, nos EUA, onde a inflação também supera os 2%, os juros referenciais para os fundos federais do Federal Reserve (Fed) são os mais baixos da história, entre 0% e 0,25%.

Além disso, tendo em vista que o BCE, Banco da Inglaterra e Fed aventuram-se pelos mercados de capitais - por meio da flexibilização monetária quantitativa (QE, na sigla em inglês) nos EUA e Reino Unido e do programa de "Transações Monetárias Diretas" (OMT, na sigla em inglês) do BCE na região do euro -, as taxas de juros reais de longo prazo também estão negativas (a taxa real de 30 anos nos EUA é positiva, mas por muito pouco).

Tais táticas4, em que os bancos são instigados, embora não coagidos, a investir em títulos de dívidas governamentais, constituem uma repressão financeira "suave". Os governos, entretanto, podem ir além desses métodos e exigir que as instituições financeiras mantenham ou elevem os títulos soberanos em seu poder, como a Autoridade de Serviços Financeiros (FSA, órgão regulador do mercado financeiro britânico) fez em 20095.

De forma similar, em 2011, os bancos espanhóis ampliaram a concessão ao governo em quase 15%, embora as concessões do setor privado para os captadores como um todo tenham se contraído e o governo espanhol tenha ficado com menor capacidade creditícia. Um alto executivo bancário italiano disse em certa ocasião que os bancos da Itália seriam enforcados pelo Ministério das Finanças se vendessem qualquer título do governo. E um executivo bancário português afirmou que, embora os bancos devessem reduzir sua exposição a bônus governamentais de risco, a pressão governamental para que comprassem mais era avassaladora.

Além disso, em muitos países, como França, Irlanda e Portugal, os governos invadiram seus fundos de previdência para financiar os déficits orçamentários. O Reino Unido está prestes a adotar medida similar, "permitindo" que seus fundos de pensão públicos invistam em projetos de infraestrutura.

O financiamento monetário, direto ou indireto, dos déficits orçamentários costumava figurar entre os pecados mais graves que um banco central poderia cometer. A QE e as OMTs são, simplesmente, novas encarnações dessa velha transgressão. Tais políticas dos bancos centrais, combinadas com o acordo da Basileia 3, significam que a repressão financeira provavelmente definirá o cenário econômico por pelo menos mais dez anos. (Tradução de Sabino Ahumada).

1 bit.ly/8hdquZ

2 bit.ly/Obf1ds

3 bit.ly/aySOf1

4 bit.ly/pY9gUu

5 bit.ly/XRPkB

Sylvester Eijffinger é professor de Economia Financeira na Tilburg University, na Holanda.

Edin Mujagic é economista na Tilburg University. Copyright: Project Syndicate, 2012.

The Age of Financial Repression

Sylvester Eijffinger, Edin Mujagic Nov. 21, 2012

Given low economic growth and the unpopularity of tax hikes and spending cuts, many Western governments are seeking alternative solutions to rein in rising national debt. But many of the policies that are being implemented constitute financial repression – once considered among the... 

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 12h16
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Sexta-feira , 16 de Novembro de 2012


CRISE TAMBÉM É DE RELAÇÕES DO TRABALHO, diz SOCIÓLOGO DO ÓCIO

por Rodrigo Pedroso | De São Paulo

Pensador italiano Domenico De Masi defende melhor distribuição da riqueza da produção, do trabalho e do conhecimento

De Masi: a culpa maior pelas poucas perspectivas de melhora é dos intelectuais, que não estão propondo nada novo

VALOR ECONÔMICO, Especial, 16-11-2012

A crise de 2008 mostrou ao mundo os paradoxos do capitalismo e apontou a necessidade de mudança nas relações de trabalho se os países quiserem diminuir seus efeitos, como o desemprego recorde entre jovens. Essa é a visão do sociólogo italiano Domenico De Masi, que visitou o Brasil recentemente e se mostrou pessimista com os arranjos feitos até agora para superar a crise.

Para ele, o cenário atual nas economias desenvolvidas é resultado não apenas da quebra do sistema financeiro em 2008: com o progresso científico, as pessoas terão de trabalhar menos horas para que a desocupação não atinja níveis insustentáveis socialmente. "Cria-se uma massa cada vez maior de pessoas com o direito de consumir, mas sem o direito de produzir. Vivemos em um modelo de produção baseado na sociedade industrial do século passado, enquanto a vivência e a dinâmica são de uma nova sociedade, a pós-industrial."

Mais que os agentes econômicos, De Masi acredita que a parcela maior de culpa pelas pequenas perspectivas de mudanças no cenário atual é dos intelectuais, que não têm apresentado novos modelos para o mundo. Nesse caso, o Brasil pode se aproveitar dessa crise de intelectualidade. "Vocês copiaram o modelo europeu por 450 anos e o americano por 50 anos. Agora que eles estão em crise, quem vão copiar? Não adianta usar as mesmas técnicas de marketing, por exemplo, para vencer os americanos. É necessário ideias originais que outros não possuem para poder vencer", disse o pensador. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Valor:

"Cria-se uma massa cada vez maior de pessoas com o direito de consumir, mas sem o direito de produzir"

Valor: Sua análise sobre a atual crise diz que ela teve origem nos Estados Unidos em função do excesso de consumo aliado à desigualdade crescente de salários e à falta de freio aos bancos. Qual a perspectiva para a resolução dela?

Domenico De Masi: O capitalismo tem suas regras e para sobreviver ele precisa respeitá-las. Algumas vêm de teorias econômicas, outras de uma visão utópica. A primeira visão utópica é que pode haver crescimento infinito. A segunda é que o crescimento infinito pode ser obtido apenas se houver concorrência de todos contra todos. A terceira é que, além do crescimento infinito, há a possibilidade de consumo infinito. E para obter isso, o capitalismo tem suas técnicas. As empresas fazem com que as necessidades nasçam por meio da publicidade, os bancos financiam a compra dos bens e dos serviços para satisfazer essas necessidades induzidas e as indústrias criam objetos cada vez mais obsoletos para acelerar o consumo. Outra regra: para o sistema funcionar bem é preciso distribuir bem a riqueza, de forma que o consumo se expanda.

Valor: A riqueza gerada pelo trabalho também entra nesse conjunto de regras do capitalismo?

De Masi: É preciso que a fonte da riqueza do trabalho seja bem distribuída, assim como a distribuição do poder seja melhor. Já que o trabalho depende da atividade intelectual, também é necessário distribuir bem o conhecimento. Quando isso acontece, temos a distribuição justa das oportunidades. Essa é a estrutura sobre a qual o capitalismo se sustenta para poder crescer.

Valor: Mas nos últimos anos verificou-se a concentração desses fatores no mundo desenvolvido...

De Masi: Vamos ver o que aconteceu na verdade: estamos percebendo que o crescimento não pode ser infinito. Por exemplo, podemos comprar um carro, dois, três, mas não infinitos. É assim para as outras coisas, pois os objetos são feitos com matérias primas que são finitas. O segundo paradoxo do capitalismo é que a riqueza não se distribui de forma igual e justa, mas agrega-se cada vez mais na mão de poucas pessoas se não existe regulação. Quando a riqueza se agrupa em poucas pessoas o consumo cai. E se o consumo diminui, o mercado encolhe. Na Itália, por exemplo, dez pessoas ganham o mesmo do que 3 milhões de pessoas. Dez pessoas consomem como dez e não como 3 milhões. Outro elemento atual de contradição é que os bancos comercializam mais do que a riqueza real. Atualmente, o valor monetário do mundo financeiro é quatro mil vezes maior do que o produzido fisicamente. Esse sistema não se sustenta no tempo. Quando ele se rompe, há crises como a de 2008, que quando acontecem os agentes mais fortes da economia jogam os efeitos nocivos sobre os mais fracos.

Valor: Nesse contexto, o Sr. diz que o progresso tecnológico também tem peso em tempos de crise.

De Masi: É um outro paradoxo do capitalismo: ele vive de inovação, progresso. E o progresso tecnológico elimina o trabalho. Se o progresso elimina o trabalho, significa que o bolo do trabalho não apenas não cresce, mas diminui. Quando esse bolo diminui, aumenta o número de pessoas que querem comer esse bolo. Então o caminho seria o de reduzir as porções do bolo que cada um come para assegurar o trabalho. Mas não fizemos isso. A medida em que se reduz o número de postos de trabalho, os pais fazem jornadas de dez horas e os filhos ficam desempregados. Esse tipo de desemprego é o mais grave no mundo hoje em dia. Na Itália, 30% dos jovens estão sem emprego. Na Espanha, 50%. Nos Estados Unidos, 16%. É a percentagem mais alta da história. Neste momento, na Itália, há 2 milhões de jovens que não trabalham ou estudam. E eu projeto que em 2025 esse número suba para 5 milhões. Ou seja, cria-se uma massa cada vez maior de pessoas com o direito de consumir, mas sem o direito de produzir.

Valor: Como resolver tantos paradoxos, então?

De Masi: É necessário rever totalmente o modelo da nossa sociedade, com a redistribuição de algumas coisas. É necessário a redistribuição da riqueza, pois ela está em poucas mãos; do trabalho, pois há desempregados demais; do poder, pois poucas pessoas mandam em muitos lugares; do saber, pois há pessoas com duas, três faculdades, e outras analfabetas; das oportunidades, pois alguns têm oportunidades demais e outros, de menos. Não se trata de fazer muitas pequenas reformas, mas, sim, de inventar um modelo completamente novo para a sociedade.

Valor: Caminhamos no sentido de mudar o modelo atual?

De Masi: Não acredito, mas é necessário que isso seja feito. Foram sempre os intelectuais que pensaram os novos modelos. O cristianismo foi criado por Jesus, que era um intelectual. O comunismo por Marx. O capitalismo foi pensado por Adam Smith, Tocqueville, Montesquieu. O Iluminismo por Voltaire, Diderot, D'Alembert. Esse é um momento em que os bancos e os políticos carregam muitas culpas, assim como economistas e empreendedores. Mas a culpa maior é dos intelectuais, que não estão propondo nada novo. Os prêmios Nobel de economia não mostram grandes novidades. O que foi apresentado pelos vencedores? Pequenas invenções. Não há desejo de inventar um modelo iluminista da sociedade. Hoje é necessário criar um modelo pós-industrial para a sociedade, pois temos um modelo industrial de produção aplicado a uma realidade e dinâmica pós-industrial.

Valor: Esse momento de descompasso é o que causa conflitos individuais, como estresse, pouco tempo para o lazer etc, e coletivos, como crises com poucas perspectivas de superação e apatia política?

De Masi: Não acredito que seja necessário um Marx ou um Weber hoje em dia. Passamos por uma época em que a cultura era criada por poucos para poucos. Por exemplo, Mozart compôs sinfonias para poucos: os aristocratas. Passamos depois a uma fase de transmissão de cultura de poucos para muitos graças à mídia. De repente, Mozart era escutado por milhões de pessoas. Agora, pela primeira vez passamos para uma produção de cultura de muitos para muitos. Quem escreve a Wikipedia? Milhões. Quem a usa? Milhões. Temos que criar modelos onde milhões criam para milhões.

Valor: Então seriam necessários muitos de intelectuais com grandes ideias para essa mudança...

De Masi: Participei de um seminário em que estava um economista brasileiro importante. Perguntei a ele por que os intelectuais do Brasil não criam um modelo brasileiro, já que o país copiou a Europa por 450 anos e os Estados Unidos por outros 50. As escolas brasileiras de negócios, finanças e marketing são todas copiadas dos americanos, por exemplo. Nos anos 1970 funcionava. E agora que eles estão em crise? O executivo brasileiro aprende a gestão americana porque acha que vai entrar no grupo dos americanos. Não vai. Se ele usar o método dos americanos, nunca vai conseguir vencê-los. É preciso ideias originais para poder ultrapassá-los ou obter uma vantagem competitiva importante.

Valor: De acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as horas trabalhadas por pessoa por ano na média dos países membros estão diminuindo desde 2000. Por que trabalha-se menos, mas a sensação das pessoas é a de que a carga de trabalho aumentou?

De Masi: Essa estatística é feita como? Pela média?

Valor: Sim.

De Masi: Essa média se refere apenas à população empregada, não levando em conta o efeito do desemprego. Imaginemos que o pai trabalhava antes 12 horas e o filho oito. Hoje o pai trabalha dez e o filho está desempregado. Diminuiu o número de horas, mas o pai continua trabalhando muito. Por isso essa sensação.

Valor: No livro "O Futuro do Trabalho", o Sr. diz que o desenvolvimento tecnológico e a sociedade pós-industrial abrem espaço para a criação de uma sociedade baseada mais no saber como capital produtivo para as empresas do que na produção em massa. Passados 13 anos, o que o Sr. mudaria no livro e o que se concretizou?

De Masi: Tudo o que escrevi aconteceu. Eu disse: "Se não for reduzida a quantidade de trabalho individual, veremos que quem continuar empregado trabalhará muito enquanto outros estarão desempregados; se o progresso tecnológico não for acompanhado da redução do trabalho, aumentará o número de desocupados; se não fizermos o teletrabalho, o trabalho sem base fixa, as cidades ficarão paralisadas". Levei quatro horas para ir do aeroporto de Guarulhos até a Avenida Paulista. Isso é uma loucura. Por que levei tanto tempo? Porque milhares de pessoas tentavam se deslocar para o trabalho. Isso é um desperdício enorme no capitalismo. Ganha a montadora Fiat, mas perde toda a sociedade.

Valor: Já que não há mostras de uma mudança automática de um modo de produção industrial para um pós-industrial, como induzi-la?

De Masi: Acredito que a sociedade pós-industrial pode ser mais bela, rica e justa do que a industrial, mas depende de nós. Há oportunidades para isso, mas não é uma fatalidade, algo que necessariamente vá acontecer. Minha geração não conseguiu modificar a sociedade porque vivemos muito tempo no modelo industrial. Por exemplo, vivemos tempo demais em uma sociedade analógica. Não somos capazes de viver na sociedade digital. Os jovens nasceram já na sociedade digital e devem usar isso. Para a minha geração é difícil entender o teletrabalho, porque vivi em um modo único de sociabilização: o do escritório. O jovem não. Ele vive mais livre, pode se sociabilizar na internet, no restaurante, no bar. Não há a necessidade de ir ao escritório para produzir. Esse tipo de mudança de paradigma de trabalho é o que dá uma nova perspectiva para o futuro, para as mudanças nas relações.

Quem é De Masi

Criador da teoria do ócio criativo, na qual propõe a fusão entre trabalho, estudo e lazer como forma de criação de riqueza em uma sociedade pós-industrial, Domenico De Masi perdeu as contas de quantas vezes visitou o Brasil. Professor de Sociologia do Trabalho na Universidade La Sapienza de Roma, na Itália, ele também é diretor da S3 Studium, escola de especialização em ciências organizacionais que fundou.

Sobre "O Futuro do Trabalho", livro lançado em 1999 que traça as mudanças no emprego estrutural para os anos seguintes, o sociólogo afirma que as previsões feitas à época se concretizaram. Especialista no assunto, De Masi também lançou os livros "Emoção e A Regra", "Sociedade Pós-Industrial", "Criatividade e Grupos Criativos", "Desenvolvimento Sem Trabalho", "A Economia do Ócio" e "O Ócio Criativo". O último título, publicado em 2000, é considerado um best-seller.

A entrevista ao Valor foi concedida entre uma reunião com professores da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e uma palestra para alunos sobre o tema "Brasilidade".

Em março, ele retorna ao Brasil para falar sobre os resultados de um estudo sobre o perfil do brasileiro, que será lançado durante o encontro Refletir Brasil, a ser realizado em Paraty. Sob a batuta do sociólogo, especialistas identificaram e estudaram um "jeito brasileiro" de agir no mundo dos negócios, que traz prós e contras no empreendedorismo e abre a possibilidade de um novo tipo de liderança empresarial criado a partir das características locais.

O estudo revelou características positivas do brasileiro, como um trabalhador diverso, fiel, colaborativo e intenso, e negativas, como superficial, alta tolerância, informalidade demasiada nas relações e desorganização. O intuito é traçar um perfil que auxilie na adoção de modelos de negócios que propiciem a inovação empresarial.

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PARA De MASI, BRASIL É BÚSSOLA PARA SOCIEDADE DESORIENTADA

por Oscar Pilagallo | Para o Valor, de SP

Jornal VALOR ECONÔMICO, 25-03-2014

 

É momento de flexibilizar leis trabalhistas? FOLHA DE SÃO PAULO, 17-11-2012

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 06h06
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Terça-feira , 13 de Novembro de 2012


POLÍTICA DE TERCEIRO MUNDO DOS EUA

por Dani Rodrik

As concessões a grupos extremistas, a rejeição à ciência e a tática de evitar os verdadeiros problemas que caracterizaram este ciclo eleitoral representaram um novo patamar de baixarias para a política democrática.

Valor Econômico - 12/11/2012

Com a eleição presidencial encerrada, os Estados Unidos podem enfim parar com a campanha política para recuperar o fôlego, pelo menos por enquanto. Há uma incômoda questão, contudo, que vai persistir: Como é possível que o país mais poderoso e a democracia contínua mais antiga do mundo mostre um quadro de discursos políticos que mais lembra ao de um "Estado falido" africano?

Sem dúvida, os piores transgressores são os republicanos americanos, cujos líderes, de alguma forma, se entusiasmaram com ideias que seriam inaceitáveis em outros países avançados. Da dúzia de pré-candidatos presidenciais do partido, apenas dois (Mitt Romney e Jon Huntsman) se recusaram a rejeitar as evidências científicas sobre o aquecimento global e sua indução pelo ser humano. Quando pressionado a respeito, no entanto, Romney ficou incômodo quanto a sua posição, a ponto de mostrar hesitação1.

Da mesma forma, a teoria darwiniana da evolução é, há muito tempo, um palavrão para os republicanos. Rick Perry, governador do Texas e um dos favoritos no início das primárias republicanas, a chamou2 de apenas uma "teoria por aí", enquanto o próprio Romney argumentou que ela é consistente com o criacionismo - a ideia de que uma força inteligente projetou o universo e o fez existir.

As concessões a grupos extremistas, a rejeição à ciência, as mentiras e distorções absolutas e a tática de evitar os verdadeiros problemas que caracterizaram este recente ciclo eleitoral representaram um novo patamar de baixarias para a política democrática.

Da mesma forma, se há uma ideia arcaica na economia é a de que os EUA deveriam retornar ao padrão-ouro. Ainda assim, essa ideia também goza de forte apoio dentro do Partido Republicano - com Ron Paul, outro dos que concorreram à indicação presidencial pela legenda, à frente. Ninguém ficou surpreso quando a plataforma do partido sinalizou favoravelmente ao padrão-ouro em sua convenção em agosto.

A maioria dos não americanos acharia maluquice o fato de nem Romney nem Barack Obama terem defendido leis mais estritas de controle às armas (com Obama fazendo uma exceção apenas para armas mais potentes, como a AK-47), em um país onde às vezes é mais fácil comprar armas do que votar. A maioria dos europeus não consegue entender como, em um país civilizado, os dois candidatos podem ser favoráveis à pena de morte. E não vou nem entrar no debate sobre o aborto.

O candidato Romney ficou tão intimidado com a obsessão de seu partido com impostos baixos que ele nunca conseguiu apresentar um orçamento em que as contas batessem. Foram seus relações-públicas que precisaram explicar que isso se tratava de "besteiras necessárias, idealizadas para persuadir os fanáticos que votam nas primárias republicanas", como a "The Economist"3 publicou.

Obama, por sua vez, recorreu a nacionalistas econômicos atacando Romney como um "pioneiro da terceirização" no exterior e chamando-o de "terceirizador-chefe" - como se a terceirização fosse um grande mal e como se fosse possível interrompê-la ou ainda, como se próprio Obama tivesse feito grande coisa para desencorajá-la.

Os equívocos, inverdades e completas mentiras de ambos os lados chegaram de forma tão desenfreada que muitos meios de comunicação e grupos apartidários criaram listas que iam sendo atualizadas a cada nova distorção dos fatos. Uma das mais conhecidas, a Factcheck.org4, uma iniciativa do Centro de Políticas Públicas Annenberg, da University of Pennsylvania, confessou que teve um trabalho fora do comum nesta campanha.

Alguns dos exemplos mais chocantes5 foram as acusações feitas por Obama de que Romney pretendia elevar os impostos da classe média em US$ 2 mil e/ou cortar os impostos em US$ 5 trilhões e de que Romney apoiava uma lei tornando ilegal "todos os abortos, mesmo nos casos de estupro e incesto". Romney foi ainda mais longe acusando Obama de planejar elevar os impostos dos contribuintes de classe média em US$ 4 mil; de querer "exaurir a reforma da assistência social eliminando as exigências" para se receber o auxílio; e de que a Chrysler, resgatada pelo governo Obama, estava transferindo a produção de sua marca Jeep para a China. Nenhuma dessas acusações era verdade.

"Foi aquele tipo de campanha", escreveram analistas do FactCheck.org, "repleta, do início ao fim, de ataques e contra-ataques enganosos e acusações duvidosas".

Por outro lado, ao longo de três debates presidenciais e um vice-presidencial televisionados, as mudanças climáticas, a questão mais marcante de nossa época e o problema mais sério enfrentado por nosso planeta, não foram mencionadas uma vez sequer.

É possível extrair duas conclusões das eleições nos EUA. Uma é que os EUA vão acabar se desfazendo com a pobre qualidade de seu discurso democrático e que isso é apenas o começo de um declínio inevitável. Os sintomas estão lá, embora a doença ainda não tenha infectado todo o corpo.

A outra possibilidade é que o que foi dito e feito durante a eleição faz pouca diferença à saúde política. As campanhas são sempre tempos de populismo barato e de submissão aos fundamentalistas obcecados com questões específicas. O que, talvez, realmente importe é o que vai acontecer depois de o candidato assumir o poder: a qualidade dos controles dentro dos quais ele ou ela opera, os conselhos apresentados, as decisões tomadas e, no fim das contas, a políticas levadas adiante.

No entanto, se as eleições americanas não são nada além de um show, por que se gasta tanto dinheiro nelas e por que tantas pessoas se preocupam com elas? Será que porque de outra forma o resultado seria ainda pior?

Parafraseando Winston Churchill, a eleição é a pior forma de escolher um líder político, com exceção de todas as outras já tentadas - e isso vale mais para os EUA do que para qualquer outro país. (Tradução de Sabino Ahumada).

 

Dani Rodrik Nov. 7

America’s Third-World Politics

CAMBRIDGE – With its presidential election over, the United States can finally take a breather from campaign politics, at lea

 

REGRAS MUNDIAIS PARA FLUXOS DE CAPITAL
por Dani Rodrik
Um mundo em que diferentes Estados regulamentam o sistema financeiro de maneiras distintas exige regras de trânsito para gerenciar as interseções de diferentes políticas nacionais.
Valor Econômico - 14/12/2012
É oficial. O Fundo Monetário Internacional (FMI) colocou seu selo de aprovação aos controles de capital, legitimando, assim, o empre

go de impostos e outras restrições sobre os fluxos financeiros internacionais.

Não muito tempo atrás, o FMI pressionou fortemente para que os países - ricos ou pobres - se abrissem ao financiamento externo. Agora, o Fundo reconheceu que a globalização financeira pode ser desestruturadora - induzindo crises financeiras e movimentos cambiais economicamente adversos.
Então, aqui estamos nós com mais uma guinada na saga sem fim de nossa relação de amor e ódio com os controles de capital.
Sob o clássico padrão ouro que prevaleceu até 1914, a livre mobilidade de capitais era sagrada. Mas a turbulência do período entre guerras convenceu muitos - o mais famoso foi John Maynard Keynes - de que uma conta de capital aberta é incompatível com a estabilidade macroeconômica. O novo consenso refletiu-se no acordo de Bretton Woods, em 1944, que consagrou os controles de capital nos Artigos de Acordo do FMI. Como disse Keynes, à época, "o que era uma heresia, é, agora, endossado como ortodoxia".
No final da década de 1980, porém, as autoridades ficaram novamente encantadas com a mobilidade do capital. Em 1992, a União Europeia tornou ilegais os controles de capital e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) impôs o livre fluxo financeiro a seus novos membros, abrindo o caminho para as crises financeiras no México e na Coreia do Sul em 1994 e 1997, respectivamente. O FMI aprovou a agenda e sua liderança buscou alterar os artigos para dar ao FMI poderes formais sobre as políticas referentes às contas de capital.
Quando Estados regulamentam o sistema financeiro de maneiras distintas, são necessárias regras de trânsito para gerenciar as interseções. A premissa de que todos convergirão para a livre mobilidade do capital nos desvia da árdua tarefa da formulação das regras
Enquanto os países em desenvolvimento eram abalados pelo sistema financeiro mundial, era moda culpar a vítima. O FMI e economistas ocidentais afirmavam que México, Coreia do Sul, Brasil, Turquia e outros países não tinham se adaptado às políticas -regulamentação prudencial, moderação fiscal e controles monetários - necessários para tirar proveito dos fluxos de capital e evitar crises. O problema devia-se a políticas internas e não à globalização financeira, de modo que a solução não estava em controlar os fluxos financeiros internacionais, mas em reformas internas.
Depois que os países avançados tornaram-se vítimas da globalização financeira, em 2008, tornou-se mais difícil sustentar essa linha de argumentação. Ficou claro que o problema estava na instabilidade no próprio sistema financeiro mundial: os surtos de euforia e as bolhas, seguidos por paradas súbitas e reversões agudas que são endêmicas em mercados financeiros não supervisionados e desregulamentados. É, portanto, bem-vindo, o reconhecimento, pelo FMI, de que é apropriado, aos países, tentar isolarem-se desses padrões.
Mas não devemos exagerar a extensão da mudança de posição do FMI. O Fundo ainda considera a livre mobilidade de capitais como um ideal para o qual todos os países acabarão convergindo. Isso requer apenas que os países alcancem o limiar de condições de "desenvolvimento financeiro e institucional" adequado.
O FMI trata os controles de capital como recurso derradeiro, a ser implantado sob um conjunto de circunstâncias bastante estreito - quando outras medidas macro, financeiras ou prudenciais não conseguem conter a onda de entradas de capital, quando o câmbio está sobrevalorizado, quando a economia está superaquecida e quando as reservas internacionais já são adequadas.
Isso reflete otimismo excessivo em duas frentes: primeiro, sobre quão bem a política pode ser ajustada no sentido de focar diretamente as falhas subjacentes que tornam o sistema financeiro mundial inseguro; e, em segundo lugar, sobre em que medida a convergência das regulamentações financeiras nacionais atenuarão a necessidade de administrar os fluxos internacionais.
O primeiro ponto pode ser mais bem apreciado recorrendo a uma analogia com os controles de armas. Armas, assim como os fluxos de capital, têm os seus usos legítimos, mas também podem produzir consequências catastróficas quando usadas acidentalmente ou colocadas em mãos erradas. O apoio relutante do FMI aos controles de capital se assemelha à atitude dos adversários dos controle sobre armamentos: os formuladores de políticas deveriam focar o comportamento prejudicial em vez de restringir incisivamente as liberdades individuais. Dizem os grupos de pressão defensores das armas nos EUA: "Armas não matam pessoas; pessoas matam pessoas". A implicação é que devemos punir os criminosos, em vez de restringir a posse de armas. Analogamente, os formuladores de políticas deveriam assegurar que os participantes do mercado financeiro internalizem totalmente os riscos que assumem, em vez de taxar ou restringir certos tipos de transações.
Mas, como gosta de dizer o economista Avinash Dixit, de Princeton, o mundo não é sempre o melhor dos mundos. Uma abordagem que presume-se podermos identificar e regulamentar diretamente os comportamentos problemáticos não é realista. A maioria das sociedades controla diretamente as armas porque não podemos controlar e disciplinar perfeitamente os comportamentos, e os custos sociais dessa impossibilidade são elevados. Da mesma forma, a cautela sugere a regulamentação direta dos fluxos internacionais. Em ambos os casos, regulamentar ou proibir determinadas transações é uma segunda melhor estratégia num mundo onde o ideal pode ser inatingível.
A segunda complicação é que, em vez de convergir, os modelos nacionais de regulamentação financeira estão se multiplicando, até mesmo nos países que dispõem de instituições bem desenvolvidas. Juntamente com a eficiência da regulamentação financeira, é preciso considerar as dosagens relativas de inovação e de estabilidade financeira. Quanto mais desejamos de uma, menos da outra poderemos ter. Alguns países optarão por maior estabilidade, impondo duros requisitos de capital e de liquidez a seus bancos, ao passo que outros poderão favorecer maior inovação e implementar uma abordagem regulamentar mais branda.
Nesse aspecto, a livre mobilidade de capitais cria uma grave dificuldade. Tomadores de empréstimos e credores podem recorrer a fluxos financeiros internacionais para evadir controles internos e minar a integridade de normas regulamentares domésticas. Para evitar esse tipo de exploração de diferenças regulatórias", as entidades regulamentadoras nacionais podem ser obrigadas a tomar medidas contra as transações financeiras originadas em jurisdições com regras mais desregulamentadas.
Um mundo em que diferentes Estados regulamentam o sistema financeiro de maneiras distintas exige regras de trânsito para gerenciar as interseções de diferentes políticas nacionais. A premissa de que todos os países convergirão para o ideal da livre mobilidade do capital nos desvia da árdua tarefa da formulação dessas regras. (Tradução de Sergio Blum)
Dani Rodrik, professor de Economia Política Internacional na Universidade de Harvard, é autor de "The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy (O paradoxo da globalização: a democracia e o futuro da economia mundial).. Copyright: Project Syndicate, 2012.

Global Capital Rules
Dani Rodrik Dec. 13, 2012
The IMF has now put its stamp of approval on capital controls, thereby legitimizing the use of taxes and other restrictions on cross-border financial flows. Now the task is to devise the traffic rules needed in a world where different sovereigns regulate finance in diverse ways.

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 11h17
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KEYNES, O RETORNO

Para além dos erros republicanos, política social de Obama consolidou sua nova base eleitoral

LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO - FOLHA DE SÃO PAULO, caderno ILUSTRÍSSIMA, 11-11-2012

RESUMO A reeleição de Obama, na terça passada, deveu-se à radicalização conservadora de seu adversário, que selou o apoio aos democratas de imigrantes, mulheres e jovens, mas sobretudo às políticas sociais e à intervenção estatal para enfrentar a crise econômica, devolvendo à pauta as ideias do economista J.M. Keynes.

Passadas as surpresas de 6/11, parte dos comentaristas banaliza os resultados das eleições americanas. Assim, a campanha de 2012 não teria mudado nada em Washington. Barack Obama permanece na Casa Branca e o Congresso continua dividido como antes: maioria republicana na Câmara e democrata no Senado. Uma manchete do site do "New York Times" resumiu essa interpretação: "Obama obtém uma nítida vitória, mas a balança do poder não mudou em Washington".

Todavia, outros artigos do jornal nova-iorquino -e da mídia americana- alteram tal perspectiva. Efetivamente, como nas grandes viradas políticas geradas por um forte reposicionamento eleitoral, a vitória de Obama tem uma dupla dimensão: ela provoca a debandada de seus adversários republicanos e reforça o Partido Democrata.

Para além da contagem dos votos de uns e de outros no Congresso, um Partido Democrata renovado enfrenta agora um Partido Republicano apoplético: a balança do poder mudou, sim, em Washington. As longas e polêmicas primárias republicanas fragilizaram a candidatura Romney.

Em campanha há seis anos, desde as primárias para a eleição de 2008, o republicano teve primeiro que terçar armas no seu próprio partido. Na sequência da radicalização inaugurada por Sarah Palin em 2008, o sucesso de Rick Santorum entre os partidários do Tea Party e das teses mais conservadoras, levou a campanha republicana muito para a direita.

Romney teve de correr atrás dos votos de Santorum, fazendo declarações que queimaram seu prestígio junto aos republicanos mais liberais, aos latinos e aos trabalhadores das indústrias socorridas pelo governo federal. Aproveitando essas derrapadas e as controvérsias sobre o passado empresarial de Romney, os marqueteiros democratas pegaram pesado, apresentando-o como um ricaço insensível aos pobres.

No meio do ano, um anúncio da campanha de Obama na TV responsabilizava Romney pelo fechamento de fábricas e entrevistava metalúrgicos desempregados que o chamavam de "vampiro".

Houve também uma radicalização de Romney nos temas relativos à política externa e às suas ameaças diretas à Rússia e à China. Sobretudo ficou patente sua hesitação na política interna e sua inexperiência diplomática. Chamando Romney de "volúvel" ("ever-changing"), a revista conservadora britânica "The Economist" declarou seu apoio à reeleição de Obama.

Perdendo o pé junto aos latinos -que anteriormente pesavam menos no eleitorado e, em boa parte, votavam republicano-, afastados do eleitorado feminino e dos jovens, os republicanos saem das eleições enfraquecidos e desorientados. Para alguns comentaristas, a viabilidade nacional do partido está agora posta em questão.

OBAMA Tais circunstâncias permitiram que Obama se situasse como um líder mais coerente na política econômica e mais moderado no campo internacional. No discurso da vitória, em Chicago, Obama sublinhou dois pontos que considerava como trunfos de seu primeiro mandato: "a economia está se recuperando" e "uma década de guerras está terminando", referindo-se à retirada das tropas americanas do Afeganistão.

A força e o vigor do partido democrata nascem do enraizamento da aliança social e política que levou Obama à Casa Branca quatro anos atrás. Como notaram os editorialistas americanos, o erro mais importante da direção republicana consistiu em considerar que Obama havia sido eleito meio por acaso. Para esses dirigentes, o início da Grande Recessão e o estrondo de setembro de 2008, com a bancarrota do Lehman Brothers, teriam baqueado o governo Bush e entregado a Casa Branca de bandeja para Obama.

Depois disso sua vitória teria virado pó. A prova? Obama sofrera uma pesada derrota nas legislativas de 2010 e, num contexto econômico ainda difícil, não teria condições de se reeleger. A taxa de desemprego beira 8% nos EUA e, desde os anos 1930, nenhum presidente havia conseguido se reeleger com essa taxa acima de 7,2%. A fieira de dirigentes europeus derrubados pela crise nas eleições dos últimos anos parecia confirmar o raciocínio dos republicanos.

Em maio, o portal de notícias "Examiner", baseado em Denver, perguntou: "A eleição de Obama em 2008 foi um golpe de sorte ("fluke")"? Agora, do jornal "Washington Post", numa análise de escopo nacional, ao "Richdmond Times Dispatch", num balanço sobre a Virgínia (Estado vezeiro no cerceamento do voto das minorias, onde Obama venceu pela segunda vez), a maioria dos editorialistas constata: 2008 não foi um "fluke", a reeleição demonstra que o presidente construiu uma base política consistente.

As mulheres solteiras, os jovens, os latinos, os negros, os asiáticos, os trabalhadores industriais e setores liberais dos Estados situados nos litorais oceânicos americanos reelegeram Obama. Essa coalizão deu novo impulso aos democratas, até porque a maioria democrata no Senado também evoluiu.

Conhecido como "Blue Dog", o grupo de senadores democratas conservadores ou moderados reduziu-se, cedendo lugar para senadores mais próximos dos princípios de solidariedade social e de regulação econômica que têm sido esconjurados desde a era Reagan (1981-89). Outros pontos do novo perfil democrata são mais sutis.

Ainda em maio, numa entrevista exclusiva à rede ABC, concedida a uma jornalista amiga, Robin Roberts, Obama declarou-se favorável ao casamento gay. Ele tomou a iniciativa de caso pensado, sabendo que a militância mais jovem, essencial na sua campanha, apoia amplamente tal declaração. Sabia também que a porcentagem dos americanos favoráveis a essa forma de união passou de 27% em 1996 a 53% em 2012, segundo pesquisa do Gallup, e que os casais gays são importantes doadores do Partido Democrata.

A análise detalhada dos resultados eleitorais imprime um significado histórico à vitória democrata. Tome-se o caso de dois Estados-chave nesta e noutras eleições, cujo resultado decide a parada no nível nacional, Ohio e Flórida.

A maioria dos comentaristas concorda que a vitória de Obama em Ohio (nenhum republicano venceu a corrida presidencial sem ganhar neste Estado), e no vizinho Michigan (onde o pai de Romney foi governador, onde ele cresceu e tem parentes) deveu-se à intervenção e aos empréstimos do governo federal para salvar um milhão de empregos da indústria automobilística combalida pela crise.

Na hora em que escrevo, a contagem de votos ainda não terminou na Flórida e o resultado do escrutínio ali tornou-se irrelevante: Obama ganhou a parada, mesmo perdendo na Flórida. Mas a apuração indica a vitória democrata. Além disso, num referendo estadual, os eleitores da Flórida repudiaram restrições ao "Obamacare", a reforma do sistema de saúde que favorece os pobres e regula as empresas do setor.

Na Flórida, e mais incisivamente na Virgínia e noutros Estados onde os democratas venceram, pesou o voto dos latinos e de outras minorias assustadas com a política anti-imigratória apregoada por Romney. Mas há camadas sociais mais densas que ajudaram a reeleger o presidente.

As pesquisas de boca de urna mostraram que Obama venceu entre os eleitores de menor renda (abaixo dos US$ 50.000 anuais) e que sua vantagem é ainda maior entre os mais pobres. Nesse contexto, sua reeleição permite avançar na implementação do novo sistema de saúde, consolidando a reforma e a base social dos democratas.

O apoio mais amplo do eleitorado às intervenções do governo federal na defesa dos empregos industriais e na proteção social, reabilita os investimentos e as políticas públicas.

Considerado peça de museu por boa parte dos economistas e dos ideólogos, o keynisianismo está de novo na ordem do dia nos EUA.

 

RUMA À NOVA POLÍTICA FEDERAL

Por Diego Viana | De São Paulo

Para Luiz Felipe de Alencastro, 2012 se insere na trajetória pós-redemocratização e esboça a futura cara do federalismo

VALOR ECONÔMICO, 21-12-2012

 

O ANO EM QUE KEYNES VOLTOU

O Fed adotou a mais heterodoxa das medidas de combate ao elevado desemprego - que é a vinculação da política monetária a um nível mínimo de ocupação no mercado de trabalho - e surpreendeu os mercados

Autor(es): Luiz Carlos Mendonça de Barros

Valor Econômico - 17/12/2012

A intensidade da crise econômica que, apesar de estar entrando em seu sexto ano, ainda domina a maior parte do planeta tem consolidado as chamadas terapias monetárias heterodoxas por parte dos bancos centrais de vários países. Ainda agora o Federal Reserve nos Estados Unidos (Fed) alterou - mais uma vez - os parâmetros para sua atuação ao vincular sua política de juros à recuperação na taxa do desemprego. Foi mais longe ainda ao elevar a meta para a inflação limite - agora 2,5% ao ano - que, se atingida, forçaria uma reversão na política monetária acomodatícia que prevalece há alguns anos.

O leitor pode imaginar os murmúrios e imprecações que devem estar sendo ouvidos nos corredores das instituições financeiras de Wall Street depois dessas decisões. Os marcos mais importantes que orientavam a atuação do Fed foram abandonados progressivamente nos últimos anos. A elevação da meta da inflação decidida agora representa um verdadeiro tapa na face dos conservadores.

No lugar das formas tradicionais de intervenção o Fed criou novos instrumentos de ação. Juros próximos de zero, recompras maciças de títulos públicos, linha de tempo para marcar compromissos com mudança de políticas foram os meios usados recentemente para enfrentar a recessão que se instalou na maior economia do mundo. Agora, a mais heterodoxa das medidas de combate ao elevado desemprego - que é a vinculação da política monetária a um nível mínimo de ocupação no mercado de trabalho - surpreendeu.

E preciso esperar um pouco para ver minha tese de recuperação mais sólida em 2013 e 2014 ser comprovada

Mas o mais difícil para os conservadores aceitarem - e que certamente está criando uma profunda melancolia dos velhos tempos - é que a inflação continua se reduzindo e não se acelerando. Afinal, já se vão quatro anos de política de juros baixos e crescimento soviético da quantidade de dólares em circulação nos mercados financeiros e a inflação não aparece. Tomemos o índice de preços ligados ao consumo dos americanos - chamado de PCE - e que é o indicador preferido do Fed para acompanhar a inflação. A taxa anual de variação dessa cesta de preços foi 1,5% em outubro de 2010, 1,6% em outubro de 2011 e 1,4% em outubro passado. Nessa última sexta-feira foram divulgados os índices de inflação relativos ao mês de novembro: apenas 1,8% superior ao do ano passado.

Claramente o Fed é hoje uma instituição totalmente controlada pelos seus membros mais heterodoxos, sob a liderança de Ben Bernanke. Os sucessos obtidos nos últimos anos - recuperação do crescimento e a ausência da inflação tão cantada pelos conservadores - têm aumentado a confiança da equipe na busca de uma vitória final e duradoura sobre a crise econômica que se seguiu à ruptura da bolha imobiliária em 2008. E tenho certeza de que, se o bom senso prevalecer nos partidos Republicano e Democrata, isto será conseguido ao longo de 2013.

Mas a grande vitoriosa, se isso ocorrer, será uma escola de pensamento econômico que tem por tradição uma leitura mais realista e livre das economias de mercado. Ao trocar dogmas rígidos, quase de fundo religioso, por uma metodologia aberta, os keynesianos se encontram em condição mais favorável para exercer sua profissão principalmente em duas situações: no início de períodos dominados pela euforia e durante os momentos em que os sentimentos que prevalecem são o medo futuro e de suas incertezas. Como vem ocorrendo nos últimos três anos.

A partir das primeiras batalhas teóricas de Lord Keynes contra os membros da chamada escola clássica, no início do século XX, essa forma de entender os fenômenos econômicos de mercado foi evoluindo. Depois de décadas no ostracismo, foi resgatada pela crise criada pela febre liberal, que atacou o mundo a partir de 2004. O dramático desses eventos é que foi o próprio Fed, com uma leitura radicalmente oposta à da direção atual, que funcionou como acelerador da crise instalada nas economias mais importantes do mundo. A crença na racionalidade intrínseca dos mercados e na necessidade de deixá-los com suas mãos livres para que o potencial de crescimento das sociedades seja atingido foi a marca dos quatro anos que antecederam a crise imobiliária americana.

Minha formação como economista sempre foi feita seguindo os conceitos e, principalmente, a metodologia de análise dessa escola de pensamento. Mas nunca fui dogmático e sempre procurei raciocinar com liberdade. E neste ano que se encerra, por seguir esses princípios, provei o gosto de muito acertos. O leitor do Valor pode acompanhar essas minhas "vitórias" no caso do colapso do euro, que eu nunca comprei, do "hard landing" na China, que nunca esperei, e da decadência final da economia americana, que nunca enxerguei. No caso do Brasil será preciso esperar um pouco mais para ver minha tese de uma recuperação mais sólida em 2013 e 2014 ser comprovada. Neste caso dependo ainda de que o governo deixe de lado alguns pontos de sua agenda econômica, principalmente o tabu das concessões de serviços públicos.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

 

AMÉRICA LATINA E CARIBE EM 2013

por Hasan Tuluy
Nos próximos anos, a região terá que enfrentar desafios difíceis, antigos e novos, desde os efeitos da rápida urbanização ou da degradação ambiental, até os choques econômicos globais
Valor Econômico - 19/12/2012

 

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 11h07
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Sábado , 10 de Novembro de 2012


FOLHA DE SÃO PAULO - TENDÊNCIAS/DEBATES

O Brasil está abandonando o tripé macroeconômico (meta de inflação, superavit primário e câmbio flutuante)?

SIM

Metas de juros e câmbio, não de inflação

por Eduardo de Carvalho Andrade

O tripé macroeconômico, composto por meta de inflação, câmbio flexível e equilíbrio fiscal, não existe mais como antigamente. Outros objetivos do governo entraram em conflito com o seu funcionamento. A tendência é que a situação piore.

No que se refere à meta de inflação, pode parecer que não houve alteração. Afinal, é possível que em 2013, como em 2011 e 2012, a inflação não ultrapasse o teto da meta (6,5%). Além do mais, a crise internacional justificaria uma flexibilização, com o Banco Central usando o espaço de manobra permitido pelas bandas do regime -a margem de dois pontos percentuais para mais ou menos, a partir do centro da meta (4,5%).

Um olhar mais cuidadoso, no entanto, mostra outra realidade. Não parece existir uma estratégia por parte do BC de guiar as expectativas de mercado, e por conseguinte a inflação, para o centro da meta num horizonte futuro, como se espera da atuação da autoridade monetária em um regime de metas de inflação.

O nível de atividade da economia brasileira se recupera agora, em um momento em que a taxa de desemprego está em um dos patamares mais baixos. A pressão por aumento de salários deve bater mais forte na inflação quando Dilma estiver se preparando para a sua reeleição.

Assim, será difícil que o BC suba a taxa de juros na magnitude necessária para levar a inflação para 4,5% em 2014. Principalmente depois que a presidenta gastou o seu capital político para alterar a remuneração da poupança e entrou em disputa com os bancos para reduzirem os juros. E tal ação entraria em conflito com seu objetivo de crescimento econômico de curto prazo.

O mais provável então é que, nos anos do governo Dilma, a inflação não chegue perto nem apresente convergência para o centro da meta. Mesmo com o governo utilizando métodos pouco convencionais para controlar a inflação, como segurar o preço da gasolina, com consequências negativas sobre a capacidade de investimento da Petrobras.

Quanto à segunda perna do tripé, taxa de câmbio flexível, não existe dúvida de que o governo simplesmente a abandonou. Está satisfeito com o patamar de R$ 2 por dólar.

É aí que o objetivo do governo, de defesa da indústria, prejudica o funcionamento do tripé. Ao intervir, diretamente e verbalmente, no mercado de câmbio, a equipe econômica impede uma valorização cambial que reduziria a competitividade dos nossos produtos industriais.

É claro que o governo consegue manter o câmbio fixo temporariamente. Mas essa política compromete o trabalho do BC de atingir a meta de inflação. Quando ocorrer uma recuperação mais forte da economia mundial, com uma maior pressão para valorização do câmbio, esse conflito ficará mais evidente.

Por fim, a última ponta do tripé, o equilíbrio fiscal. Ele sempre foi entendido como a gestão das contas públicas para evitar o descontrole da dívida -daí as metas para o déficit primário (diferença entre receitas e despesas não financeiras).

É verdade que o governo reconheceu que não cumprirá a meta para este ano, como já ocorreu em 2009 e 2010. Como antes, a justificativa dada é a crise internacional: redução de impostos e aumento dos gastos para ativar a economia. De fato, não há risco no horizonte de uma explosão no endividamento do governo.

O que preocupa, neste componente do tripé, são os subsídios para o setor privado que são feitos pelos bancos oficiais. É uma política feita sem aprovação do Congresso e vendida como se não gerasse desequilíbrio fiscal. Se não limitarmos essa estratégia, ela colocará em risco a estabilidade macroeconômica.

Metas para o câmbio, juros e crescimento de curto prazo não são compatíveis com o tripé macro. O governo parece já ter feito a sua escolha.

EDUARDO DE CARVALHO ANDRADE, 45, doutor em economia pela Universidade de Chicago, é professor da Faculdade Insper

 

PAULO GALA

 

NÃO

Princípios intactos, mas com pragmatismo

por Paulo Gala

Os pilares de nossa política econômica continuam intactos, só que as metas passaram a ser usadas com bom senso, não de modo dogmático.

Começo pela questão fiscal.

O Brasil tem hoje uma das posições fiscais mais robustas do mundo. Basta ver nossos custos de captação de dinheiro no mercado internacional. Nunca pagamos tão pouco para captar a prazos longos, indicação clara de que o mercado vê a robustez de nossas contas públicas.

É fato que o Ministério da Fazenda já admitiu que não cumpriremos a meta cheia do superávit primário (diferença entre receitas e despesas não financeiras) neste ano, mas isso deve ser analisado em perspectiva.

Num contexto de forte desaceleração mundial e local, ter algum resultado primário é louvável. Basta comparar o resultado de nossas contas publicas de 2011 com as de outros países emergentes ou mesmo ricos. Outra comparação possível é a da nossa relação dívida/PIB, cerca de 35%, uma das menores do mundo. Poucos países apresentam tal solidez.

O sucesso dos últimos dez anos, claro, não permite leniência com o futuro. Mas usar essa margem de manobra em momentos difíceis como o atual me parece fazer total sentido.

Melhor ainda, aliás, se o superavit não for atingido graças às bem-vindas desonerações tributarias. Também não é demais lembrar que os cortes da Selic estão trazendo grande economia fiscal. O deficit nominal zero (que conta os gastos com juros) está logo ali. O governo Dilma não abandonou a solidez fiscal.

Sobre a questão da inflação, a mesma lógica se aplica.

O principio está correto, continua sendo seguido. Novamente, a meta central de inflação de 4,5% não será atingida. Devemos fechar o ano com um IPCA próximo a 5,5%. Mas daí a dizer que a inflação está fora do controle -ou que o governo abandonou a meta- há um longo caminho.

O grande vilão da inflação por aqui, neste ano, foi a subida de preços de alimentos por causa da seca americana. O Banco Central poderia ter combatido (talvez em vão) essa subida com aumentos da Selic, mas é preciso pensar: qual o dilema enfrentado pelo BC nesse caso?

Subir a taxa de juros e agravar ainda mais o nível de atividade econômica no Brasil? Ou acomodar o choque e tolerar uma inflação 1% maior?

O mesmo dilema surgiu em 2011. O BC optou nessas duas ocasiões por não sacrificar ainda mais o já combalido nível de atividade para seguir dogmaticamente o centro da meta.

A subida de preços dos últimos dois anos se deveu ao aquecimento do mercado de trabalho e a importantes choques de oferta nos preços dos alimentos. Vários países emergentes apresentavam inflação de 12 meses em linha com a brasileira (ou maior) em outubro último. Nossa inflação não está fora de controle.

Finalmente, a política cambial.

Há sim um piso informal de R$ 2 que o governo tenta defender. Mas ele é momentâneo, não uma taxa fixa e formal nem uma garantia para o futuro, um comprometimento. O regime formal de câmbio continua sendo o flutuante -ainda que, no contexto atual, flutue muito pouco, mas nada impede que isso mude.

O governo sabe que o cálculo de uma taxa "correta" ou "adequada" para o câmbio é muito complexo e dinâmico. Mas não saber exatamente qual a taxa "correta" não significa que se ausentar totalmente seja o melhor caminho. O mercado comete muitos exageros para cima e para baixo, como bem sabemos. Um comportamento contracíclico do governo não me parece algo ruim.

A experiência internacional é bastante clara. Não precisamos chegar no extremo da China, que acumulou mais de US$ 3 trilhões comprando reservas. Basta olhar o que fazem países como Coreia do Sul, Japão, Tailândia, Malásia e Colômbia.

Os pilares macroeconômicos são iguais. Agora, há mais pragmatismo.

PAULO GALA, 36, doutor em economia pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, é professor da mesma instituição

 

 

A crítica impertinente

Antonio Delfim Netto

A crítica à política econômica do governo é bem-vinda, mas há de ser objetiva e honesta sobre a qualidade e eficiência dos instrumentos usados para atingir os fins que levaram os eleitores a escolher o governante

Valor Econômico - 13/11/2012

Todos os leitores do Valor são "ipso facto", bem informados. Sabem que o mandato de Mervyn King, o atual Governador do "The Bank of England" está terminando e que o banco e o Tesouro de Sua Majestade estão à procura, com anúncios públicos no mundo, de um substituto.

No dia 9 de outubro na London School of Economics, para comemorar o 20º aniversário da introdução do sistema de "metas inflacionárias" na Inglaterra, King deu uma aula interessante sobre a história do sistema, seus fundamentos intelectuais, suas vantagens e seus problemas. Refletiu sobre o período da "grande moderação" (1997-2007) e a valorização da libra de 25% contra outras moedas, "não inteiramente explicável", para revelar numa espécie de lamento: a tardia descoberta que a estabilidade dos preços não é condição suficiente para a estabilidade do sistema financeiro. Na última frase da humilde e extraordinária confissão, King engole em seco a prepotência que costuma dominar alguns pseudos cientistas monetários e entrega a sua mensagem: "Entendemos menos do que gostaríamos sobre como funciona a economia." E completou: "O desafio para melhorar nosso entendimento e desenvolver novas ideias é para vocês - a próxima geração de estudantes e acadêmicos na London School of Economics e noutros lugares. Vão em frente."

A leitura das reflexões de um competente economista, suportado pelo "crème de la crème" dos profissionais do departamento de pesquisa econômica do Banco da Inglaterra, é um antídoto às proposições apodíticas de analistas mais afoitos, que costumam afirmar o que deveriam demonstrar. Outro dia um deles discorreu com toda a segurança a respeito "dos efeitos sobre o consumo privado das despesas do governo" usando implicitamente um modelo muito conhecido. Ignorou, sob os olhos embevecidos do entrevistador que outro modelo, também respeitável sugere conclusão oposta. Trata-se, obviamente, de um problema empírico, mas o pior é que não há método econométrico que decida definitivamente a questão. Ao contrário do que se poderia pensar, a afirmação não é falta de conhecimento, mas produto do domínio da "antipatia" à política governamental.

É o caso, por exemplo, da pergunta intrigante se o Brasil está abandonando o famoso "tripé" da política econômica adotada em 1999, depois de termos nos socorrido às pressas do Fundo Monetário Internacional, e que não nos poupou de voltar a ele em 2002: 1º) política fiscal responsável que mantenha relativo equilíbrio e produza um superávit primário que reduza a relação dívida líquida/PIB a alguma coisa parecida com 30% do PIB; 2º) meta inflacionária de 4,5% (+ ou - 2%) e ainda; 3º) um sistema de câmbio flutuante. No período de 1999-2011 isso produziu: taxa de crescimento médio do PIB 3,4%; taxa de inflação média anual de 6,8%; déficit em conta corrente acumulado US$ 188 bilhões. Esses números estão longe de razoáveis quando comparados com outros países emergentes. Onde nossa diferença é significativa, é no esforço de "inclusão" social visto no gráfico 1 e na convergência da relação dívida líquida/PIB vista no gráfico 2, que têm tudo a ver com a política social feita sob o controle da política fiscal. O último mostra, aliás, a importância exagerada que se dá aos pequenos "desvios" entre o superávit primário programado e o efetivamente realizado, diante da tendência clara de queda da relação dívida líquida/PIB. O pecado do governo é tentar mistificá-los com a contabilidade "criativa" que lança dúvida sobre sua credibilidade. Mesmo usando o conceito de dívida bruta/PIB (59%), a situação é confortável. A aritmética preocupante é que o custo da dívida líquida é pouco sensível às variações da taxa Selic, uma vez que as reservas e os imensos créditos ao BNDES já somam um quarto da dívida bruta/PIB e rendem muito menos.

A crítica à política econômica do governo é bem-vinda

Os fatos não parecem indicar nenhum desvio mais importante na política econômica canônica que vimos usando com o necessário pragmatismo imposto pelas mudanças da realidade nacional e mundial. Um magnífico artigo de dois sofisticados economistas do nosso Banco Central (Sales, A.S. - Barroso, J.B.R. - "Coping with a Complex Global Enviroment", W.P. 292, Oct. 2012) é leitura obrigatória sobre esse assunto.

A crítica à política econômica do governo é bem-vinda. É mesmo uma necessidade. Não é razoável supor que o simples fato de alguém estar eventualmente numa situação de "poder" lhe transfere o benefício da infalibilidade. Nem que, para o poder incumbente, a eleição por uma maioria eventual lhe confira a "onisciência" que exija a sua "onipresença". Mas a crítica há de ser objetiva e honesta sobre a qualidade e eficiência dos instrumentos utilizados para atingir os fins que levaram os eleitores a escolhê-lo. A crítica "aos fins" termina na campanha eleitoral. A minoria há de conformar-se, por exemplo, quando a sociedade exagera na escolha de mais "inclusão" do que "crescimento" ou "estabilidade monetária", o que - os economistas sabem - pode levar, no prazo médio, à perdição dos três! Nesse caso resta ao poder incumbente trocar o pneumático com o carro andando, ou ser dispensado na próxima eleição...

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

 

PARA ONDE VAI O TRIPÉ?

por Antonio Delfim Netto

O mundo está mudando, mas até agora ninguém ousou dizer que ele está jogando fora o religioso tripé objeto de adoração dogmática de alguns dos nossos mais brilhantes sacerdotes

Valor Econômico - 18/12/2012

Escrito por Porfiro / Twitter: @jporfiro às 19h30
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